O feminismo e as relações amorosas

Patrícia Selonk é Hamlet
junho 23, 2017
TEATRO – 3ª Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos acontece no Centro Cultural SP
junho 23, 2017
Ver tudo

O feminismo e as relações amorosas

Em uma sociedade na qual as mulheres sofrem constantes opressões e desigualdade, modelos de como “devemos agir” e principalmente o que “precisamos alcançar” sempre foram pregados como receitas de felicidade e sucesso. E dentro desses modelos, a urgência de viver um relacionamento amoroso e constituir uma família é, sem dúvida, um dos principais tópicos.

Relacionamentos amorosos são uma parte da nossa vida e quando funcionam de maneira saudável – complementam nossa felicidade. O namoro, o casamento ou qualquer outra forma de se relacionar são modos que encontramos para vivenciar o amor, ao menos teoricamente deveria funcionar dessa maneira. Mas o fato é que grande parte deles não acontecem por uma escolha individual ou por algum sentimento verdadeiro, mas sim por advir da necessidade da figura masculina para a mulher se sentir validada.

Grande parte das pessoas se relaciona por motivos alheios aos seus reais sentimentos, escolhas que elas acreditam fazer, mas que na verdade estão enraizadas em outras questões muito mais profundas. Diversos sentimentos entram nesse pacote, como carência, medo da solitude, dificuldade de entrar em contato consigo mesmo, aprovação externa, ente outros.  Para as mulheres, a cobrança da sociedade que ainda não valida a mulher solteira, divorciada ou mãe solo é uma das principais causas de relacionamentos abusivos e completamente distantes de um modo saudável de vida.

wonder-woman-2391093_1920

Observo constantemente mulheres maravilhosas e empoderadas, com discursos feministas libertadores; mulheres que já encontraram seu caminho profissional, sua independência e se livraram de diversas amarras, com as quais o machismo as limitavam, mas que ainda assim se encontram reféns de relacionamentos, grande parte deles, fracassados e completamente dependentes. Relacionamentos nos quais um não vive sem o outro, ambos não têm escolhas próprias, não conseguem fazer nada sem a companhia do outro, muitas vezes perdendo até mesmo a própria identidade, em muitos casos, identidade que talvez nunca tenha sido descoberta, justamente porque essas mulheres não tiveram tempo de se conhecer, de ficarem sós, de saber quem realmente são fora de uma relação amorosa.

E claro, o fim dessas relações é quase sempre caótico e doloroso, isso quando não se opta por na sequência entrar em outra relação de dependência, criando um círculo vicioso ainda mais perigoso. Não conseguir ficar só, depender de outra pessoa para se sentir feliz, é um vício difícil de ser identificado justamente por ser aceito na nossa sociedade. Essas relações dependentes, platônicas e simbióticas são alimentadas em nossa cultura, através de novelas, músicas e modelos de relações dos nossos familiares. Por isso, é tão difícil perceber o quão dependente somos desse modo de se relacionar.

travel-2342925_1920

Uma mulher solteira, sozinha e feliz é praticamente inconcebível para a sociedade. Amigos e familiares ainda se chocam quando alguém afirma que não está em uma relação, que não está apaixonada ou saindo com alguém, como se essas pessoas fossem vítimas, quando na maior parte dos casos a vítima é justamente quem pronuncia esse discurso.

O feminismo nos liberta de muitas prisões e obviamente diversas outras questões ainda são prioridades nessa luta. Mas, sem dúvida, o modo como enxergamos as relações amorosas e o papel da figura masculina dentro desse contexto ainda é algo que precisa ser mais abordado e debatido. Como se relacionar de maneira saudável? O despertar para uma vida sem dependências emocionais é algo libertador e nosso papel como feministas dentro da sororidade é também propagar esse discurso, ou melhor, esse modo saudável de vida.

 

Debora Delta
Debora Delta
Sou atriz, apresentadora e escritora. Em meu blog “Muito Além Do Óbvio” para a Revista Obvious escrevo entre outros temas, sobre o papel da mulher e sua importância na sociedade. No meu canal no Youtube “Flamingas”, debatemos sobre questões feministas. Discutir sobre a representatividade das mulheres na arte é algo empoderador em diversos sentidos, acredito que a partir da história de mulheres artistas podemos resignificar o nosso lugar no mundo, por isso é um prazer poder colaborar para o Las Abuelitas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *