Todas as mulheres de Artemísia

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Todas as mulheres de Artemísia

Artemísia Gentileschi é uma das maiores representantes da pintura barroca; ainda assim, ela é pouquíssimo estudada nas escolas de arte. A artista italiana que viveu entre 1593-1654 sofreu múltiplas tentativas de desqualificação durante sua carreira e após sua morte, por conta de seu gênero; contudo, ela seguiu na profissão e hoje é reconhecida como uma das mais importantes artistas de sua época. Suas telas são alguns dos poucos registros que temos de imagens femininas produzidas por mulheres em épocas anteriores ao modernismo, que tiveram que sobreviver ao descaso, à desqualificação e ao esquecimento por parte da historiografia da arte para chegar aos dias contemporâneos.

Auto-retrato como a Alegoria da Pintura, 1630

Auto-retrato como a Alegoria da Pintura, 1630

Filha de um pintor reconhecido, Artemísia viveu em uma época em que toda a produção cultural e financeira era controlada por homens. Com a morte da mãe, Artemísia – filha mais velha e única mulher da família – se tornou responsável por todos os afazeres domésticos da casa. Considerando que nessa época pré-industrial quase tudo o que se usava para produzir uma pintura era manufaturado no ateliê, Artemísia se tornou responsável também pela preparação dos materiais para seu pai e começou a estudar sozinha técnicas de pintura, usando seu próprio rosto como modelo.

Suas obras são reconhecidas por conta de suas figuras femininas fortes e ativas, em posições dominantes. Cristine Tedesco descreve suas personagens como “musas e ninfas impertinentes; monjas orgulhosas e temíveis; senhoras audaciosas e poderosas; rainhas antigas – Cleópatra – e pecadoras – Madalena; alegorias da pintura, da música, da paz, da retórica, da fama”, em oposição a figuras masculinas sem impacto – um posicionamento crítico da pintora sobre a posição desprivilegiada da mulher na sociedade de sua época.

Em várias obras da artista, as passivas figuras femininas dos temas bíblicos são representadas de forma ativa, revertendo o status do feminino/submisso e masculino/dominador. Podemos comparar a interpretação da passagem bíblica “Suzana e os Velhos” feita por Artemísia com a feita por Tintoretto (1518-1594). Tintoretto representa a moça se olhando no espelho enquanto é espionada, numa atitude passiva, de espera. Na versão de Artemisia Gentileschi, Suzana desloca-se do lugar de cumplicidade de um corpo provocativo e é representada no centro da composição, completamente aterrorizada, revelando a iminência de um assédio sexual.

Suzana e os Velhos, versão de Artemísia

Suzana e os Velhos, versão de Artemísia

Suzana e os Velhos, versão de Tintoretto

Suzana e os Velhos, versão de Tintoretto

Afastando-se da representação idealizada das mulheres, musas e deusas, a pintora representa mulheres reais, como a própria artista. Artemísia descola-se do papel de musa e transforma-se em criadora – e, além disso, ousa registrar em sua produção pictórica representações femininas muito distantes da tradição institucional dos nus artísticos.

Lidia Ganhito
Lidia Ganhito
Gosta&pesquisa&faz: artes visuais, cinema, ilustração, design, mobilidade, corpo, sexualidade, feminismos, do-it-yourself! Vai escrever aqui sobre artistas mulheres e mulheres artistas.

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