Representação e cinema: outras ferramentas de análises-pós-estruturalismo e pós-colonialismos

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Representação e cinema: outras ferramentas de análises-pós-estruturalismo e pós-colonialismos

Retomando o tema da representação da mulher no cinema, ao discutir sobre a Teoria Feminista do Cinema, escrevi que uma crítica à teoria é o fato de ser eurocêntrica (pensando aqui no eurocentrismo composto pelos principais países europeus e os Estados Unidos), branca e sem diversificação de classes.

Portanto, para acrescentar e não contrapor, vou escrever sobre outras formas de análises.

A teoria feminista do cinema diz que somos construídas pelo olhar do homem, que ele define a categoria mulher. No entanto, a própria teoria cria uma mulher unívoca e homogênea, não somos e não queremos ser uma única representação; as teorias pós-estruturalista e pós-colonialista entram em cena para discutir essas múltiplas imagens no campo cinematográfico.

A teoria estruturalista que surge no século XX coloca a linguagem como a maneira que construímos nossas subjetividades, pois como sujeito é nossa linguagem que constitui a realidade. Quando falamos ou escrevemos computador, estamos falando de símbolo ou signo que já possui tanto um significado sonoro quanto um conceito, ou, como definiu Saussure, significante e significado.

No cinema, a virada linguística significou que o que mais interessava não era a hierarquização estética da política dos autores, mas a forma como o público compreendia e recebia os filmes, afinal todo filme é uma forma de arte, independentemente de seu diretor ser mais ou menos artístico. Christian Metz, utilizando a teoria estruturalista, chegou à conclusão de que o cinema era uma forma de linguagem, como explicou Robert Stam:

“O cinema é uma linguagem em resumo, não apenas no sentido metafórico mais amplo, mas também como um conjunto de mensagens formuladas com base em determinado material de expressão, e ainda como uma linguagem artística, um discurso ou prática significante caracterizado por codificações e procedimentos ordenatórios específicos”. (Stam, 2003)

O pós-estruturalismo não é uma quebra do estruturalismo, mas uma ampliação do mesmo, colocando em foco um descentramento do indivíduo, pois o que compõe a subjetividade é múltiplo, não havendo um centro, uma verdade, um início.

maya derenNo feminismo, de acordo com Claudia Lima Costa, o pós-estruturalismo abriu a possibilidades de que:

“O reconhecimento de que o sujeito se constrói dentro de sistemas de significados e de representações culturais, os quais por sua vez encontram-se marcados por relações de poder, nos permitiu duas importantes estratégias teóricas e epistemológicas: por um lado, nos forneceu instrumentos valiosos para desconstruir as categorias tradicionais do indivíduo, inclusive as noções de uma identidade e experiência femininas universais e, por outro lado, nos proporcionou uma maior sensibilidade (forjadas pelas exigências da política) para compreender os mecanismos diversificados constitutivos dos diferentes sujeitos no campo social”. (Costa, 1998)

É interessante aqui definirmos poder, sobre o qual Susan Bordo, utilizando dos últimos conceitos de Foucault, escreve: “Temos primeiro que abandonar a ideia de que o poder é algo possuído por um grupo e dirigido contra outro e pensar, em vez disso, na rede de práticas, instituições e tecnologias que sustentam posições de dominância e subordinação dentro de um âmbito particular” (Bordo, 1988).

Também André Duarte discorre sobre poder:

“…o poder não é concebido como uma essência com uma identidade única, nem é um bem que um possua em detrimento dos outros. O poder é sempre plural e relacional e se exerce com práticas heterogêneas e sujeitas a transformação; isso significa que o poder se dá em um conjunto de práticas sociais constituídas historicamente, que atuam por meio de dispositivos estratégicos que alcançam todos e dos quais ninguém pode escapar, pois não se encontra uma região da vida pessoal que esteja isenta de seus mecanismos”. (Duarte, 2008)

michel-foucault - 13jun11O conceito de poder é importante para pensarmos dois termos que aparecem nas definições, tecnologias e dispositivos; o cinema é um destas tecnologias ou dispositivos que engendram o poder. Ele cria um simulacro do real repleto de ideologias, que podem ser includentes ou excludentes, ou, como escrevem Ella Shohat e Robert Stam ao falarem dos conceitos de Bakhtin,

“…a arte é inegavelmente social, não porque representa o real, mas porque constitui uma “enunciação” situada historicamente – uma rede de significados endereçados por sujeito ou sujeitos constituídos historicamente para outros sujeitos constituídos socialmente, todos imersos nas circunstâncias históricas e nas contingências sociais”. (Shohat, 2006)

O conceito pós-estruturalista da morte do autor, conceito introduzido pela literatura, também pode ser aplicado ao cinema, pois, na análise pós-estruturalista, o que interessa é qual leitura um expectador tem ao ver as imagens na tela, e de que maneira elas são construídas por ele e para ele.

Nos estudos pós-coloniais também temos desconstrução, mas desta vez do indivíduo colonizado. Ella Shohat e Robert Stam, no texto “Teoria do cinema e espectatorialidade na era dos ‘pós’” (Shohat E. S., 2005), descrevem como os africanos e asiáticos ao assistirem filme europeus ou norte-americanos podiam tanto se identificar com os brancos colonizadores e torcerem, por exemplo, pelo Tarzan, internalizando a Europa como ego ideal, como se revoltar com as representações ofensivas, a colonização, provocando uma espécie de esquizofrenia, modificando os processos de identificação.

Os estudos coloniais vão fazer uma crítica ao pós-estruturalismo, pois ao descentralizar o sujeito ele também retira a noção de uma subjetividade coerente, de uma identidade de comunidade. Para o homem branco, cis, eurocêntrico, uma não identidade é possível; mas para os sujeitos que ainda estão buscando suas próprias narrativas, seu lugar no mundo, uma certa identidade é necessária, pois “a proclamação do fim das margens não põe fim aos mecanismos que de fato desapropriam os povos de suas culturas ou noções de poder” (Shohat E. S., 2005).

Os autores, citando Diana Fuss, discorrem sobre “empregar” e “ativar” o essencialismo, em contrapartida de “mergulhar” ou “afundar” nele, pois nós, mulheres, mesmo diferentes em raça, classe, orientação sexual ou região, temos em comum a violência e a opressão, e para lutar contra nós necessitamos de pontos de apoio, que pode ser uma identidade forjada em um essencialismo estratégico expressão utilizada por Gayatri Spivak – citado tanto Por Shohat e Stam, quanto por Cláudia Lima Costa (Costa, O sujeito no feminismo: revisitando os debates, 2002, (19)) –, ou como prefere Judith Butler, de acordo com Cláudia Lima Costa no texto já citado(Costa, O sujeito no feminismo: revisitando os debates, 2002, (19)), posicionamento estratégico.

maya deren2Pensando no cinema, como já citado antes, como dispositivo ou tecnologia imagética, pode-se usá-lo tanto para criação de uma mulher essencializada, construída pelo e no olhar masculino, ou para exploramos as múltiplas identidades engendradas no e pelo feminismo. Como o cinema Blackploitation, que na década de 1970, usando das mesmas narrativas característica de Hollywood, criou um cinema executado e encenado por negros, ou como Bollywood, o cinema indiano que consegue ser mais profícuo que Hollywood. Independentemente da consideração de serem filmes de arte ou mero entretenimento, o importante é a possibilidade de identificações fora do padrão hegemônico do eurocentrismo.

E as mulheres, especialmente por suas múltiplas diferenças de experiência e constituição de sujeitos, podem criar filmes que não transformem as mulheres em seres unívocos, mas enaltecendo as diferenças e suas inúmeras possibilidades de transgressões e lutas.

No próximo artigo, pretendo analisar um filme utilizando as ferramentas citadas. Fica aqui um pedido a você, leitora: qual filme devo analisar?

 

Bibliografia
Bordo, S. (1988). Uma apropriação feminista de Foucault. Em A. Jaggar, & S. Bordo, Gênero, corpo conhecimento (p. 21). Rio de Janeiro: Rosa dos Ventos.
Costa, C. L. (1998). O feminino e o pós-modernismo/pós-estruturalismo: as (in)determinações da identidade nas (entre)linhas do (con)texto. Em J. Pedro, & M. P. Grossi, Masculino, Feminino, Plural (p. 57). Florinopólis: Mulheres.
Costa, C. L. (2002, (19)). O sujeito no feminismo: revisitando os debates. Pagu, 59-90.
Duarte, A. (2008). Biopolítica e resistência, o legado de Michael Foucault. Em R. M, & A. Veiga-Neto, Figuras de Foucault (p. 47). Belo Horizonte: Autêntica.
Shohat, E. S. (2005). Teoria do cinema e espectatorialidade na era pós. Em F. P. Ramos, Teoria contemporânea do cinema. Pós-estruturalismo e filosofia analítica (Vol. I, pp. 393-424). São Paul: SENAC.
Shohat, E. S. (2006). Crítica da imagem eurocêntrica: multiculturalismo e representação. São Paulo: Cosac naify.
Stam, R. (2003). Intrdodução à teoria do cinema. Campinas: Papirus.

Lia Mendes
Lia Mendes
Especialista em História Sociedade e Cultura pela PUC, estuda o feminismo, corpo e sexualidade e suas relações com as mídias audiovisuais. Professora do ensino fundamental e médio da rede particular da cidade de São Paulo.

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