Histórias Curativas – Empoderamento Feminino

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Histórias Curativas – Empoderamento Feminino

 

Encontrar o seu lugar no mundo, redescobrir a sua força, os seus dons, amar o melhor e o pior em si mesma, se redescobrir como mulher, como artista, se empoderar. Abordar questões tão importantes e essenciais na busca do autoconhecimento e no fortalecimento do amor próprio. É isso o que a atriz e contadora de histórias Marianna Portela busca por meio do Projeto de Histórias Curativas. Nos encontros com outras mulheres, as participantes do projeto podem vivenciar, juntamente com a contação de histórias, momentos transformadores de partilhas em roda e atividades de arteterapia.

Além de estimular a criatividade e ajudar a colocar novos projetos e sonhos em prática, esses encontros também levam as participantes a descobrirem a importância da sororidade e a riqueza de compartilhar seus momentos, questões e reflexões com outras mulheres.

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Saiba mais sobre o projeto e sobre a sua criadora neste bate-papo:

Como surgiu a ideia do trabalho com as Histórias Curativa   s e especificamente com as mulheres?

Comecei meu trabalho como contadora de histórias com crianças. Depois de algum tempo, mesmo gostando, senti que meu caminho era outro. Eu gostava mais de contar para as mães do que para as crianças. Meu olho brilha sempre que a questão é o trabalho com as mulheres e o feminino. Participo há sete anos de um grupo de ajuda mútua entre mulheres, e foi nele que aprendi sobre sororidade, sobre partilhar, sobre feminismo. Me descobri querendo ouvir as histórias das mulheres e propiciar um ambiente seguro de partilha e apoio. Foi natural o nome Histórias Curativas surgir depois de um tempo, pois as histórias que eu conto e as histórias que as mulheres contam são como verdadeiros bálsamos.

Quais são os principais temas abordados nos encontros?

São temas que acredito serem relevantes para a discussão entre mulheres, muitas vezes assuntos que normalmente não conversamos, nem com amigas. Falamos sobre a vida criativa que às vezes se estagna, sobre ser mãe de si mesma, sobre possíveis dependências emocionais, afetivas e físicas, sobre raiva, perdão, pertencimento, predadores internos (pensamentos nocivos), venenos interiores e anseios. Tudo com bastante acolhimento, sem julgamentos, com partilhas muito sensíveis, às vezes chorando e sempre com risada permeando tudo.

De que forma esses temas são trabalhados?

Sempre inicio o encontro com cada uma se apresentando e falando de sua ancestralidade feminina: o nome das mulheres de sua família. Depois, conto uma história que trará os temas abordados no dia. Então, cada uma partilha suas impressões, a roda se forma e acontece algo muito transformador: cada uma começa a falar verdadeiramente de si. Junto a isso, realizo algumas atividades de arteterapia, sempre de acordo com a temática escolhida para o encontro especificamente.

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Qual a sua referência bibliográfica? Você tem algum livro guia? Se sim, por que essa escolha?

Nessa primeira fase do projeto (que tem pouco mais de um ano), foi natural a escolha do livro “Mulheres que correm com os lobos”, um livro que as mulheres da minha família sempre tiveram em suas cabeceiras. Conto as histórias contidas nele e ele também é quase um guia de vida para mim. Este é um momento em que uma nova geração de mulheres começou a ler esse livro (que tem quase 15 anos), então ele veio com essa força. Fora ele, estudo muitas questões do feminino numa visão quase sempre jungiana, da psicologia analítica, além de aprofundar meu conhecimento em contação de histórias com uma diversidade de contos de fada, mitos e fábulas.

Como o feminismo surgiu na sua vida e qual a importância dele no seu trabalho?

O feminismo surgiu com esse nome na minha vida bastante tarde, quando eu tinha 24 anos, uns seis anos atrás. Comecei a perceber que no grupo de ajuda mútua de que eu participava as questões eram sempre as mesmas entre mulheres totalmente diferentes. Comecei a ler muitos blogs feministas e literatura, começando com Simone de Beauvoir e Naomi Wolff. Fui aprendendo a me desconstruir, e continuo aprendendo. Me envolvi em grupos de discussão na internet e em rodas de conversa em coletivos e ONGs. A importância disso tudo para mim foi de entender que o feminismo é libertador, pois me dá condições para que eu possa simplesmente ser, que eu possa existir, sem padrões. Que ser mulher é algo construído. Que a luta por ser mulher é mais árdua, mas que não estou sozinha. E a ideia do meu trabalho é reunir mulheres umas com as outras para que verdadeiramente não fiquemos sozinhas em nossas questões, que possamos ouvir umas às outras e com isso entender melhor a nós mesmas e talvez mudar a nossa condição no mundo, uma a uma.

Como você lida com as questões intimas e às vezes dolorosas das participantes?

Com empatia. Acho que essa é a palavra-chave, apesar de parecer meio clichê nos dias de hoje. Mas acredito que temos cada vez menos empatia com as questões humanas, e a mulher encontra uma sociedade totalmente não receptiva para ela todos os dias. A mulher negra mais ainda. Então é ouvir, compreender, apoiar e abraçar. Fazer um círculo seguro. Mesmo quando o encontro acaba, continuo disponível para conversar, repensar alguma questão que possa aparecer. Como eu não sou psicóloga, quando é necessário sempre tenho boas referências de profissionais nesse campo ou para outros tipos de terapia.

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Para mulheres artistas, como você acha que os encontros podem ser benéficos? E como pode ajudá-las a desenvolverem ou aprimorarem seus talentos?

Acho que são especialmente benéficos. Na realidade, eu acredito que todo ser humano é artista, por isso faço tantas atividades voltadas para a arte em si. Mas, para aquelas que vivem da arte e que precisam da criatividade especificamente para artes plásticas, audiovisuais, cênicas ou literatura, os encontros falam de um lugar de alma, um lugar de observar entraves internos e solucionar bloqueios. O objetivo é empoderar a mulher para que ela pegue a caneta, ela dance, ela ative seu corpo e parta para a ação.

Eu já pude participar de alguns encontros e cada vez descubro mais sobre mim e me sinto mais capaz e empoderada como mulher e artista. Qual a sensação quando tantas mulheres voltam aos encontros e lhe dão retornos positivos?

A sensação é de missão cumprida, de que estou fazendo algo verdadeiro e bom. É um sentimento de que finalmente estou no lugar certo, fazendo aquilo que vim para fazer, e foi um longo e árduo caminho para eu encontrar comigo nessa parte da jornada. A cada mulher que me manda uma mensagem dizendo que está realizando algo que não fazia antes, que terminou um relacionamento não sadio, que largou o emprego que massacrava sua criatividade, que tirou um projeto da gaveta, que voltou a dançar, ou que está simplesmente mais feliz, meu coração salta! Quando a pessoa volta e participa de mais e mais encontros, me sinto totalmente realizada. O Carlos Castañeda tem um texto que fala que todos têm de se perguntar: “este caminho tem coração?”. E hoje, com esse projeto, eu posso finalmente responder que, sim, este caminho tem coração.

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www.historiascurativas.com

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Instagram: @historiascurativas

E-mail: contato@historiascurativas.com

 

 

Debora Delta
Debora Delta
Sou atriz, apresentadora e escritora. Em meu blog “Muito Além Do Óbvio” para a Revista Obvious escrevo entre outros temas, sobre o papel da mulher e sua importância na sociedade. No meu canal no Youtube “Flamingas”, debatemos sobre questões feministas. Discutir sobre a representatividade das mulheres na arte é algo empoderador em diversos sentidos, acredito que a partir da história de mulheres artistas podemos resignificar o nosso lugar no mundo, por isso é um prazer poder colaborar para o Las Abuelitas.

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