Maria Alice Vergueiro, além dos epitáfios

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Maria Alice Vergueiro, além dos epitáfios

Em um discurso sem compromisso com fatalidades, Maria Alice Vergueiro utiliza o espetáculo “Why The Horse?”  para um ensaio cênico livremente inspirado em seu próprio funeral. E se nesse exato momento passasse em sua cabeça um filme de sua vida, Maria Alice Vergueiro teria mais de 80 anos de história a serem editados, sendo pelo menos cinquenta deles dedicados ao teatro.

A trama da atriz tem início no Teatro de Arena, com Augusto Boal, na década de 60, tempos em que a morte marchava pelas ruas e, de surpresa, arrastava as pessoas que cruzavam o seu caminho. Era o auge da ditadura no Brasil. E já demonstrando ser uma mulher de coragem e sem medo de ser feliz, ela ingressa no Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa, onde participa de vários espetáculos. Até mesmo quando ele se exilava, lá estava ela, no elenco da montagem de Galileu Galilei, sob a direção de Corrêa, que foi transitar na contramão do governo brasileiro em Portugal (1975).

Foto: Vivian Maia

Poucos anos mais tarde (1977), Maria Alice se une a Luiz Roberto Galizia e Cacá Rosset para formar o Teatro do Ornitorrinco, que surgiu nos porões do Teatro Oficina. Em 1985 a mesma  companhia atrai uma juventude que, por mais de dois anos, lotou plateias de teatros paulistanos com o espetáculo multimídia “Ubu, Folias Physicas, Pataphisicas e Musicaes”, comédia satírica composta por cenas que transitavam por recursos artísticos diversos como o circo, a dança, o teatro e a música. O grupo conquistou notoriedade internacional com a forte característica de passear livre e divertidamente pelos seus trabalhos, como se festejassem a liberdade. Depois, com a irreverência pulsando em seu DNA, Maria Alice e seu grupo foram visitar os clássicos do teatro universal, com destaque para Molière e Shakespeare, em “O Doente Imaginário”, “O Avarento”, “Sonho de uma Noite de Verão” e “A Comédia dos Erros”, entre outros.

Daí pra frente o Teatro do Ornitorrinco se tornou referência, e Maria Alice um emblema de interpretação presente em montagens de peso do teatro brasileiro. Quem viu deve se lembrar dela como a Enfermeira, que cuidava de loucos em “Temporada de Gripe”, de Will Eno, dirigido por Felipe Hirsch – diretor que na época vinha ganhando destaque pela ousadia em suas encenações e despertando a curiosidade do público e da crítica.

Em 2005 a atriz enfrenta um enorme desafio, talvez o maior de todos para ela: encarar a doença de Parkinson na vida e na arte.Esse obstáculo não colocou freios em sua carreira, mas sim deu rodas a sua personalidade de artista. Em 2007 ela surge para mostrar que cutucaram a fera. Maria Alice, que até então estava longe de ser uma figura de grandes  públicos, ganhou o mundo pela internet e deitou e rolou nas redes sociais, mostrando ser uma mulher sempre atual e conseguindo a façanha de colocar em ação um verbo recém-chegado: viralizar. Pois é, ela viralizou o vídeo “Tapa na Pantera”: uma poltrona, uma polêmica e um tom irônico foram suficientes para surpreender mais uma vez o seu público, além de conquistar novos seguidores e uma nova geração.

Maria Alice sempre foi dos palcos, por isso, em 2010 ela, mesmo numa cadeira de rodas, estreia “As Três Velhas”, de Alejandro Jodorowsky – como atriz e diretora, onde alia seu talento e criatividade ao estilo do “Teatro Pânico”, surgido durante a ditadura espanhola de Francisco Franco. A estreia acontece no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, primeira empresa a patrocinar uma peça da artista em 50 anos de carreira, conta ela. Mesmo com o avanço da doença, ela adentrava os palcos e incluía na personagem os efeitos que surgiam no seu organismo. Numa entrevista à Veja São Paulo, ela mesma diz, com propriedade: “Quando você aceita uma limitação, tudo fica ilimitado”.

Foto: Vivian Maia

No ano passado (2015) ganhou seu primeiro prêmio no cinema, como melhor atriz coadjuvante no 11º Prêmio FIESP/SESI-SP de Cinema, pela atuação em “Jogo das Decapitações”, de Sérgio Bianchi. E, ela mesma, em sua cadeira de rodas e acompanhada do ator e amigo Luciano Chirolli, foi buscar o troféu no palco do teatro do SESI, na Avenida Paulista, sob aplausos eufóricos.

Em 2015 Maria Alice estreia “Why The Horse?”, um espetáculo feito para zombar da morte e enaltecer a vida, onde o elenco encena, numa espécie de happening, uma dramaturgia repleta de influências artísticas, como Jodorowsky, Hilda Hilst, Brecht, Lorca e Beckett. Sobre a morte, Maria Alice diz: “E se eu não quisesse ser pega de surpresa, era melhor ensaiá-la”. E neste ensaio sobre a morte, em que ela só faz reforçar seus laços com a eternidade, até mesmo quem não viver Maria Alice Vergueiro há de nota-la, bem além dos epitáfios.

Agradecimentos: Maria Alice Vergueiro – por existir; Carla Estefan – por produzir e respirar o teatro de Maria Alice Vergueiro; Márcia Di Domenico – pelo apoio e revisão do texto e Las Abuelitas/Priscilla Leal – por botar luz no potencial da mulher artista.

Texto de Guto Mendonça – Ator, produtor e pesquisador de teatro

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