Pombagira – o orgulho do “pecado” de ser mulher

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Existe um senso comum acerca das Pombagiras, mesmo quem nunca pisou em um centro de Umbanda ou Candomblé, tem uma ideia de como é essa mulher.

Dentro dos terreiros, ao escutar os pontos cantados e observar o comportamento das Pombagiras, percebi que são, na sua maioria, mulheres de comportamento controverso, espíritos de mulheres que em vida teriam sido cortesãs, ou mulheres de princípios morais questionados pela sociedade, capazes de dominar os homens por seu poder de sedução e suas proezas sexuais, vaidosas, ambiciosas e hedonistas. Isso se confirma no trecho seguinte:

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Jorge Etecheber (Espetáculo “Deus faz, o Diabo tempera” da Cia. do Santo Forte)

Pombagira é uma entidade espiritual que se manifesta nos terreiros de Candomblé e Umbanda. Como um ser do mundo invisível ao “incorporar” nos médiuns, geralmente mulheres, assume-se como uma mulher que transgride normas, corajosa, sedutora, bela, sensual e perigosa. As pesquisas referentes ao tema, realizadas por cientistas sociais e religiosos e que tratam da sua definição encontram-na no entrecruzamento das religiões africanas e européias com o espiritismo kardecista francês e a classificam como personagem popular no Brasil (LAGOS, 2007, p.10).

Essa “personagem popular” representa muitos aspectos da cultura brasileira, mas de natureza marginal, a Pombagira representa tudo o que a nossa cultura não espera e não quer de uma mulher.

Há uma enorme diferença social, cultural e antropológica no que diz respeito à conduta de homens e mulheres. Há comportamentos que são aceitáveis para homens que não são admitidos para mulheres. Isso ocorre, em diversas situações, apesar de ser reprovável o sexismo que presenciamos no cotidiano, ele existe e faz parte da cultura em que vivemos. A existência da mulher por si só já traz uma “condenação social” que pode ser melhor compreendida se considerarmos:

O fato de o ‘ser mulher’ estar impregnado pelo seu sexo e o quanto este ‘estar impregnado’ dota seu corpo de um capital simbólico passível de ser desejado, comprado, dominado. Na visão ocidental cristã descrita pela autora, a exemplo da virgem e mãe Maria, a pureza é sacralizada e está associada ao escondido, ao contido, à virgindade, já que o corpo feminino estaria imbricado com o pior dos pecados, o carnal. (KOSBY, 2008, p. 2)

Deste modo, percebe-se se quanto a Pombagira propicia discussão de gênero, por isso Lagos ao investigar suas funções nos rituais e no cotidiano conclui que a relação da Pombagira com “o mal” é pelo fato de ela estar diretamente ligada a “sexualidade”1. (2007, p. 20)

Geralmente, as mulheres que fogem a estes padrões estão a margem da sociedade. As Pombagiras são estas mulheres, que se permitiram sentir os prazeres mundanos, e que colaboram para que seus consulentes desfrutem da vida terrena.

Nesse diálogo subversivo com a pureza do corpo feminino cristão é que surgem as prostitutas, cortesãs, amantes, os corpos a mostra, a saia arregaçada, a gargalhada escandalosa como representantes de uma não representação da pureza. (KOSBY, 2008, p. 3)

De acordo com Kosby, nos rituais de esquerda vemos a mulher que não se enquadra nestes padrões da pureza, ser posta em lugar sagrado. Uma espécie de evolução do pensamento machista da sociedade em que vivemos. Porque, neste caso, as mulheres subversivas mostram a potência feminina, só o corpo feminino tem potencial para romper com o pecado associado ao fato de “ser mulher”, a pureza feminina se dissolve quando a Pombagira exibe o que deveria ser escondido, deste modo, a dominação masculina sustentada no poder sobre a pureza e inocência da mulher perde o sentido e deixa de existir (2008, p.4). Kosby afirma que a Pombagira traz:

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Jorge Etecheber (Espetáculo “Deus faz, o Diabo tempera” da Cia. do Santo Forte)

[…] o feminino na sua versão mais pecaminosa que, ao incorporar e expor esta ‘leviandade’, a pombagira dissolve-a. A pureza está no que vem de dentro, antes escondido. Não há pecado quando a pombagira está no mundo, não há interioridade para esconder (KOSBY, 2008, p. 4).

Deste modo, percebe-se que a Pombagira é um arquétipo que subverte o pecado feminino, é o auge da feminilidade nos aspectos mundanos, e vai muito além de uma mulher que fuma, bebe e ri em um terreiro. Cada Pombagira traz uma especialidade, uma história, interferências diferenciadas dependendo de seus Orixás regentes e seus elementos da natureza, cada Pombagira, é única, assim como cada mulher.

Referências:

KOSBY, Marília Floôr; RIETH, Flávia. Pombagira e a extroversão do pecado feminino: articulações entre a história do corpo da mulher e a experiência deste através das entidades afro-brasileiras. Mestrado em Ciências Sociais – ISP/UFPel – Pelotas, RS, 2008. http://www.ufpel.edu.br/cic/2008/cd/pages/pdf/CH/CH_00400.pdf – acesso em 28-06-2010

LAGOS, Nilza de Menezes Lino. “Arreda homem que aí vem mulher…”: Representações de gênero nas manifestações da Pombagira – Dissertação de Mestrado em Ciências da Religião – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo – SP, 2007.

1 O termo “sExualidade” é aplicado por Lagos, para salientar a relação direta de Exu com o sexo, no caso da Pombagira, Exu Mulher.

Tauane

Tauane Alamino é atriz, cartomante, mãe, sacerdotisa do sagrado feminino, feminista, slingueira e pau pra toda obra. Formada em Artes Cênicas na UEL, criou a Cia. do Santo forte em que pesquisa os Arquétipos da Umbanda para o trabalho do ator, incluindo as Danças dos Orixás e suas mitologias.

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