In Cômodos – Grupo XIX de Teatro

Artista Visual – Thaís Bambozzi
agosto 11, 2017
Claudia Canto – Escritora
agosto 22, 2017
Ver tudo

In Cômodos – Grupo XIX de Teatro

O Grupo XIX de Teatro, nascido na efervescência do movimento dos teatros de grupo de São Paulo, realiza, desde 2001, um trabalho contínuo. Com suas primeiras peças Hysteria, Hygiene e Arrufos, o grupo consolidou a perspectiva de um trabalho colaborativo tendo como eixos de criação, pesquisas temáticas e o desenvolvimento de uma dramaturgia própria, a intervenção e exploração de prédios históricos como espaço cênico e a interatividade como elementos narrativos fundamentais da dramaturgia.

Como importante eixo de trabalho, o grupo desenvolve o projeto do Núcleo de Pesquisas, oficinas de longa duração orientadas pelos integrantes do grupo que desenvolvem pesquisas próprias que são partilhadas e aprofundadas por jovens artistas em busca de espaços de troca e desenvolvimento artístico. Como resultado dessas oficinas, são apresentados gratuitamente ao público exercícios cênicos dentro da Mostra do Núcleo de Pesquisas.

“In Cômodos” é um dos resultados do Núcleo de Pesquisas desse ano. Com um elenco composto apenas por mulheres, “In Cômodos”, dirigido por Juliana Sanches e com a assistência de direção de Evelyn Klein, é alimentado por obras de Virginia Woolf, Clarice Lispector, Susan Sontag e por escritos das próprias atrizes criadoras, como a atriz e escritora Lidi Seabra que colaborou com três textos de sua autoria e do seu projeto Insinua.

O experimento apresenta uma casa e suas moradoras. As paredes que limitam o espaço, o chão que as suporta e acolhe, as divisões que são impostas as mulheres e a busca constante de todas nós em ser, só ser.


Foto de Marilia Apolonio

Em entrevista exclusiva, a diretora Juliana Sanches e as atrizes Lidi Seabra e Rita Damasceno contam um pouco sobre o processo.

  1. Conte um pouco a trajetória do Grupo XIX e a relação das pesquisas e trabalho do grupo com o feminismo

Juliana Sanches: O grupo surge em 2001 com o espetáculo Hysteria que se passa num asilo psiquiátrico feminino no Brasil de 1897, sendo que as espectadoras se juntam às atrizes numa conversa que fricciona a condição feminina daquela época com a atual. Depois desse espetáculo, seguimos uma trajetória sem a preocupação específica com o feminismo, mas que passa por essa questão na medida das nossas próprias inquietações.

  1. Qual o tema principal e os subtemas que permeiam o experimento?

Juliana Sanches: Esse experimento foi proposto por mim, na intenção de investigar e dar vozes a esse nó que sinto e sei que todas sentem, nessa dúvida constante do que em mim é natural e do que é construído e abafado por uma cultura ancestral, que confunde e que sufoca.


Foto de Marilia Apolonio

 

  1. Dificilmente encontramos elenco e equipe formados unicamente por mulheres, como foi esse processo e essa troca para vocês?

Lidi Seabra – Estar apenas entre mulheres é muito acolhedor, a energia muda.  Essa é minha segunda experiência num elenco feminino abordando temas que nos envolve, acaba sendo uma busca de autoconhecimento e de partilha. É como uma cura, como jogar num caldeirão nossas descobertas, medos, angústias, alegrias e transformar isso tudo em magia e arte. A sensação de estar num coro de mulheres e poder ter voz, levando ao teatro as nossas trocas é algo inexplicável… Eu sempre saio do ensaio com muita energia e fico reverberando as palavras de cada uma delas. Somos mais de 20 mulheres nesse experimento, somos várias, somos todas, uma só força, cada personagem, cada cômodo, cada dor que habita em ser.

Juliana Sanches: Foi extremamente solar. Um encontro muito potente de vinte e seis mulheres, que dificilmente conseguiria explicar. Mas acredito que alimentou, instigou, e realmente nos interessa. Acredito também que muitas dessas artistas encontraram parceiras de pesquisa e arte para continuar na luta.

  1. Como foi trazer textos pessoais e suas próprias vivências para esse processo?

Rita Damasceno – É muito significante e rico esse processo, estar entre tantas mulheres, cada uma com sua personalidade, com seus cômodos e “In Cômodos”, fazem a riqueza desse experimento. A Juliana Sanches, como uma grande mestra, e a Evelyn foram de uma sutileza e uma maestria absurda. É unânime que nós, fêmeas, fomos mudando a cada encontro, vinte e seis mulheres em uma energia rica e singular!

Lidi Seabra – Desde o início o processo foi muito íntimo, desde a carta de interesse que escrevi até a entrevista de seleção das participantes que foi repleta de depoimentos, choros e emoções. Há dois anos tenho um projeto sobre o feminino, durante o processo fui levando alguns textos desse projeto e me descobri ainda mais nesse lugar da escrita, além disso, foi extremamente enriquecedor ter a liberdade de propor textos e vê-los tomando forma na boca de outras atrizes. Algumas levaram textos de escritoras como Clarissa Pinkola Estés, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Sarah Kane; isso juntamente com as provocações da diretora e as partilhas de experiências entre as atrizes para a construção das cenas trouxe ainda mais força ao grupo.

  1. Vocês acreditam, como mulheres, atrizes e criadoras, que está acontecendo um real movimento de empoderamento feminino, combate a misoginia e mudança de padrões impostos a nós, mulheres?

Juliana Sanches – Acho que estamos vivenciando um processo forte, que só entenderemos daqui um tempo. Temos muitas iniciativas significativas hoje, mas a tomada de consciência, pegar nas nossas mãos, esse trabalho de formiguinha que é mudar nossa visão e ação, nesse momento é fundamental, e acredito que é o que estamos fazendo, ou tentando muito sinceramente fazer.

In Cômodos_Mostra Núcleos de Pesquisa do Grupo XIX de Teatro 2017_Foto Jonatas Marques_52

Mostra Núcleo de Pesquisas 2017 Grupo XIX – INCÔMODOS

26 e 27 de agosto/ 02 e 03 de setembro
Entrada Gratuita

Artistas Criadoras: Bruna Iksalara, Camila Ferreira, Carol Andrade, Carol Gierwiatowski, Carol Vidotti, Carol Pitzer, Carolina Catelan, Caru Ramos, Elisete Santos, Ericka Leal, Gabi Gomes, Gabriela Segato,  Giovana Siqueira, Ju Terra, Lidi Seabra, Natália Martins, Natasha Sonna, Patrícia Faria, Rita Damasceno, Samara Lacerda, Thaís Peixoto, Victoria Moliterno, Vivian Valente.
Direção: Juliana Sanches
Assistência de Direção: Evelyn Klein
Colaborado do processo: Lucimar de Santana

Grupo XIX de Teatro
Rua Mário Costa, 13 Vila Maria Zélia – Belém – São Paulo SP
faleconosco@grupoxix.com.br

Debora Delta
Debora Delta
Sou atriz, apresentadora e escritora. Em meu blog “Muito Além Do Óbvio” para a Revista Obvious escrevo entre outros temas, sobre o papel da mulher e sua importância na sociedade. No meu canal no Youtube “Flamingas”, debatemos sobre questões feministas. Discutir sobre a representatividade das mulheres na arte é algo empoderador em diversos sentidos, acredito que a partir da história de mulheres artistas podemos resignificar o nosso lugar no mundo, por isso é um prazer poder colaborar para o Las Abuelitas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *