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Primeira foto publicada no Las Abuelitas foto: Alex Vilas Boas

Chegou o fim do ano e o recesso e, no desejo de finalizar os temas de 2016 de uma forma coletiva, joguei no grupo que mantemos no Facebook a pergunta “Sobre o que devo escrever?”. A linda Talita Bretas, do Museu da Dança, sugeriu uma retrospectiva, e a Rosangela Ferreira sugeriu um texto para cima falando das conquistas das mulheres.

No fim, os dois temas se entrelaçam.

O Las Abuelitas surgiu em 2015, mais especificamente no dia 12 de junho de 2015. O blog nasceu da vontade de colocar em prática as pesquisas que eu vinha realizando desde 2012, quando comecei a me debruçar sobre o papel da mulher artista na diversidade cultural.

Naquela ocasião, verifiquei que ainda temos dificuldades para entrar no mercado das artes e para divulgar nossos trabalhos. Vivemos em uma sociedade patriarcal, extremamente machista, e todo esse simbólico permeia a nossa escolha em nos expressarmos criativamente ou não. As mulheres acabam sofrendo um prejuízo maior, já que sabemos que ser artista não é fácil para ninguém, uma vez que desde pequenas não somos muito estimuladas a nos expressarmos. Em alguns lugares entramos, em outros, não.

Mas isso não significa que não existimos e que não fazemos arte. Fazemos e inspiramos muito por aí, e esse foi e é o principal objetivo do Las Abuelitas: divulgar, mostrar, trazer essas mulheres de ontem e de hoje.

No início era somente eu, Priscilla, com uma ideia e um medo bem grande de me expor – “será que alguém vai ler isso?”. Ainda bem que a vontade prevaleceu sobre o medo e que lancei o blog na minha timeline do Facebook.

Para minha surpresa – e tem sido assim sempre –, logo no primeiro mês não tive nenhum dia em que não recebi visitas no blog. Todos os dias pelo menos quinze pessoas passavam por ali, tinha novas visitas diariamente, e esse movimento levou embora meu medo.

Tendo público, eu precisava de conteúdo e diversidade. Desde o início o meu desejo era transformar o Las Abuelitas em um portal, no qual fosse possível encontrar todos os temas que se relacionam com o fazer artístico.

Quando comecei a estudar teatro, tive muita dificuldade em me encontrar, entender o que era preciso fazer para ter o teatro sempre presente na minha vida, fosse como profissão, fosse como hobby. Simplesmente não encontrei e muita coisa foi a prática que me trouxe. Teria sido muito bom se eu tivesse essas informações ou algum lugar em que eu pudesse trocar dicas com outras mulheres e tirar minhas dúvidas.

Assim, quando vi que o blog tinha reverberado, chamei duas amigas para escrever: a Talita, advogada, e a Adriana, atriz e coach.

E esse foi o formato do blog por seis meses. Todos os dias tinha gente passando por lá, curtindo a fanpage e se comunicando. Estava longe de serem aqueles números estratosféricos, mas para mim era simplesmente o máximo.

No final de 2015, decidi que era hora de investir, aumentar o conteúdo e diversificá-lo. Foi aí que convidei mais mulheres para somar: Lia, Karina, Débora e Juliana. Cada uma em uma área e com uma história.

Desde a gestação do projeto, a minha grande preocupação em relação ao Las Abuelitas era a diversidade de fala. Não tinha o desejo de expressar somente minhas ideias. Gostaria de criar um coro, mulheres escrevendo sobre o que julgam importante. Era necessário ter mais de uma protagonista e fico contente em verificar que em 2016 isso foi consolidado. Cada texto que é publicado é a voz de sua autora. A curadoria, que é feita por mim, atenta-se à parte formal do texto, mas não ao seu conteúdo. Esse é pensado e decidido por cada autora.

No final de 2016, mais duas mulheres vieram somar ao time: Julie Anne e Lidia.

Segunda foto do blog. Foto: Alex Vilas Boas

Começar o trabalho sozinha e após um ano encerrar com um time, para mim, foi um sucesso. Sem dúvida esse é o ponto que julgo mais importante no site, pois é o seu coração e o sentido do seu início.

Não posso deixar de mencionar os colaboradores eventuais Teófilo Daniel e Guto Mendonça, além do Alex Vilas Boas, que me ajuda nos bastidores com edição dos vídeos e imagens, sem falar do apoio emocional diário.

Esse apoio é necessário. Este ano de 2016 não foi fácil para a área cultural. Esse trabalho é feito sem remuneração, e, por conta disso, a equipe administrativa e de curadoria se resume a mim. Não é fácil. Confesso que tinha dias em que eu achava que não ia conseguir, mas saber lidar com as frustrações foi e ainda é uma lição diária. Ter um parceiro como o Alex foi o diferencial, e expresso aqui minha gratidão!

Além desse super-time, outro se formou: o da rede social Facebook. Graças a um empurrão da minha colega gestora cultural Bruna Martins, fomentei um grupo fechado no Facebook, com o intuito de criar uma rede entre as mulheres artistas e, assim, uma poder auxiliar a outra com contatos, trabalhos e trocas de qualquer natureza. Esse grupo termina 2016 com 130 membros, com algumas artistas bem atuantes e dois encontros para cafés – aliás, algo que pretendo aumentar em 2017. Graças a esse espaço virtual, refresquei muitas ideias e ganhei mais energia para colocá-las no mundo físico.

Uma delas e que está sendo gestada nesse momento é uma exposição com as fotógrafas que já divulgaram o trabalho no Las Abuelitas. Aguardem…

E, por falar em divulgar, durante a vida do Las Abuelitas divulgamos 34 artistas, de diversas áreas artísticas, na seção do site “Divulgue seu trabalho!”. E esse número não está considerando os eventos que foram divulgados na agenda e as fotografias do painel do Instagram. Trouxemos ainda o perfil de 53 artistas e 11 entrevistas com mulheres criativas (produtoras e artistas).

Foto Alex Vilas Boas

Para mim, essa é a parte para cima deste texto. Porque que a nossa sociedade dificulta para as mulheres, nós já sabemos. O que queremos agora é trazer à tona as mulheres que, apesar dessa dificuldade, fizeram, existiram! Em menos de dois anos trazermos 53 mulheres, fora entrevistas e a seção Divulgue seu Trabalho é simplesmente maravilhoso. As mulheres criam e muito. Transgridem as regras e escrevem, pintam, fotografam, atuam, produzem, filmam. Estamos na rua, na internet, nas paredes. Nada nos detém. Simples assim!

Resumindo 2016 em números, foram aproximadamente 220 textos, que abordaram bem-estar, cinema, direitos, carreira, artistas, empreendedorismo, história e literatura.

O plano para 2017 é cada vez mais unir o mundo virtual com o mundo físico. Em 2016 esse movimento se iniciou e foi muito benéfico. Estive compondo a mesa para discutir o papel da produção cultural no assédio sexual, na Procuradoria Regional da República, em São Paulo, após a exibição do documentário “Precisamos falar do assédio”, da diretora Paula Sachetta. Também tive o prazer de publicar o artigo “A arte performática, corpos e feminismos”, que escrevi com a amiga e colaboradora do Las Abuelitas Lia Mendes, na revista nº 03 do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc.

Outra experiência que vivi com outro projeto, mas que se fundiu com o Las Abuelitas, foram as apresentações dos filmes do projeto Mulheres Artistas na Ditadura, no CEU Perus. A troca que tive com as mulheres que conheci lá me alimentaram para ampliar ainda mais o Las Abuelitas.

Por fim, o Las Abuelitas foi selecionado para uma mentoria no Google Campus São Paulo. É algo recente, mas que mexeu bastante com a minha forma de ver a internet e o que é se comunicar por ela. Um mundo novo muito interessante se abriu para o projeto. Comecei a gravar vídeos e um canal no YouTube nasceu. Acredito que será uma excelente maneira de compartilhar o meu processo criativo que, com certeza, vai se encontrar com o seu em algum lugar. E assim formar mais redes.

Meu desejo para 2017 é que o time Las Abuelitas cresça ainda mais e que a nossa rede ultrapasse os limites da internet, para que a gente siga inspirando mais mulheres a criarem e se expressarem sem medo. Porque criatividade é energia circulando, é troca, é vida.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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