Wanda – Uma análise de filme com ferramentas feministas

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 Nos textos anteriores, escrevi sobre algumas maneiras de se fazer uma análise fílmica, principalmente uma análise fílmica feminista. Neste texto, pretendo colocar em prática o que escrevi, e o farei no seguinte esquema: serão analisados dois filmes, um de diretora mulher e outro de diretor homem, pois sendo um dos focos a questão da representação e de como somos representadas, pretende-se refletir quais seriam as diferenças e igualdades dadas nos tratamentos aos temas considerados femininos, como maternidade, violência, papel da mulher.

Os filmes são Wanda (Barbara Londen, 1970) e Alice não mora mais aqui (Martin Scorsese, 1973). Para haver comparação, os dois filmes analisados possuem as seguintes semelhanças: ambos são road movies1 e foram produzidos e lançados na década de 1970; ambos retratam mulheres de classe baixa; ambos podem ser considerados filmes alternativos, pois, apesar de o filme de Scorsese ter sido produzido pela Warner Bro., ele manteve o estilo inovador do New American Cinema na forma de filmar.

Por fim, haverá um último texto, no qual farei a comparação entre os filmes e que conterá a bibliografia.

Wanda

O filme é sobre Wanda (Barbara Loden), uma mulher que, após se separar do marido, um minerador da Pensilvânia, e abandonar seus filhos, envolve-se com um ladrão mequetrefe, o Sr. Dennis (Michael Higgins), e parte em um road movie com ele.

Wanda foi lançado em 1970 e é o único filme de Barbara Loden, que foi diretora e roteirista da obra.
O filme tem uma imagem granulada, que provoca uma sensação de estranhamento. As cores são frias, as locações são feias, e o que mais aparece é a cor cinza das minas e das estradas. Os sons são diegéticos, ouvimos o barulho do carro no asfalto, do caminhar nas pedras etc. Não há trilha sonora, a única música que se ouve é no fim do filme, quando uma banda está tocando em um bar onde Wanda se encontra.

wanda Barbara Londen, 1970

Laura Mulvey escreveu que o papel do homem no filme clássico é do ativo, “no sentido de fazer avançar a história, deflagrando os acontecimentos”2; mas aqui os acontecimentos são feitos por Wanda, ela deflagra a história, o olhar é dela, mesmo sendo às vezes um olhar perdido.

Mas quem é Wanda? De acordo com as palavras do ex-marido (Jereme Theier) para o juiz:

– Não se importa com nada. É uma péssima mulher. Vive vadiando e bebendo. Nunca se importou comigo ou com as crianças. Eu acordava para trabalhar, eu mesmo fazia o café, vestia as crianças e quando voltava do trabalho, ela estava deitada no sofá, as crianças sujas, as fraldas espalhadas no chão. Às vezes as crianças estavam na rua, sem ninguém tomando conta 3.

Ao solicitar um emprego, respondem a ela:

– Você é muito lenta.

Nas palavras de Sr. Dennis, após uma conversa em que Wanda afirma que nunca teve nada:

– Se não quiser nada, não terá nada. Quando não se tem nada, você se torna nada! Melhor estar morto. Nem sequer é um cidadão americano 4.

Nas palavras da própria Wanda:

– Não tenho nada, nunca terei nada.

– Sou estúpida.

Quando perguntada por seu marido e seus filhos, responde:

– Deve ter encontrado uma boa esposa de verdade.
– Eu não presto.

Wanda não é considerada uma boa mulher por não querer ser mãe e esposa padrão, não serve para produção do capitalismo norte-americano e, de acordo com ela própria, “não presta”. Wanda não se enquadrava no padrão de pessoa útil à sociedade, ela casou e teve filhos, mas não parecia interessada por eles. Possivelmente ela fez o esperado no período e na sociedade onde ela vivia; na década de 1970, em uma classe baixa, num bairro onde não haveria acesso à educação, Wanda só poderia ser esposa e mãe.

Em umas das cenas iniciais, ela anda por entre as minas de carvão, a câmera no alto a faz parecer um ponto branco no meio do cinza, um astronauta andando em um planeta que não é o seu. Na sua ida para o juiz para fazer o divórcio, ela é filmada dentro do ônibus, sozinha, a câmera fica longe, e ela fica lá, em seu mundo. Nunca se sabe o que ela pensa, muitas vezes ela não consegue nem levantar os olhos, olhando para baixo, como se pedisse desculpa por estar ali.

wanda Barbara Londen, 1970
No tribunal, enquanto todos esperam por ela, o ex-marido fala que é típico dela o desrespeito às normas, no entanto ela está lá fora, em frente ao tribunal, com medo, receio, vergonha? E, quando entra, apesar de fumando, parece tímida, braços cruzados, ombro curvados, cabeça baixa. Não responde quando o juiz pergunta se ela abandonou a família, apenas fala “se ele quer o divórcio, dê a ele”; quando perguntada sobre as crianças, fala “vão ficar melhor com ele”. Ela não se mostra, nem como a irresponsável vagabunda e bêbada descrita pelo ex-marido nem como uma militante feminista que luta pelo direito de escolher seu próprio caminho.

Carente, está sempre pronta para catar migalhas de carinho, de aceitar qualquer forma de contato. Ela conhece o Sr. Dennis, o ladrão a quem depois vai se vincular, quando entra em um bar que ele está assaltando para ir ao banheiro. Ela nunca deixa de tratá-lo por senhor, nunca critica o modo como ele consegue dinheiro, aceita os desmandos do mesmo jeito que aceita os poucos carinhos; há uma submissão que vem da necessidade de ter alguém ao lado.

Wanda não é a mulher do feminismo militante daquele período, nem a conservadora que mantém os pressupostos sociais, Wanda não é um grupo, ela é um indivíduo, ela é a mulher não atingida pelas teorias feministas, apesar de estar oprimida por uma sociedade.

Mas as atitudes de gênero esperadas de uma mulher estão criticamente presentes no filme. Na cena inicial, Wanda acorda na casa de uma mulher, que pode ser a sua irmã, e na cena vemos a irmã acordar cedo, cuidar das crianças, preparar o café, e o marido sair sem dar um bom dia, resmungando, em uma relação conflituosa. O discurso do ex-marido para querer o divórcio e se casar novamente é a necessidade de os filhos terem uma mãe. O Sr. Dennis obriga Wanda a usar vestido, pois para ele é a única roupa apropriada à mulher. Ele faz uso constante da ameaça ou da violência física, e Wanda, apesar de algumas vezes reclamar timidamente, obedece; a violência fazia partes das relações. Todas são relações de opressão historicamente construídas, sendo o papel da mulher ser mãe e esposa, aceitar os desmandos do homem e colaborar com as suas atitudes.

O Sr. Dennis tem atitudes consideradas machistas, como o uso da violência, obriga Wanda a tomar determinadas atitudes e se considera o líder da dupla. Mas ele também é cobrado a se enquadrar no padrão social esperado para um homem de bem, como ter um emprego fixo, casar-se, estabelecer residência.wanda Barbara Londen, 1970

A relação dele com Wanda é uma relação entre perdidos, entre marginais, pessoas que não se enquadram na sociedade do período, não por não seguirem o sexo/gênero/sexualidade exigidos culturalmente naquele momento, mas por não se inserirem dentro do meio da produção capitalista. O filme é sobre isso, pessoas que não se encaixam, seres fracassados socialmente. Eles não estão juntos por amor, apenas pela necessidade de ter outro ser humano por perto.

Um ponto de interessante é o lugar do trabalho, pois nas minas são todos homens, e quando Wanda vai à fábrica de roupa são todas mulheres, mostrando assim lugares específicos de trabalho para cada gênero.

O Sr. Dennis planeja um assalto a banco, com a participação de Wanda, que fingindo estar grávida e passando mal, faz com que eles entrem na casa do gerente de banco, consigam prender a família e sob a ameaça de uma bomba deixada na casa e que será desativada assim que terminar o assalto, forcem o gerente a levar o Sr. Dennis até o banco. Apesar de inicialmente se recusar a participar de algo contra a lei, Wanda aos poucos se envolve com o plano e durante a execução, quando há uma briga entre o gerente e o Sr. Dennis e este solta o revolver, Wanda automaticamente o pega e rende novamente o gerente, continuando o assalto. Após essa cena, Sr. Dennis elogia sua atitude, e Wanda sorri satisfeita. Percebemos toda a carência de Wanda em ser reconhecida, elogiada, a necessidade de fazer parte de algo, mesmo que seja um plano de assalto, em uma atitude de total marginalidade.

O fim do filme é emblemático. Mais perdida que nunca após a morte do Sr. Dennis no assalto que deu errado, Wanda olha para a câmera assustada, confusa. Vai para um bar onde conhece um homem que a leva de carro até umas pedreiras, lá ele tenta fazer sexo com ela, e ela parece aceitar apaticamente, mas de repente começa a gritar, se debater e a bater no homem, fugindo do carro; não está mais tão apática, ela corre chorando, está só, entre as árvores. Já à noite, andando, chega a um conglomerado de casas, há música tocando e risos, uma mulher passa por ela, entra em uma casa e depois observa Wanda da janela, que está lá de braços cruzados, triste e perdida. Ao voltar, pergunta se ela espera por alguém; é a primeira mulher a interagir com Wanda e a lhe oferecer ajuda. Ela leva Wanda até uma festa; é a primeira vez que ela aparece num contexto em que há música e alegria, e a câmera passeia por entre as pessoas, mostrando a festa, mas termina no rosto de Wanda, que quieta, fumando, de olhos baixos; nada expressa.

O filme em nenhum momento julga Wanda ou o Sr. Dennis, ou os seus atos. Podemos dizer que é um filme que questiona as escolhas que havia na época, pois quando a pessoa não se enquadra, a única saída é a margem da sociedade. Essas opções temáticas, só são possíveis em um filme fora do contexto dos grandes estúdios, e a ternura com que a personagem é tratada, indica que há uma identificação entre diretora/personagem.

1 Road movie é um subgênero cinematográfico em que os personagens atravessam estradas ou outras redes viárias em busca de um objeto, quase sempre sofrendo transformações na sua visão do mundo ou de si mesmo no percurso.
2 Mulvey, L. “Prazer visual e cinema narrativo (1975)”. In: (Org.) Xavier, I. A experiência do cinema. 4° ed. Rio de Janeiro: Edições Graal Embrafilme, 1983, p. 445.
3 O marido não possui nome, assim como a maioria dos personagens. Barbara talvez quisesse passar a ideia de que para a sociedade americana aquelas pessoas eram invisíveis, assim não foram nominadas.
4 Fala de Sr. Dennis, interpretado pelo ator Michael Higgins.

Lia Mendes
Lia Mendes
Especialista em História Sociedade e Cultura pela PUC, estuda o feminismo, corpo e sexualidade e suas relações com as mídias audiovisuais. Professora do ensino fundamental e médio da rede particular da cidade de São Paulo.

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