Nesta semana li um texto que eu recomendo: “Escritoras, Escritas e Escrituras” da Professora Norma Telles. Esse texto está no livro “História das Mulheres no Brasil” com organização da Professora Mary Del Priori.

O texto é excelente e a leitura bem prazerosa! O que mais me chamou a atenção, foram os diversos nomes que a autora traz para nós. Mulheres que escreveram, ousaram e que eu nunca tinha ouvido falar.

Junto com essa leitura, nessas sincronicidades da vida, veio a notícia de que a escritora Ana Cristina César será a próxima homenageada na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty.

É a segunda mulher escritora homenageada em 13 anos de Festa Literária. A primeira foi em 2005 e foi Clarice Lispector.

Esse fato e a evidente ausência de mulheres em um dos maiores eventos literários do país, levou a criação do movimento “KD Mulheres?” por Martha Lopes e Laura Folgueira.

imagem retirada do site http://www.blogdacompanhia.com.br/wp-content/uploads/2013/10/postANA.jpg

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A ausência de mulheres escritoras está baseada em uma série de obstáculos que persistem há muito tempo. Desde a insegurança da mulher em mostrar seus escritos – já que ela tem que ser genial e seu comparativo é sempre um homem, cujas condições de vida são totalmente diferentes das dela – até os “tetos” e “cercas” de vidro que ela tem que enfrentar.

Virginia Woolf já falou disso nos anos 20 no seu livro “Um teto todo seu”. A escrita da mulher não é importante. Ela não tem permissão para sair pelo mundo e viver, assim suas referências acabam sendo domésticas. Ela é interrompida a todo momento e, além de tudo isso, quando ela sai para o mundo com esses escritos tem que enfrentar os julgamentos por ser mulher e estar escrevendo. Para se destacar uma mulher tem que ser genial. Para nós não existe o meio termo.

Virginia Woolf

Ademais, nos falta referências. Cadê as mulheres? Essa pergunta já resume tudo, não? Por isso o texto da Professora Norma Telles me chamou tanta atenção e abriu uma porta imensa ao trazer nomes de mulheres brasileiras que em pleno século XIX escreveram e questionaram exatamente o que estamos questionando hoje.

Para mim o primeiro passo para começarmos a empoderar a mulher artista é, além da pergunta básica “Cadê as mulheres?”, resgatar nossas referências.

Isso porque, toda vez que vou defender este espaço ou falar da necessidade dele escuto coisas como “Mas para o homem também é difícil viver da arte” ou “A mulheres não tem interesse neste tipo de expressão artística” ou “Mulheres gostam de escrever apenas sobre determinados assuntos” e por ai vai.

Não e não! Podemos escrever sobre tudo! Por isso o termo “literatura feminina” para mim é totalmente excludente, afinal você já ouviu “literatura masculina”?

Claro que falamos do que nos dói: da nossa exclusão, do sentimento de não pertencer, do nosso corpo e de questões ligadas a ele. Mas o fato é se a gente não falar quem vai falar?

No entanto, trazer essas questões não exclui a possibilidade de uma mulher escritora falar sobre política, economia, filosofia etc. A pergunta é: temos espaço? Se em uma feira como a FLIP que inclusive foi criada por uma mulher, em 13 anos só tivemos duas homenageadas… por ai podemos chegar em alguma conclusão.

A forma como nós mulheres fomos e somos representadas na literatura também deve ser analisada. No texto que citei no início deste post a Professora Norma Telles traz um tópico muito interessante:

“O século XIX não via com bons olhos mulheres envolvidas em ações políticas, revoltas e guerras. As interpretações literárias das ações das mulheres armadas, em geral, denunciam a incapacidade feminina para a luta, física ou mental, donde concluem que as mulheres são incapazes para a política, ou que esse tipo de  ideia é apenas diversão passageira de meninas teimosas que querem sobressair.

O livro de Mary Wollstonecraft também aparece em A Moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882). Mas a conotação é diferente da que examinamos em Nísia Floresta ou Ana de Barandas. O livro é mencionado como irônica zombaria quando um jovem descreve Carolina: “a bela senhora é filósofa!…faz ideia!Já leu Mary de Wollstonecraft e como esta defende o direito das mulheres”.”

Nós mulheres temos que despender muita energia para nós posicionarmos! Ah se pudéssemos gastar essa energia APENAS com nosso trabalho criativo…

Norma Telles ainda cita Maria Firmina dos Reis, Júlia Lopes de Almeida, Narcisa Amália e Maria Benedicta Bormann, mulheres que vou trazer aqui no blog em breve!

Narcisa Amália de Campos

Narcisa Amália de Campos

Outra ponto destacado no texto são os jornais femininos:

“No Brasil do século XIX, várias mulheres fundaram jornais visando esclarecer as leitoras, dar informações, chegando, no final do período, a fazer reivindicações objetivas. Muitas vezes, esses jornais pertenciam a mulheres de classe média, algumas das quais investiam todos os seus recursos neles. Eram tantos que chegaram a formar uma rede, de norte a sul, atentos às publicações e ações das mulheres. No Rio Grande do Sul, fios importantes dessa rede foram o Escrínio e o Corymbo das irmãs Revocata Heloísa de Melo e Julieta de Melo Monteiro, ambas literatas que escreveram poesia, contos e peças teatrais.”

 Hoje vejo um movimento semelhante na internet. Mulheres escrevendo, reivindicando um espaço, formando coletivos para se expressarem artisticamente ou denunciarem a falta de espaço. Na realidade sempre existiu: o trabalho da mulher acontece no coletivo.

E precisamos continuar. Se hoje temos um pouco mais de espaço foi graças a essas mulheres que lá atrás bateram o pé por ele. Hoje somos nós, para que a próxima geração de mulheres não precise perder tanta energia com essa briga. Mas só com sua escrita e sua criação.

Aliás, outro projeto muito bacana que merece ser citado aqui é o “Margens” da Jéssica Balbino que está mapeando as mulheres escritoras da literatura marginal/periférica.

E para encerrar indico o site da Professora Norma Telles, é só clicar aqui. Tem textos e links para se aprofundar no tema.

E se você escreve manda pra gente! Publico aqui no LAS ABUELITAS. Esse espaço é nosso!

Até mais!!!

Priscilla Leal

_MG_0162Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso trago no blog informações jurídicas, que estão envolvidas na atividade artística, além de informações de produção e gestão cultural. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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