Antes de começar a escrever este post, fui pesquisar sobre artesanato. Mas afinal o que é artesanato?

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Encontrei definições variadas, diferenciando o produto artesanal do manual. Artesanal seria algo tridimensional, feito com matéria-prima, e com baixa produção.

A baixa produção é o que diferencia do produto industrial que é realizado em larga escala. A tridimensionalidade difere o produto artesanal do trabalho manual. Nesse conceito, um pano de prato seria um produto manual, já um vaso seria um produto artesanal.

Por fim o produto artesanal é realizado visando alguma utilidade de uso, por exemplo, as panelas de barro.

Ainda existe a diferenciação do artesanato com a arte popular. Confesso que fiquei tentada em me aprofundar em todas essas nomenclaturas, mas para este momento, o que me levou a olhar para o artesanato é o fato de ver muita mulher inserida nessa arte e de que, muitas vezes, essa atividade torna-se a fonte de renda da mulher e da família.

Primeiro fui pesquisar se de fato o artesanato é um ambiente de predominância feminina, e encontrei esta reportagem “Artesanato não é “coisa” só de mulher”. A matéria conta a história de um homem que acompanha sua esposa nas aulas de artesanato. Ele é o único homem no meio de 122 mulheres.

A natureza do trabalho artesanal é manual, de ambiente privado, geralmente feito dentro de casa e não se relaciona ao trabalho industrial.

Esses aspectos fazem que essa atividade seja definida como feminina, já que o feminino pertence ao ambiente privado, ao lar.

Há também outros padrões que são propagados, como as mulheres terem mãos mais delicadas ou serem mais sensíveis.

Muitas mulheres veem ainda no artesanato a possibilidade de ajudar na renda familiar e de estar em casa com os filhos.

Artesanato do Vale do Jequitinhonha

Artesanato do Vale do Jequitinhonha

Por conta disso, Associações e o próprio SEBRAE vêm fomentando e trabalhando na capacitação dessas artesãs, pois, geralmente, a produção artesanal é aprendida dentro de casa, faltando qualificação para se colocar no mercado: apresentar e vender os produtos.

O artesanato sendo uma forma de propagar a cultura de um povo e a identidade nacional, e de movimentar a economia, vem sendo também apropriado por outras linguagens como a decoração e a moda. O problema é que muitas vezes as artesãs não são reconhecidas. Tem-se o nome do arquiteto, do decorador…e não tem o da artesã! Ou o estilista e as modelos são super destacadas, e as artesãs…nada!

Esse é um problema e esta muito ligado a desvalorização do trabalho manual da mulher. É aquela história: você tá tricotando não trabalhando, não é verdade?

Ainda na busca por entender um pouco sobre o mundo das mulheres no artesanato, entrei em contato com um projeto muito bacana no Vale do Jequitinhonha.

O projeto “Cultura Sustentável no Jequitinhonha” tem como objetivo promover a cultura dessa região de Minas Gerais, aliada a questões ambientais, por meio de seu artesanato e potencial turístico. O Comitê Gestor do projeto é composto pelo Ministério Público de Minas Gerais, Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico e IABS. Os executores incluem renomadas instituições como o Artesanato Solidário, Raízes Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Girona e S.Talk e Plan B Comunicações.

Na página do projeto no facebook tem alguns depoimentos que ilustram bem o que estou falando. Reproduzo o da Micheli Pereira da Silva, 21 anos, artesã de tecelagem e bordado, do Jequitinhonha:

Micheli Pereira da Silva, 21 anos, artesã de tecelagem e bordado

Micheli Pereira da Silva, 21 anos, artesã de tecelagem e bordado

“Tecelagem é uma coisa que aqui na região é muito desvalorizada, mas muitas pessoas de fora valorizam nosso trabalho, as pessoas que moram aqui criticam e falam: você fica aqui todo o dia fazendo o que? Porque vocês fazem e não vendem? Realmente fazemos as peças, mas ficam guardadas, se aparece uma feira, vendemos, mas você não pode contar que o mês que vem você vai ter esse dinheiro, você não tem noção, você faz e deixa lá.
A comercialização, a promoção e falta de mais novidades do produto são nossos problemas. Porque geralmente ficam parecidos. Eu mesma sei fazer flores, casinhas, não sei fazer outras coisas, quem me ensinou tampouco sabe fazer outras coisas, ou inovar. Agora vieram ensinar a gente com a fibra de bananeira, é isso aí o que está faltando.”

De fato, o trabalho artesanal não pode ser compreendido e estimulado como se fosse um trabalho industrial. Outras questões estão ali envolvidas, até mesmo a valorização do trabalho.

É muito comum a gente pagar caro em alguns produtos comprados em loja, mas pechinchar muito ou não comprar um produto artesanal, alegando estar muito caro, não é mesmo? O que a gente esquece que aquele trabalho foi feito pelas mãos de uma artista e que todo o processo é artesanal, e por isso mesmo o tempo de preparo é completamente diferente do tempo industrial.

A qualidade dos trabalhos artesanais também é outra questão na qual deve-se ter investimento, já que a venda desses trabalhos é fonte ou complementação de renda para muitas famílias. É então necessário capacitar essas artesãs para atuarem no mercado e, consequentemente, inovar no seu produto.

Por isso a importância de associações, cooperativas e projetos que permitam o intercâmbio dessas artesãs com designers ou outros profissionais e a participação em feiras de artesanato. É uma forma de expor o trabalho e desenvolver o próprio ofício. Essa importância também fica explícita na fala da Micheli que citei acima.

Ainda em contato com o Projeto “Cultura Sustentável do Jequitinhonha” conheci a importância e o trabalho da artesã Dona Izabel, conhecida como a bonequeira mais famosa da região de Minas Gerais.

Dona Izabel

Dona Izabel aprendeu o ofício com sua mãe que fazia panelas de barro.

A artista modelava bonecas com o  barro, escondida, para brincar. Sempre foi autodidata. Seu trabalho começou a ficar popular por conta de um colecionador francês que o trazia para sua galeria em São Paulo e da Comissão de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha que comprava o artesanato local e revendia.

Em 2003, as bonecas de Dona Izabel foram parar na São Paulo Fashion Week, quando o estilista Ronaldo Fraga homenageou as ceramistas do Vale do Jequitinhonha. Mãe de quatro filhos, ela recebeu vários prêmios, como o Unesco de Artesanato para a América Latina (2004), a Ordem do Mérito Cultural (concedida pelo Ministério da Cultura, 2005) e o Prêmio Culturas Populares (Ministério da Cultura, 2009).

Dona Izabel foi também homenageada pela presidente Dilma Rousseff durante a abertura da exposição Mulheres artistas e brasileiras, no Palácio do Planalto, em Brasília, ano de 2011.

A artista faleceu aos 90 anos, no ano de 2014.

Mas Dona Izabel difundiu sua arte e ensinou muita gente, como a artesã bonequeira Maurina Pereira dos Santos:

Maurina Pereira dos Santos, 68 anos, artesã bonequeira

Maurina Pereira dos Santos, 68 anos, artesã bonequeira

“A Dona Izabel me falou assim: Eu vou te ajudar porque achei você inteligente e você me ajudou muito. Tivemos um curso com ela, que ajudou a me qualificar mais. Eu não tinha casa, Dona Izabel me ajudou. Comprei uma casa de 200 reais e fui trocando por outra melhor, até que comprei esta, que graças a Deus comprei com meu trabalho no artesanato.”

A importância da Dona Izabel é enorme e, como ela, muitas artesãs estão por aí ensinando a moldar, a tecer. Precisam, portanto, serem valorizadas e capacitadas.

A capacitação, ao contrário do que podemos pensar, não tira a característica principal do produto artesanal, ele não será industrializado. Essa capacitação é justamente para ampliar, transformar essas artesãs em empreendedoras, para continuarem difundindo a sua arte, para gerarem renda com ela e serem valorizadas como artistas na sociedade.

E quando for comprar um artesanato, não se esqueça de ver quem fez! Valorize essa assinatura, você tem um produto feito a mão, com cuidado e zelo nas suas mãos. São artistas, transformando o barro em bonecas, vasos, quadros! Fios em tapetes que irão trazer beleza e aconchego para o seu espaço!

Maria de Lourdes Ferreira Santos, 55 anos, do distrito de Guaranilândia, que pertence ao município de Jequitinhonha

Maria de Lourdes Ferreira Santos, 55 anos, do distrito de Guaranilândia, que pertence ao município de Jequitinhonha

Por fim, não posso deixar de citar aquela mulher que, apesar de não viver do seu artesanato, faz ele em casa, para a família, para as amigas, para si mesma. Primeiro, informe-se porque seu trabalho pode virar renda. Como já citei o SEBRAE e outras associações tem um capítulo especial sobre o artesanato.

Mas se o seu desejo for deixar sua arte pra você se expressar, no seu ambiente, valorize-se e orgulhe-se! É sua expressão artística. Repasse-a para quem quer aprender, aceite os elogios e reconheça o seu trabalho.

E ainda visando a valorização do trabalho das artesãs, propus para uma designer de interiores utilizar os artesanatos feitos pelas mulheres do Vale do Jequitinhonha na decoração de uma casa.

Aguarde!

Priscilla Leal

_MG_0162Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua  relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o)  produtor(a) cultural, por isso trago no blog informações jurídicas, que estão  envolvidas na atividade artística, além de informações de produção e gestão cultural. Idealizei e  executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

4 Comments

  1. Vanessa disse:

    Lindo texto! Fazer artesanato é deixar a alma falar por nós em forma de arte! Adorei.

  2. […] passada o LAS ABUELITAS trouxe o artesanato como tema. Para escrever o texto entrei em contato com o projeto “Cultura Sustentável no […]

  3. […] conferir o post completo no blog Las Abuelitas, recomendo que leia primeiramente sobre as Mulheres e Artesanato e na sequencia A decoração artesanal em […]

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