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Nesta semana aconteceu algo curioso comigo. Sentindo fortes cólicas e conhecendo o meu corpo, sabia que iria menstruar e não tinha nenhum absorvente na bolsa. Então pedi a uma amiga que trabalha comigo. Enquanto estava na sala, com um senhor que também trabalha com nós, ela chegou com o pacote de absorvente e disse: “tá aqui!”, colocando-o na minha mesa. O senhor saiu na hora e eu fiquei envergonhada.

Mas logo na sequência me perguntei: por que senti vergonha? Sou mulher e desde os 13 anos menstruo todo mês. Tudo bem que fiquei um tempo sem sangrar por conta da pílula anticoncepcional, mas, desde que tive que parar com o AC, por conta de uma trombose que minha irmã caçula sofreu e que me fez fazer exames que deram positivo para o fator da trombofilia, minha menstruação voltou e a tenho todo mês. Mas, ao invés de ficar grata pelo meu corpo que está funcionando de acordo com a sua natureza, eu me envergonho e, confesso, muitas vezes o amaldiçoo. Tenho uma TPM terrível e quando começo a sofrer seus efeitos no meu corpo, só penso o quanto é horrível passar por tudo isso.

Por que? Isso é meu ou me foi ensinado?

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“Pintura” – Anna Volpi

Fazendo uma retrospectiva, concluí que me foi ensinado. Nunca ouvi de uma mulher “estou menstruada” sem uma cara de “que saco!” acompanhando. Estar menstruada começou a significar privação, chatice, alteração de humor, fique longe de mim. Quando a menina menstrua pela primeira vez e escuta o “ficou mocinha”, geralmente, junto com essa constatação vem uma série de responsabilidades. Lembro-me de uma prima que menstruou antes de mim e do quanto ela ficava segregada durante o seu período. Na minha cabeça, ela tinha algo que a impedia de se misturar.

De fato, o corpo muda. As alterações de humor, a confusão mental que se instala antes e as cólicas nos colocam em outro lugar. E, apesar de algumas mulheres não sentirem a TPM e as cólicas, o fato é que a maioria sente. Mas por que precisamos colocar isso num lugar ruim ou bom? Por que não colocar como diferente? Como um estado mensal que faz parte do funcionamento do seu corpo e que pode ser vivido com leveza, se a mulher souber esperar ele passar e não se culpar tanto? Não se envergonhar tanto?

Ensinamos as meninas que menstruar é algo secreto, que deve ser falado baixinho, deve ser escondido. Que Tensão Pré-Menstrual é coisa de mulher louca que sai quebrando carro, que é justificativa para agredir pessoas ou intensificar comportamentos infantis.

Não é nada disso. É algo que o corpo daquela mulher gera, é natural do corpo dela.

Veja, não estou dizendo que todas devemos menstruar e sermos felizes. Hoje existe a possibilidade de a mulher não menstruar e, se ela está feliz com isso, ótimo! Há também mulheres que por algum motivo não menstruam e nem por isso deixam de serem mulheres. E há ainda aquelas que não gostam e pronto.

O que a vergonha que senti quando a caixa de absorvente veio parar na minha mesa me fez pensar foi: este é o meu corpo, ele funciona assim, então por que ter vergonha?

Como disse, a minha TPM é muito forte. Já fiz todos os tratamentos que vocês podem imaginar e não deram certo. Já fui julgada por amigas que me olhavam com cara de “exagerada” porque o corpo delas não entrava em ebulição a cada mês. Mais uma vez: cada corpo é um corpo.

Não quero aqui falar do quanto é incrível, do quanto é péssimo, do quanto precisamos fazer isso ou aquilo. Penso que temos que nos aprofundar no nosso corpo, que é único, e com consciência chegarmos no que é o melhor para ele.

Pensando nisso fui atrás de artistas que, por meio da arte, colocaram no mundo seu discurso sobre esse tema.

Encontrei projetos muito legais, e destaquei três:

Anna Volpi

Anna Volpi é uma fotógrafa italiana. Para questionar o fato de a menstruação ser tabu, ela começou a usar o sangue menstrual em suas fotos:

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“Banho” – Anna Volpi

“Menstruação ainda é tabu. Em muitos países as mulheres ainda são segregadas durante seu período menstrual. Mesmo quando a  mulher vai trabalhar durante a menstruação, elas ainda não falam a respeito, não existem. Até nos comerciais usam um líquido azul para representar o sangue. Nós vemos tanto sangue por conta da violência, mas ainda ficamos doídos quando o sangue natural é exposto. Eu vejo beleza nisso. Eu uso a menstruação para criar beleza.”

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“Desejo” – Anna Volpi

 

Janaina Morais

É artista visual brasileira e antropóloga. Idealizadora do projeto “Meu corpo, minhas regras”, que surgiu do desejo de quebrar o tabu da menstruação e ressignificá-la pela arte.

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Foto: Janaina Morais

“O projeto “Meu corpo, meu sangue – ressignificando a menstruação” busca incentivar mulheres e outros corpos menstruantes a conhecerem seus corpos, seus ciclos e suas sexualidades, a partir de uma perspectiva mais holística e sensitiva. Através do compartilhamento de criações imagéticas e experiências pessoais, aliadas a pesquisas de cunho científico-sensorial, eu convido xs leitores a entrarem nessa jornada de desconstrução comigo, rompendo preconceitos e tabus que envolvem o tema.”

Esse projeto foi financiado pela Lei de Incentivo Municipal Murilo Mendes, da cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais.

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Foto: Janaina Morais

 

Vanessa Tiegs

É professora, fotógrafa, dançarina, astróloga e cunhou o termo Menstrala para exibir suas 88 pinturas feitas com sangue menstrual. Desde então, outras artistas e blogueiras vêm usando o termo para falar da arte feita com a menstruação.

Segundo Vanessa, “Menstrala é a lembrança de que o sangue menstrual não é invisível. O sangue menstrual é o único não violento.”

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“La Curvia” – Vanessa Tiegs

 

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Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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