Uma atuação que, além de arte, é luta!

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Uma atuação que, além de arte, é luta!

Como mulher, lésbica, casada, que vive todas as alegrias e também as dificuldades de um relacionamento com outra mulher, uma das coisas que mais me incomodam quando a arte televisiva ou cinematográfica tenta recriar um casal de mulheres é a falta de uma representatividade real. Geralmente são criados estereótipos, seja para um lado (o de duas mulheres lindas e sexys juntas, atendendo ao imaginário masculino) ou para o outro (o de uma delas machona, fazendo o papel de homem, e a outra, bem feminina, o da mulherzinha). Não existem casais dentro desses dois perfis? Claro que existem!! Mas tratar a exceção como regra é rotular. E aí, a cena que deveria causar em nós, lésbicas, a sensação de estarmos sendo representadas causa a de estarmos sendo erroneamente estereotipadas.

Mas estamos aqui no Las Abuelitas justamente para falar de arte de respeito feita por mulheres, certo? Então, quero destacar duas mulheres, na verdade três, todas heterossexuais, mas que, na minha opinião, estão fazendo a diferença na representação das mulheres homossexuais. São elas a cantora Jennifer Lopez e as atrizes Teri Polo e Sherri Sauw. A obra que as une: o seriado americano The Fosters. No roteiro, o dia a dia de um casal inter-racial de mulheres que têm um filho biológico (na verdade fruto do primeiro casamento de uma delas) e outros quatro adotados.

THE FOSTERS – ABC Family’s “The Fosters” stars Cierra Ramirez as Mariana, David Lambert as Brandon, Jake T. Austin as Jesus, Teri Polo as Stef, Sherri Saum as Lena, Hayden Byerly as Jude and Maia Mitchell as Callie. (ABC FAMILY/Andrew Eccles)

Criada pelos roteiristas Bradley Bredweg e Peter Paige, desde o início ela tem produção executiva de J. Lo. Apesar de não ter participado da concepção da série, a cantora afirmou em entrevista que desde que recebeu o convite se jogou de cabeça, usando seu poder de estrela para viabilizar as gravações. “Eu sabia que associar meu nome iria chamar atenção para o seriado e também criar polêmica por causa do assunto.”

O motivo de sua decisão: uma tia de J. Lo, irmã de sua mãe, era gay. “Ela era minha tia favorita, e eu pensei que isso seria uma forma de homenageá-la, porque ela teve um tempo difícil ao crescer sendo lésbica naquela época”, disse a um site americano.

O “empurrão” funcionou. A série está em sua quarta temporada (duas delas disponíveis no Netflix) e foge ao estilo da maioria, como eu disse lá no começo, realmente representando um casal de mulheres de forma correta. Steff e Lena têm brigas bobas pelos afazeres da casa, discordam de estilos de educação dos filhos, têm problemas no trabalho, no relacionamento com as famílias de ambas, na vida sexual.

Exatamente como qualquer casal – hétero ou homo. Mas o que mais me comoveu, depois que comecei a assistir e fui pesquisar sobre, é o fato de nenhuma das duas atrizes serem lésbicas ou terem alguém na família por quem lutar. Elas aceitaram interpretar um papel polêmico, escolheram entender a vida de um casal lésbico de verdade, decidiram lutar a luta de um grupo de mulheres ao qual não pertencem. E, em entrevista, disseram que o fizeram por entenderem que ainda há muitos preconceitos a serem quebrados nesse campo, e que expor de forma realista, sem estereótipos e com cenas de um cotidiano comum, poderia ajudar.

“Ajudou, meninas”, é o que eu diria a elas se pudesse. Como atrizes, vocês estão fazendo um papel que vai além da interpretação, vai além da arte de atuar pela arte. É a arte pela luta, não de um tipo de gente, não de uma causa única, mas da igualdade de todos, da humanidade. Viola Davis, em seu discurso ao receber o Oscar 2017, disse que, quando perguntam que histórias ela gostaria de interpretar, de contar, ela pensa nas pessoas que morreram, que viveram suas vidas com algum propósito, que lutaram para serem conhecidas e respeitadas. E acredito que seja exatamente isso o que essas duas atrizes estão bravamente fazendo. Contando a história de casais reais, que existem, têm problemas, superam obstáculos, constituem família e, principalmente, se amam. E lutam para que isso seja um direito de TODAS as mulheres.

Julie Anne Caldas
Julie Anne Caldas
Jornalista por formação, passei por redações dos mais diversos temas. Escrevi para revistas de gastronomia e política, redigi para publicações de saúde e de economia, trabalhei na TV como repórter de variedade e no rádio como repórter esportiva. Depois, enveredei para o lado das letras, dedicando-me à edição e revisão de textos. Hoje sou proprietária da TopTexto (www.toptexto.com.br), empresa que faz a revisão de todos os textos aqui do Las Abuelitas. Amante das letras, da comunicação e, principalmente de pessoas, adoro escrever sobre quase tudo, especialmente se der para polemizar. E foi o que a Pri me convidou para fazer aqui: todos os meses, trazer o tema da homossexualidade feminina expressa no mundo das artes.

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