Maria Alice Vergueiro é tema de documentário e homenageada na Mostra de cinema de São Paulo

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Maria Alice Vergueiro

Maria Alice Vergueiro foto: Revista Serafina

Produzido de maneira independente, filme faz um retrato da atriz que, perto dos 80 anos, reflete sobre sua trajetória, a proximidade da morte, a situação do teatro no país e o preço das convicções artísticas.

Filmado ao longo de quase cinco anos, durante as temporadas da peça As Três Velhas, o documentário GÓRGONA, estreia na direção de longa-metragem dos cineastas Fábio Furtado e Pedro Jezler, faz um recorte sensível do momento atual na vida de Maria Alice Vergueiro, 81, considerada uma das maiores atrizes do país e acometida pelo mal de Parkinson desde 2000. Abordando temas como a proximidade da morte, o envelhecer em cena e as vicissitudes de se fazer teatro no Brasil, o filme terá sua estreia na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no dia 21 de outubro, às 20 horas, no Espaço Itaú de Cinema. Depois da exibição acontece um debate com Maria Alice e os diretores do filme.

A idéia de fazer um filme com Maria Alice já surgira em 2007, quando Fábio registrou algumas cenas do processo da peça de Alejandro Jodorowsky, montada pelo Grupo Pândega, nome da companhia fundada por ele, Maria Alice e o ator Luciano Chirolli. Porém, foi só em 2010, com a chegada de Pedro, que os diretores conceberam o projeto de fazer um documentário sobre a atriz, forma que chega agora às telas.

A atriz paulistana Maria Alice Vergueiro, de 80 anos, é uma das figuras mais representativas e polêmicas do teatro brasileiro. Hoje, ela convive com o Parkinson e tem dificuldade de locomoção – anda apenas de cadeira de rodas. Mas continua produzindo a mil, tem opiniões fortes e estreia uma nova peça em abril, como atriz e diretora. O título é “Why the Horse?” e, no palco, ela vai discutir com ironia a finitude da vida.Precisamos fotografar o ensaio mostrando Maria Alice sozinha e também interagindo com os outros atores.Em cena, ao lado de Maria Alice Vergueiro, estão Luciano Chirolli, seu companheiro artístico de longa data, e os atores Pascoal da Conceição, Danilo Grangheia e Marco Luz, além da atriz Carolina Splendore, que fez assistência de direção para a montagem. A equipe técnica do grupo também foi registrada nos diferentes teatros por onde passou o espetáculo.

Opções de linguagem e a longa convivência

“Já com a ideia de fazer um documentário, nossa abordagem foi a da longa convivência, praticamente em todas as apresentações da peça. Como faço parte da companhia, depois de um certo tempo, a presença da câmera foi se tornando cada vez mais natural. Depois das filmagens, Pedro e eu revíamos o material bruto e assim fomos entendendo por onde e o que registrar”, afirma Fábio Furtado. “Percebemos que não nos interessava olhar para material de arquivo, ou tentar abranger uma vida inteira no tempo de um filme. Era aquele momento da vida da Maria, com as tantas camadas que trazia – como um retrato”, continua.

As conversas que aparecem no filme também são espontâneas, e não partiram de perguntas no formato de entrevistas.

“A intimidade da câmera com os personagens, facilitada pela presença do Fábio e aprofundada pelo longo período de observação, foi nos distanciando da abordagem tradicional”, conta Pedro Jezler.

“Fizemos a opção de só filmar os atores dentro do teatro, assumindo a perspectiva de quem faz parte desse mundo. São artistas do palco, e queríamos preservar esse contexto. Por isso não há cenas do ponto de vista da plateia, na casa da atriz e nem externas. Se aparece algum trecho da peça, é sempre mostrado a partir das coxias. É como se só no teatro aquelas pessoas assumissem uma existência plena”, acrescenta. “Como o cotidiano dos bastidores é feito de coisas que se repetem a cada apresentação, pudemos filmar os mesmos gestos ao longo dos anos e fomos desenvolvendo um interesse pela passagem do tempo. Todo esse material foi depurado no processo de montagem do filme, que também foi muito longo, durou quase dois anos” revela Pedro.

“É notável a coragem com que essa mulher, cuja história se confunde com a do teatro moderno no Brasil, acometida pelo mal de Parkinson e já perto de 80 anos (atualmente a atriz está com 81), continua inquieta, criativa, enfrenta como pode as dificuldades e consegue estabelecer parcerias com novas gerações de artistas”, conclui Fábio.

Peça "As três velhas"

Peça “As três velhas”

Sobre os diretores

Pedro Jezler formou-se no Curso Superior do Audiovisual da Escola de Comunicação e Artes da USP, e é pós-graduado em Cinema Documentário pela Fundação Getúlio Vargas. Atua como diretor e roteirista.

Fábio Furtado é fotógrafo e videomaker. Estudou Letras na USP, fotografia e artes visuais com Carlos Moreira, Regina Martins e Evandro Carlos Jardim. Co-fundador da Cia. Pândega de Teatro, foi dramaturgo do espetáculo “Why the Horse?”. É colaborador da companhia de dança Perversos Polimorfos, cujos trabalhos registra em foto e vídeo há oito anos. Desde 2015 coordena a equipe de audiovisual da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Sinopse

Endividada pela montagem de sua última peça de teatro, Maria Alice Vergueiro, uma atriz septuagenária acometida pelo mal de Parkinson, vive a aclamação da crítica e a indiferença da indústria enquanto tenta encarar o grotesco da morte oscilando entre o horror e o risível.

Górgona – Estreia no dia 21 de outubro, dentro da programação da Mostra Internacional de São Paulo. 19h45, Espaço Itaú de Cinema – Sala 1. Direção – Pedro Jezler e Fábio Furtado. Direção de Fotografia – Fábio Furtado. Montagem – Nina Senra, Thiago Ozelami e Pedro Jezler. Duração – 72 minutos.

Outras apresentações:

Dia 22 de outubro, às 17h40 no Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca (sala 6)

Dia 31 de outubro, às 16h20, no Cine Caixa Belas Artes – Vila Lobos (sala 1)

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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