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Menino de ouro

Se você jogar o nome Abigail Tarttelin no Google, praticamente só irão aparecer páginas em inglês sobre essa escritora britânica, e a conclusão desse resultado é que ela não é conhecida por aqui. Eu não a conhecia, e o livro “Menino de ouro” chegou às minhas mãos como um presente. Depois de ler, devorar e adorar esse livro, eu quis ler mais algum outro dela (queria saber se ela realmente tem todo o talento que demonstrou nessa história), mas não encontrei nenhum ainda com tradução para o português. Falemos sobre o livro:

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Max é um garoto “modelo” (estudioso, bom filho, bom irmão etc.) de 16 anos e que à vista de todos é um menino exemplar. O que difere Max dos demais adolescentes é que ele é intersexual (hermafrodita). O menino parece lidar bem com essa diferença com que ele convive diariamente, mas tudo muda com um certo “acontecimento” terrível (não darei spoilers). Após esse dia D, todas as indagações começam a pipocar na cabeça do garoto, todas as dúvidas, inseguranças, medo da rejeição, medo de ser quem ele é. Nos capítulos em que a narração é feita pelo personagem principal, percebemos o quanto a mente de um adolescente é confusa e cheia de medos. Max luta internamente o tempo todo para aceitar sua própria condição e também para vencer os medos do futuro, para o qual ele não tem muitas perspectivas. É triste constatar que a todo momento, mais do que tentar se encaixar, ele busca alucinadamente o autoconhecimento, quer decifrar o valor que tem para si próprio e para a sua família. Max tem sonhos comuns, como todo garoto da sua idade, mas é vilipendiado por não ser igual à maioria.

 

“(…) sou um observador passivo da dor à minha volta. Sou o fusível da bomba. Nem sequer me acendo. Tampouco escolho quando apagar. Eu não explodo. Eu apenas sou.”

 

A história é contada sempre em primeira pessoa, sob a percepção de seis personagens: a mãe, o irmão mais novo, a amiga/namorada, a médica e o próprio Max. Ah! E no final há ainda a visão sobre o assunto de um outro personagem (continuo com a política de não fornecer spoilers). A autora conseguiu dar para cada personagem uma linguagem característica e muito verossímil, cada acontecimento é muito bem detalhado e nos instiga a querer saber cada vez mais sobre a vida de Max e o que irá acontecer com o menino.

Abigail Tarttelin

Abigail Tarttelin

Se prepare para não querer largar o livro enquanto a história não terminar; mais ainda, se prepare para muitas perguntas, pensamentos que irão surgir na sua cabeça. Houve momentos de ler cenas tão fortes que parecia que eu não iria conseguir prosseguir com a leitura, como se toda aquela história fosse de alguém próximo a mim. A história nos faz questionar muito sobre o quão pouco sabemos sobre gêneros, sobre a sexualidade e de como às vezes esse conceito de masculino x feminino é tão limitado por uma sociedade que sempre quer nos colocar dentro de um padrão.

Não é uma leitura das mais tranquilas, porque realmente algumas partes são bem incomodas e em alguns momentos parece que a narração não se desenrola; porém a história como um todo é recompensadora, e o incômodo provocado pela leitura com certeza fará você refletir sobre tantos temas sobre os quais antes sequer pensava a respeito. É leitura psicologicamente forte e tensa.No final do livro fica aquela sensação gritante de que não entendemos quase nada sobre sexualidade e também compreendemos pouquíssimo do comportamento humano de forma geral.

Instigante, envolvente, bem elaborado, bem escrito. É um livro que não pode faltar na lista de leitura dos aficionados por ótimas histórias.

Juliana Lacerda
Juliana Lacerda
Estudante da área de tecnologia, superando a crise dos 30 e sempre correndo atrás dos sonhos. Apaixonada por livros, músicas, filmes, viagens e sensações. Acho que a vida vale muito mais a pena quando conseguimos seguir todas as direções que nosso coração aponta. É editora do site www.sembussola.com.br

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