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marcela serrano

Quando se pensa em grandes escritores do Chile, os nomes que normalmente vem à mente são os consagrados e premiados com o Nobel de literatura Pablo Neruda e Gabriela Mistral, dois ícones da poesia da América do Sul, e a bestseller Isabel Allende. Mas nesse cenário de grandes autores chilenos há ainda Marcela Serrano, pouco conhecida apesar de seus livros terem sido traduzidos para 36 idiomas, e certamente uma autora que merece destaque.

Marcela é filha de um escritor e de uma ensaísta e tem quatro irmãs. Ainda na faculdade, ganhou um prêmio importante com um trabalho sobre as mulheres que estão em extinção na Patagônia. Defensora da democracia, dos direitos das mulheres e da igualdade social, também foi vítima da ditadura de Pinochet, tendo ficado exilada na Itália. Começou a se dedicar com seriedade à literatura somente aos 38 anos. Segundo a própria autora, a redemocratização do país lhe trouxe a vontade e a liberdade de poder escrever e ser publicada e também, a essa altura, já tinha tido os filhos e os maridos que desejou ter. Desde então, já são doze livros publicados.

marcela_serrano1Seus livros narram acontecimentos de mulheres comuns e com histórias comuns. É a explicação do todo por meio de pequenas partes; a compreensão do complexo a partir de algo simples. Suas novelas falam sobre o universo feminino e suas relações, mas nunca deixando de lado a história política e social do Chile. A maioria dos livros possui mais de uma protagonista, e as mulheres se fiam nas amizades de outras mulheres ou da terapia para solucionar suas amarguras ou percalços da vida. É na cura catártica que a escritora acredita para abrandar as inquietações, seja essa catarse proporcionada pela amizade entre mulheres ou por terapias. Suas personagens se questionam a todo o momento sobre o papel da mulher na sociedade, sobre os grilhões muito perceptíveis que são ainda impostos, seja pela maternidade, pelos pais, pelo marido ou amante em uma sociedade machista, em que há padrões estabelecendo quais os comportamentos adequados que as mulheres devem seguir.

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“Meu nome é Francisca — até o meu nome é comum, quantas Franciscas cada uma de vocês conhece? — e acabei de fazer quarenta e dois anos, uma etapa complicada. Você é jovem, mas nem tanto, ainda não é velha, mas já é um pouquinho, nem uma coisa nem outra, transição de uma coisa para a outra, começo de decadência. Às vezes me dá vontade de já ter envelhecido, de ser uma anciã que já resolveu todas as suas expectativas.”

– Trecho de “Dez mulheres”

Para alguns críticos que costumam escrever que ela escreve para as mulheres, Marcela diz que classificar a literatura dessa forma é um sexismo feroz. Dar menos importância a determinado livro porque são reflexões de uma personagem mulher e escritas por uma mulher é fazer a literatura ficar amarrada a estereótipos estúpidos; a literatura deve sempre ter o papel de abrir horizontes e de quebrar paradigmas.

O acaso me apresentou a literatura de Marcela, não foi uma indicação, não foi por pesquisa. Em uma tarde, entre prateleiras empoeiradas de um sebo, eu encontrei “Nós que nos amávamos tanto”e, após ler a resenha e me apaixonar pelo título, eu o levei para casa. Foi seu primeiro livro, e com ele ela ganhou importantes prêmios no Chile. É a historia do reencontro de quatro amigas que se juntam para falar sobre os acontecimentos da vida, sobre o fim dos ideais socialistas, a formação da própria família e os infortúnios pelos quais cada uma passou.

“A culpa foi minha. É por isso que eu fechei o capítulo do casamento. Porque, se eu me apaixono, eu perco toda a minha dignidade. Porque eu sou um ser humano e sou capaz de viver o que vivi como uma opção. Eu me envergonho da Sara daquele tempo porque, se aconteceu o que me aconteceu, foi porque eu permiti.”

– Trecho de “Nós que nos amávamos tanto”

Com certeza as novelas de Marcela dão voz ao feminino, mas isso passa longe de ser rotulado como livros para mulheres. É como a própria autora falou em uma entrevista: “E como a história da literatura está tomada por vozes masculinas, não vejo onde está o pecado de eu não fazer o mesmo”.

Outros livros da autora que estão em língua portuguesa:

Nossa senhora da solidão

Doce inimiga minha

O albergue das mulheres tristes

Juliana Lacerda
Juliana Lacerda
Estudante da área de tecnologia, superando a crise dos 30 e sempre correndo atrás dos sonhos. Apaixonada por livros, músicas, filmes, viagens e sensações. Acho que a vida vale muito mais a pena quando conseguimos seguir todas as direções que nosso coração aponta. É editora do site www.sembussola.com.br

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