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Há vinte anos não assisto TV aberta e há oito anos não assisto nenhuma forma de TV. O sistema streaming foi um grande libertador para mim, muito antes da NETFLIX, já baixava minhas séries preferidas e assistia a jornais do mundo todo online. No entanto, isso não significa que os conteúdos da TV aberta não cheguem até mim, principalmente por causa das mídias sociais, sempre boa informante dos sucessos e escândalos do momento – no mês de dezembro, por exemplo, a final do Master Chefe lotou a minha timeline.

Conheço o formato por ter assistido a alguns episódios internacionais do programa quando assinava TV a cabo, mas o brasileiro eu nunca vi, logo, tudo que escrever aqui será baseado no que li nas redes sociais. Entendi que a chefe que ganhou havia sofrido, no decorrer do programa, de abusos praticados por homens concorrentes, e que sua vitória foi uma espécie de tapa na cara no machismo. Infelizmente, tenho o mal hábito de ler comentários, e, em um deles um homem afirmava que a melhor parte do discurso da ganhadora foi ela ter se declarado não feminista. Como escrevi, não assisti, logo, não posso afirmar a veracidade da afirmação e nem o contexto em que tal frase foi emitida. Também não acho que todas as mulheres precisam ser feministas, mas me pergunto: por que a necessidade de se afirmar como não feminista? O que se ganha não sendo? Ou o que se perde sendo?

Esses questionamentos me fizeram pensar se realmente sabemos o que é feminismo e como ele se aplica em nossa atualidade, pois percebo que existem, como sempre existiu, falas que tentam difamar o movimento sem ao menos conhecê-lo. Pretendo fazer uma série de artigos falando sobre como surgiu o feminismo e suas reverberações, e também sobre os principais temas e suas imbricações com o movimento, como corpo, cultura e política.

Mas, antes, quero dar um depoimento sobre o que o feminismo representa para mim.


Desde pequena, não conseguia aceitar que a minha capacidade e as minhas escolhas fossem definidas pelos meus órgãos reprodutores; cedo, briguei e reneguei tudo que pudesse me enclausurar sob a pecha do “você é uma menina, logo pode… ou não pode…”. Passei parte da infância e da adolescência querendo ser homem, não por me identificar com o corpo masculino, mas por invejar a liberdade de que os homens gozavam e, principalmente, por não me identificar com as características consideradas femininas.

O meu ingresso no engajamento político ocorreu na minha adolescência, lá nos idos anos da década de 1980, e foi por meio da Teologia da Libertação nos movimentos de jovens da igreja franciscana em Belém, terra em que nasci. A nossa pauta era ampla, e nossas discussões versavam sobre luta de classe, preconceitos, racismo, tudo que poderia oprimir, mas não falávamos diretamente de feminismo, e eu nem pensava nisso.

Nesse período, eu continuava me identificando mais com o universo masculino, meus cabelos eram curtos, estudava para fazer a área de exatas, que naquele período era predominantemente masculino. Não queria casar ou ter filhos, e o maior elogio que podia receber era quando alguém falava que eu agia/pensava como homem. No entanto, começava a me abrir para algumas possibilidades de agir dentro do cogito mulher, principalmente por eu me interessar mais por homens do que por mulheres. Foi apenas na faculdade, já fora de Belém, que finalmente encontrei mulheres com quem me identifiquei, mulheres que me mostraram que eu poderia agir fora da caixa homem/mulher.

Mas o feminismo só começou a fazer sentido para mim quando, já fora da faculdade e trabalhando em um banco, fui atingida pelo mundo coorporativo. Os machismos trasvestidos de piadas, as pequenas opressões nossas de cada dia; se eu reclamasse, era porque estava na TPM, ou porque não estava sendo bem-amada, ou qualquer outro argumento que sempre envolvia meus órgãos sexuais ou a falta de um homem.

Contudo, o meu maior incômodo era o teto ou telhado de vidro, termo muito utilizado nesse mundo corporativo para explicar por que há tão poucas mulheres em altos cargos: pois haveria sempre um teto de vidro que barrava sua ascensão.

A parti daí, fui cursar História para estudar a história das mulheres, comecei a estudar sobre os feminismos e sobre as lutas das mulheres para serem reconhecidas. Finalmente, não queria mais ser homem, queria era ser cada vez mais mulher, e lutar as lutas das mulheres como mulher. E percebi que fato de não agir dentro dos ditames considerados femininos não me tornavam menos mulher. Todo o meu engajamento político, que começou na igreja e que nem o banco conseguiu fazer morrer, readquiriu uma nova força chamada feminismo.
Terminando este texto autobiográfico, digo que para mim feminismo não é uma luta apenas pelas mulheres, mas a luta contra todas as formas de opressão. Aprendi que há o meu lugar de falar, que é o que tange dentro das opressões vividas por mim, que outras mulheres de diferentes classes, raças, religiões, regiões, orientações sexuais, viveriam as suas opressões, e que cabe a mim muitas vezes apenas dar a mão, o ombro ou a minha capacidade de andar para juntas chegarmos a um lugar melhor do que aquele de que partimos.
Post scriptum:

Chimamanda Ngozi Adichie

O texto acima foi escrito no fim de dezembro e não quis mudá-lo, pois, depois de tê-lo escrito, fui contemplada com aquilo que algumas pessoas chamam de sincronicidade.

Primeiro, houve o compartilhamento feito pela Priscilla Leal, idealizadora do Las Abuelitas, do livro da ativista/feminista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, “Sejamos todos feministas” – existe também o TED da palestra que deu origem ao texto, em que ela relata como se tornou feminista, antes mesmo de saber o que era feminismo, e como o feminismo é uma eterna luta.

E agora, em janeiro, cursei, no Centro de Pesquisa e Formação do SESC, o curso “Branquitude, branqueamento e relações de gênero”, ministrado pela incrível Ana Helena Passos, momento em que discutimos sobre todo um sistema de privilégio que nos atinge quando pertencemos a determinadas classes, gêneros ou raças/etnias.

Esses encontros me fizeram refletir sobre o engajamento e sobre como é fácil não nos envolvermos com lutas, pois, ao nos declaramos feministas, estamos assumindo uma atitude que é política, estamos nos predispondo a estar eternamente atentas às nossas atitudes, a sempre nos desconstruir, a não darmos trégua a nenhuma forma de opressão ou privilégios historicamente adquiridos. Quando lutamos por um mundo com mais equidades, não podemos tirar férias.

Lia Mendes
Lia Mendes
Especialista em História Sociedade e Cultura pela PUC, estuda o feminismo, corpo e sexualidade e suas relações com as mídias audiovisuais. Professora do ensino fundamental e médio da rede particular da cidade de São Paulo.

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