Representividade e lugar de fala

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Representividade e lugar de fala

O movimento feminista tem estado cada vez mais em evidência e, com a luta contra a objetificação do corpo da mulher e o machismo, passamos a contestar ainda mais os padrões impostos pela sociedade. Mas, mesmo com a ascensão desses movimentos, a falta de diversidade cultural é muito grande, ou seja, ainda é muito difícil todas as mulheres se sentirem representadas. Por que ter cabelo liso? Por que a mulher gorda não pode usar certas roupas? Por que lésbicas não podem se beijar em público? Por que mulheres não podem beijar quantos caras quiserem?

É visível o surgimento de um maior debate sobre o tema, mas a dificuldade da representatividade é uma questão enraizada na nossa cultura, e muitas mulheres ainda não se encontram representadas na mídia. Dessa maneira, por exemplo, o estereótipo da beleza branca e da mulher da capa de revista afeta as mulheres negras e as gordas desde a infância. Uma garotinha que não se vê na televisão ou nos brinquedos, cresce escutando que ser branca, magra e ter cabelo liso é o que representa o belo.

E é juntamente com essa questão da representatividade que aparece o termo “lugar de fala”. Lugar de fala é um mecanismo que surgiu como contraponto ao silenciamento da voz das minorias por grupos privilegiados em espaços de debate público. Ele é utilizado por grupos que historicamente têm menos espaço para falar. Dessa maneira, negros têm a legitimidade para falar sobre o racismo, mulheres sobre o feminismo, transexuais sobre a transfobia e assim por diante.

O “lugar de fala” é o limite que mostra que, por mais que eu tenha consciência das opressões das outras pessoas, as minhas experiências ainda assim não são suficientes para falar por elas. Saber o lugar de onde falamos é fundamental para repensarmos as hierarquias, as questões da desigualdade, da pobreza, do racismo e do sexismo, entre outras.

Dentro do próprio feminismo também temos diferentes lugares de falas. Eu, por exemplo, sendo uma mulher de classe média, indígena, magra e feminista tenho “direito” de falar sobre as formas de machismo que me atingem e um pouco sobre racismo por já ter passado algumas vezes por essa experiência. Mas obviamente se tiver uma mulher negra em uma roda de conversa, o lugar de fala ainda é dela, pois sem dúvida ela já vivenciou muito mais situações de racismo no seu dia a dia. Por outro lado, eu nunca fui excluída de uma entrevista de emprego por causa do meu cabelo, nunca tive pessoas me questionando pelo bairro onde moro e nunca escutei comentários gordofóbicos na rua. Logo, não tenho voz para falar de feminismo negro, gordofobia ou opressão de classe.

A maior contribuição desses conceitos para uma política de identidades e na busca por igualdade é o fato de os grupos oprimidos lutarem por uma participação ativa e um protagonismo em relação à sua própria condição, rompendo assim com a invisibilidade e o silenciamento impostos.

Debora Delta
Debora Delta
Sou atriz, apresentadora e escritora. Em meu blog “Muito Além Do Óbvio” para a Revista Obvious escrevo entre outros temas, sobre o papel da mulher e sua importância na sociedade. No meu canal no Youtube “Flamingas”, debatemos sobre questões feministas. Discutir sobre a representatividade das mulheres na arte é algo empoderador em diversos sentidos, acredito que a partir da história de mulheres artistas podemos resignificar o nosso lugar no mundo, por isso é um prazer poder colaborar para o Las Abuelitas.

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