Louise Bourgeois: O falo como unheimlich

Deu problema na viagem!
dezembro 14, 2016
A decoração artesanal em casa
janeiro 10, 2017
Ver tudo

Louise Bourgeois: O falo como unheimlich

 

Louise Bourgeois e o Fillete em foto de 1982 por Robert Mapplethorpe
Louise Bourgeois e o Fillete. Foto por Robert Mapplethorpe, 1982

Na modernidade, arte e a psicanálise estão intimamente ligadas. A vontade de diversos autores de explorar a natureza humana e compreender as motivações profundas das atitudes dos indivíduos e da sociedade como um todo resultou em teorias psicanalíticas que serviram como base para que diversas correntes artísticas realizassem experimentos de ordem formal, conceitual e plástica, usando os processos de livre associação e da análise como caminhos para chegar ao processo criativo e ao fazer artístico.

Louise Bourgeois, artista francesa radicada nos Estados Unidos, tem uma produção permeada por conceitos da psicologia, permitindo-nos reconhecer uma infinidade de camadas simbólicas em suas formas esculturais. Apesar de sua obra ser frequentemente descrita como “confessional”, a artista transcende a simples narração de episódios traumáticos e transforma radicalmente as situações que motivaram sua inspiração inicial para a peça artística.

Uma de suas obras mais interessantes do ponto de vista psicanalítico é o “Filette”, realizada em 1968. A artista apresenta ao público um enorme falo de látex, dependurado no teto por um gancho de açougueiro. O material nos remete imediatamente a pele humana; porém, a uma pele deformada, queimada – estranha. A imagem não transmite eroticidade: antes, é um retrato perturbador e um tanto cômico. O símbolo maior do patriarcado, do poder e do ego masculino pende inerte, um pedaço de carne inútil e ligeiramente asqueroso que provoca no espectador uma inquietante estranheza.

Tal sentimento foi identificado e analisado por Freud em seu artigo de 1919, “Das Unheimlich”. Há traduções que optam pelo “estrangeiro, hora ou lugar estranho”, outras preferem “inquietante, desconfortável, sombrio, repulsivo, sinistro, suspeito”. Para compreender esse conceito, é necessário entender o jogo poético e semântico no qual este foi fundamentado. Segundo Mirian Chnaiderman, “‘Heimlich’ vem de ‘heim’ (lar) e significa íntimo, familiar, e também secreto, clandestino, que não deve ser mostrado: é preciso que outros não saibam dele nem sobre ele”. Então, Freud apoia-se em uma ambiguidade linguística e condensa, em uma só palavra, o familiar e o que nos é estranho: o estranho – unheimlich – contem em si uma forma do familiar – Heimlich.

Essa inquietante estranheza nos toma quando algo que vem de fora desperta em nós algo que conhecíamos, que já nos pertencia, mas que permanecia até então ignorado. A apreensão na realidade perceptiva de algo que remete ao que está oculto em nosso foro mais íntimo causa angústia ao provocar sua emergência inesperada no campo de nossa consciência.

Entre os exemplos de objetos e situações que Freud considera particularmente propensos a provocar o unheimlich estão os bonecos de cera e os mecanismos autômatos realistas que, ao apagarem as fronteiras bem delimitadas entre inanimado-animado, vivo-morto, são capazes de criar no espectador sensações de inquietante estranheza e até sinistras. O duplo – a aparição de algo tão semelhante que promove a sensação de indiferenciação – seria outra figura privilegiada do unheimlich. Nós nos reconhecemos naquilo, mas há ali também qualquer coisa de inumano, de sobrenatural. O que nos perturba são as diferenças nas semelhanças que são a nós apresentadas.

Fillette, Louise Bourgeois (1968) - Museum of Modern Art
Fillette, Louise Bourgeois (1968) – Museum of Modern Art

No início do século 20, Freud cita o órgão feminino como um proporcionador da sensação de familiaridade estranha e perturbadora. A fenda vaginal reativaria a angústia masculina da castração, ao ser uma representação de ausência, de ferida. Mas, pensando nos dias atuais, a pornografia – amplamente difundida pela internet – familiariza-nos com os órgãos sexuais de uma forma sem precedentes na história da humanidade. Os closes exploram cada centímetro do sexo, mostrando-nos em detalhes a intimidade feminina. A pornografia, produzida essencialmente por homens e para homens,  exibe o mínimo possível do corpo masculino, permitindo assim ao expectador que imagine ser seu o falo ali apresentado. O masculino resume-se a um falo super ereto, menos como órgão sensível e mais como força motriz de penetração. O órgão sexual feminino prolifera-se como mercadoria, tornando-se de alguma forma mais familiar aos olhos contemporâneos do que o pênis não ereto. O órgão sexual masculino em repouso, destituído de sua força penetradora, torna-se completamente obsceno, mais do que quando pronto para o ato sexual. Nesse contexto, podemos nos perguntar: hoje em dia, qual é o unheimlich? O pênis ou a vagina?

O “Filette”, de Louise, ao apresentar o órgão masculino despido de sua condição fálica, desnudo, apático, unheimlich, escancara essa possível inversão. O símbolo supremo da sociedade falocêntrica aparece transformado e, por isso, desmistificado. Todo o poder representado por esse órgão é renegado e ironizado ao ser revelada a sua essência carnal e efêmera. Ao pendurar o falo como quem pendura um pedaço de picanha numa vendinha, a artista reduz o seu valor ao de uma mercadoria: quanto vale um quilo de falo?

 

 

 

Lidia Ganhito
Lidia Ganhito
Gosta&pesquisa&faz: artes visuais, cinema, ilustração, design, mobilidade, corpo, sexualidade, feminismos, do-it-yourself! Vai escrever aqui sobre artistas mulheres e mulheres artistas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *