“O destino da mulher é a família e a costura…”

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“O destino da mulher é a família e a costura…”

As reivindicações trabalhistas são um dos pontos mais importantes no discurso feminista e uma das primeiras bandeiras a serem levantadas. Infelizmente, apesar das conquistas obtidas, estamos longe da completa vitória e ainda há muita luta para atingirmos a equidade. Os salários das mulheres continuam em média abaixo dos salários dos homens nas mesmas condições, ainda existem trabalhos considerados mais femininos e ter filhos é quase sempre um problema para a mulher na busca por emprego ou para se realocar profissionalmente.
Sempre houve distinção de trabalhos entre os gêneros, mas no século XIX, com a consolidação do capitalismo, surgiram novas articulações, com diversos efeitos sociais, políticos e econômicos.

No mundo pré-industrial a maioria dos trabalhos realizados por mulheres era informal, feito em casa e nem sempre remunerado, sendo que produção e reprodução eram atividades complementares. Como escreve Olwen Hufton, no texto “Mulheres, trabalho e família”, que consta no livro História das mulheres: do renascimento à idade moderna, “Em qualquer sociedade da época, as mulheres das classes trabalhadoras tinham que trabalhar para sustentar a si próprias quer fossem solteiras ou casadas”p.25, no mesmo texto, relata que mulheres solteiras trabalhavam para poupar a família de seus gastos e tentar acumular um dote e adquirir aptidões que atraíssem um marido; o trabalho mais procurado era nas fazendas, nas áreas rurais, e como criadas, nas áreas urbanas, mas o trabalho mais comum era o que envolvia tecelagem, costura, bordados, que podiam ser realizados dentro de casa. E, na era industrial, esse foi o motivo do grande sucesso das indústrias têxteis: contrataram mulheres habituadas ao tear por baixos salários.

Com o advento do capitalismo, uma das principais consequências foi a separação do local de trabalho do domicílio. Apesar de no período anterior à industrialização haver mulheres trabalhando como vendedoras ambulantes ou em pequeno comércios, a industrialização intensificou essa ruptura.

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Outra mudança que a industrialização causou foi o surgimento de empregos de “colarinho branco”, como era chamado o setor de serviços. De acordo com Joan W. Scott no texto “A mulher trabalhadora”, que consta no livro História das mulheres: o século XIX, “(…) abriram-se oportunidades profissionais para a mulher da classe média, um grupo relativamente novo na força de trabalho. Pode muito bem acontecer que muita da atenção prestada ao problema do trabalho feminino em geral tenha sido originada por uma preocupação crescente com as possibilidades de casamento das raparigas da classe média que se tornavam professoras, enfermeiras, encarregadas de fábricas, assistentes sociais e afins”p.452. E foi exatamente o trabalho de escritório a principal ocupação feminina entre o fim do século XIX e o início do XX, trabalho este que até hoje consta com uma maioria de mulheres.

Ou seja, a mulher entrava com força no mercado de trabalho, e isso suscitou uma série de discursos contra o trabalho da mulher, críticas que vinham tanto da classe trabalhadora quanto de políticos, médicos, moralistas.

O trecho que dá nome a este texto, parte do discurso proferido pelo delegado operário na exposição trabalhista de Marselha de 1867, é um exemplo do que a maioria dos trabalhadores pensavam sobre o papel da mulher no trabalho. Quem relata esses discursos é Michelle Perrot no livro “As Mulheres ou os Silêncios da História”, cuja parte 2 é dedicada totalmente aos discursos e às histórias das mulheres no mundo do trabalho. Nesse capítulo há vários textos, e vou falar especialmente de um, “O elogio da dona de casa no discurso dos operários franceses no século XIX”.

Nesse texto, ela descreve que vários dos discursos trabalhistas contra a mulher trabalhadora aderem ao discurso médico, pois, sendo o mundo feminino um mundo orgânico, é a medicina e a higiene que possuem a melhor caracterização da mulher. Os argumentos versam sobre a fragilidade do corpo, um corpo cujo “tamanho, peso, menstruação, caixa craniana (…) As funções da mulher inscrevem-se em sua conformação: uma vagina para receber, um ventre para carregar, seios para amamentar…”p.173.

Outros argumentos são: “a indústria destrói a beleza da mulher e, sobretudo, a saúde da mulher e a desvia da sua função essencial: a maternidade”p.178, A questão da maternidade era muito importante, pois argumentavam que o trabalho na fábrica causaria o enfraquecimento e tiraria a capacidade de dar à luz uma geração forte e saudável.

Mas, quando era impossível prescindir do trabalho feminino devido à necessidade da complementação de renda, reivindicavam medidas de proteção, fim do trabalho noturno e do trabalho misto, que poderia levar à promiscuidade, limitação de horas, para que pudesse dedicar-se à casa, e principalmente trabalhos que fossem harmônicos à natureza e ao temperamento feminino, que seriam todos ligados ao lar ou ao cuidado, como a costura ou atividades de professora, enfermeira, assistente social e, no fim do século XIX, o trabalho de escritório.

As mulheres também faziam suas lutas e reivindicações. No congresso de Marselha de 1879, havia sete delegadas que conseguiram escrever seis relatórios feminino, apesar de terem um voto consultivo e um deliberativo. No entanto, aos poucos sua presença foi apagada, sendo que no ano de 1900 não consta participação feminina nos congressos, e a única reivindicação voltada para mulheres foi de “creches para as crianças”.

Mas entre os sindicalistas havia quem defendesse a mulher trabalhadora, como Ytier, delegado dos trabalhadores de Avignon, que defendeu que, se os homens reivindicavam trabalho, a mulher também precisava reivindicar, pois seria incoerente apenas um dos lados ser beneficiado; já Bernand, um saint-simonista, argumentava que todos, homens ou mulheres, teriam que produzir para consumir.

Com relação aos salários, os economistas políticos consideravam, de acordo com o texto de Joan Scott, que “(…) os salários dos homens eram essenciais para as famílias, cobrindo os custos de reprodução; os salários femininos eram suplementares…”p.456, e também escreveriam que as mulheres, mesmo as solteiras, sempre poderiam contar com a ajuda familiar, criando uma gama de mulheres sem famílias e eternamente pobres. Inclusive, foi o fator salário a principal causa dos empregos para as mulheres em escritórios e repartições governamentais, pois mulheres com melhor educação aceitavam trabalhar com salários inferiores a aqueles que deveriam ser oferecidos aos homens em igual condição de educação.

Mesmo defensores das mulheres, como John Stuart Mill, que, junto com sua mulher, Harriet Taylor, escreveram “A Sujeição da Mulheres”, livro em defesa da liberdade feminina, criticava o trabalho feminino. De acordo com ele, isso tiraria os homens de seus empregos e faria com que eles aceitassem ganhar menos para concorrer com as mulheres.

E o Estado não mudou o discurso dos sindicalistas, utilizando a alegação de corpos frágeis e da possibilidade de os empregos interferirem diretamente na procriação, para criarem legislações protetoras que não remediavam a condição do trabalho em geral, mas atingiam diretamente o problema da mulher e da criança.

Encerrando o texto, afirmo que o principal trabalho a que a mulher tinha que se dedicar, o trabalho doméstico, não era, e continua não sendo, um trabalho considerado produtivo, logo não havia motivo para um salário. E, tendo a necessidade econômica, elas se aviltavam em trabalhos menores e mal pagos. Não tendo como eliminar o trabalho feminino, várias classes então criaram uma separação sexual das ocupações, cabendo à mulher aquilo que se adequava ao corpo feminino, e que, logicamente, era considerado menos importante dentro da escala de produção.

Lia Mendes
Lia Mendes
Especialista em História Sociedade e Cultura pela PUC, estuda o feminismo, corpo e sexualidade e suas relações com as mídias audiovisuais. Professora do ensino fundamental e médio da rede particular da cidade de São Paulo.

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