JULIANA JARDIM – Diretora Colaboradora do espetáculo BISPO

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JULIANA JARDIM – Diretora Colaboradora do espetáculo BISPO

JULIANA JARDIM FALA SOBRE OS DESAFIOS NA CONSTRUÇÃO DE UM “ARTHUR [BISPO DO ROSÁRIO] QUE É DE MUITA GENTE”.

A professora, atriz e consultora de teatro, Juliana Jardim é colaboradora na preparação de elenco e direção do espetáculo Bispo. Pós doutora pela Faculdade de Educação da USP, Juliana acompanhou alguns ensaios da montagem com a também colaboradora de direção, Cristina Moura, para contribuir na elaboração das cenas. Ao Blog do Coletivo Bispo, ela contou sobre os desafios de ser “o terceiro olho junto com o ator” e da multiplicidade contida na montagem do personagem Arthur Bispo do Rosário. Confira a entrevista:

Blog do Coletivo Bispo: Qual a sua colaboração para o espetáculo Bispo?

Juliana Jardim: Fiz um trabalho com João Miguel que poderia ser especificado como trabalho de ator na relação com a encenação. Como o trabalho é dirigido pelo próprio João, e as relações entre todas as linguagens e todos os elementos da cena, estão mediadas por ele, com o desafio de ter de dirigir o olhar do espectador, sendo ator de um solo teatral. Entendo que, apesar de ser um ator de longa trajetória, essa deve ser uma as razões pelas quais João quis ter parcerias na direção dele em cena, digo, no olhar para o ator em cena. Eu também já fiz um solo teatral. Faço trabalhos autorais há muitos anos, como atriz, como proponente de projetos, como diretora ou preparadora de atores. O ator e as relações entre corpo e palavra vêm sendo meu foco. Ser o terceiro olho junto com o ator, ao lado dele, não é um exercício simples.

Blog do Coletivo Bispo: Como é partilhar essa função em um âmbito de coletivo?

Juliana Jardim: É complexo no sentido bonito dessa palavra, daquilo que é tramado junto, tecido junto. Estar junto sem querer (im)por as suas vontades, dirigir o seu trabalho é um exercício encantador para a pessoa. Pois diz respeito a se submeter, também no sentido bonito da palavra, ao direcionamento do outro, ao que o outro quer. É sempre um teste, um ensaio, tentativa e erro. Vamos por ali? Eu vejo isso, você topa experimentar por aqui? Se o outro topa, vamos juntos. Se não topa, abrimos mão, deixamos de lado. No Bispo, com João, estamos buscando mais silêncio, mais conexão entre todo o campo de palavras e corpos, que João Miguel mescla nesse texto. Não é um Arthur que está em cena, digo, um Arthur de João Miguel, recortado, visto, mirado pelo ator, pelo autor. É um Arthur de muita gente, junto a muitas outras fontes, eleitas pelo João, para estarem ali, postas em conversa, gerando a cena. Há falas de outras pessoas, há textos nascidos de improvisações prévias e textos que podem surgir na hora, em relação com o presente de cada apresentação, de cada encontro com o público. Estamos tentando cuidar também de tudo aquilo que é a vida do ator, passando em jogo de cena, diante e junto do público. Tudo é passagem, e passagem é também um tema eixo em Bispo, na vida e na obra desse homem, uma obra que era a própria vida. Vamos abrindo temas e trabalhando. É desafiador demais para o ator, ser o entre (substantivo) num coletivo como esse que João Miguel propôs a esse bando de gente. Meu olhar vem buscando preservar o ator da mecânica da produção, para que ao entrar em cena, ele cuide somente das relações presentes. Sem passado, sem futuro. É uma maluquice fazer teatro. Mas é isso mesmo. É aqui. Agora. Nada que não foi feito, que não deu certo, será material para uma discussão pública. Interessa o jogo, a trajetória da brincadeira, de jogar com seu Arthur, consigo mesmo e com o público, na relação com os elementos todos da cena, a plasticidade em jogo, proposta por todos os integrantes desse coletivo.

“Não se lida aqui com biografar Bispo, nem com narrar um fato de sua vida, nem com exemplificar obras. É um salto ficcional com a matéria Bispo, com um ‘estar-perto-de-Bispo’”.

Blog do Coletivo Bispo: Antes do convite para participar do espetáculo já tinha conhecimento da obra do artista plástico Arthur Bispo do Rosário?

Juliana Jardim: Sim, claro. Antes de ver o Bispo de João Miguel e Edgar Navarro em 2002, já conhecia o artista, obviamente. Muita gente divulga e estuda Bispo há muito tempo. Bispo é muito conhecido e cheio de referências. Na Mostra do Redescobrimento em São Paulo no ano de 2000, por exemplo, houve um espaço dedicado totalmente a ele. Mas aqui, nesse trabalho, interessa um Bispo, um Arthur, esse que é posto em cena por esse coletivo. Não se lida aqui com biografar Bispo, nem com narrar um fato de sua vida, nem com exemplificar obras. É um salto ficcional com a matéria Bispo, com um “estar-perto-de-Bispo”, para se compor outras coisas, entre as pessoas, sendo atravessadas por essa matéria. É como tenho entendido esse trabalho.

Blog do Coletivo Bispo: Já trabalhou com João Miguel ou outras pessoas da equipe em outras ocasiões?

Juliana Jardim: Sim, trabalhei com João. Nosso trabalho se mistura às nossas vidas. Fizemos workshops transformadores juntos, como alunos-atores. Conhecemo-nos num retiro de palhaço, que durou 10 dias em 1996. Daí muitas outras experiências surgiram, e um encontro bastante decisivo deu-se em uma viagem a dois países africanos, em 2003/04, a convite do griot (contador de histórias) e ator Sotigui Kouyaté, com quem mantive uma aliança de 8 anos. Ensaiamos criar cena juntos, João e eu, em 2002/03, mas não conseguimos prosseguir, pois vivíamos em cidades distintas e tínhamos outros trabalhos. E realizamos dois trabalhos bastante intensos, dando aula juntos, quando co-dirigimos e preparamos um elenco infantil para uma pocket-ópera, dirigido por Luiz Carlos Vasconcelos, em 2003, em São Paulo e seguimos dando aula em um curso de teatro para adolescentes durante três meses. Ambos os projetos aconteceram no Sesc Ipiranga em São Paulo, onde vivo.

JULIANA JARDIM – COLABORADORA – PREPARADORA DE ATORES

Professora, pesquisadora e atriz, idealizou o projeto teatral Ensaios ignorantes, que tem como eixo o par Joseph Jacotot/Jacques Rancière e princípios ensaísticos do par Michel de Montaigne/Agnès Varda, dentro do qual realiza, com parceiros em núcleo homônimo, desde 2011, ensaios privados e públicos ao redor de matrizes literárias de texturas distintas. Ensaios ignorantes foram contemplados na 28ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, em maio de 2016.

Pós doutora pela Faculdade de Educação da USP com a pesquisa, entre teatro e educação, Ensaio, ignorância, desobramento (desoeuvrement): um espaço intervalar entre a aula e a cena, desenvolvida entre 2013 e 2016, e supervisionada pelo Prof. Julio Groppa. Realiza, no ano 2014, estágio de Pós doutorado na Universidade Complutense de Madri, na Espanha, com a investigação Paisagens errantes entre a aula e a cena: Incendios e Fernand Deligny como parte da pesquisa do Brasil, porém supervisionada pelo Prof. Fernando Bárcena. Mestre em teatro pela ECA-USP (2001) com a pesquisa O ator transparente: treinamento contemporâneo com as máscaras do Palhaço e do Bufão e a experiência de um espetáculo, Madrugada.

Co-diretora artística dos projetos Território Cultural (RJ) e a CASA no Escolas de Paz (Unesco, RJ), que realizam, ambos, ocupação em comunidades e escolas, com espetáculos de teatro, música, circo, e oficinas. Orientadora artística e parceria em diversas realizações dos grupos Diadokai, Pedras, Teatro de Anônimo, no RJ; no Rio de Janeiro e em São Paulo trabalha como orientadora artística, preparadora de atores, coordena workshops para diversos grupos, sendo que os mais recentes foram Coletivo Bonobando (RJ, 2016); Poleiro do Bando (SP, Prêmio Zé Renato, 2016); Banda Mirim (SP, 2016); As cafuzas (SP, 2016); Roda Gigante (RJ, 2012/3). Orientadora artística do grupo Jogando no quintal em 2006 e 2007.

Assessora de Imprensa: Vanessa Pinheiro Fontes

BISPO. Sesc Bom Retiro. Alameda Nothmann, 185. Tel.: 3332-3600. 6ª, sáb., 21h, dom., 18h. R$ 30 / R$ 15. Estreia 17.03.  Até 23/4.

 

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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