O Guerrilla Girls é um coletivo feminista anônimo criado em Nova York, em 1985, com o objetivo de combater a misoginia no mundo da arte. Seus trabalhos se baseiam na sátira para criar uma performance política com propósitos feministas, criando intervenções que discutem o espaço da mulher como criadora dentro da indústria cultural.

Elas se definem como “vingadoras mascaradas criadas na tradição dos benfeitores anônimos, como Robin Hood, Mulher Maravilha e Batman”. Em seu site, elas perguntam: “Como nós podemos expor sexismo, racismo e corrupção na política, na arte, nos filmes e na cultura pop? Com fatos, humor e um visual ultrajante. Nós revelamos a história por debaixo da história, o subtexto, as entrelinhas, e o que é completamente injusto”.

Todo o processo é inteiramente anônimo. O grupo adota táticas de guerrilha usando uma máscara de gorila e usando como codinome o nome de grandes mulheres do mundo da arte, como Frida Kahlo ou Gertrude Stein. A máscara tem dupla função: evitar retaliação pelos atos e, ao mesmo tempo, ser um instrumento de satirização da representação da mulher como objeto sexual. Assim, elas dissociam as ações das Guerrila Girls de suas próprias personalidades e trabalhos artísticos, permitindo que o público foque somente na mensagem.

Em uma de suas obras mais famosas, as ativistas fizeram um levantamento sobre a representatividade e a representação de gênero nos artistas expositores e nas obras que contém nus do Metropolian Museum. Cruzando os dados, a conclusão foi de que menos de 3% das artistas em exposição eram mulheres, enquanto 83% dos nus eram femininos. Esse dado levantou um questionamento sobre o espaço dado para mulheres como objeto da arte e o espaço dado para as mulheres artistas, ou seja: as mulheres precisam estar peladas para entrarem no Met. Museum?

Do Women Have to Be Naked, Guerrilla Girls. Poster. Nova York, Estados Unidos da América. 1989.

As ativistas desenvolveram um pôster com esse questionamento e fizeram circular pela cidade na traseira de ônibus e em outdoors, como se fosse uma peça publicitária. As estatísticas vinham acompanhadas de uma releitura de um clássico da representação feminina idealizada na História da Arte: a Odalisca de Ingres.

Na tela a óleo de 1814, o pintor prolongou deliberadamente as linhas da modelo para acentuar características da imagem feminina dentro do paradigma estabelecido de objeto contemplativo e sensual, sublinhando o estereótipo da mulher bonita e vulnerável, cujo objetivo na vida é ser sexualmente desejada. A substituição da cabeça idealizada e delicada pela grosseira e agressiva cabeça de gorila satiriza esta concepção da mulher como objeto de contemplação, reiterando a reflexão sobre os estereótipos de gênero, os espaços reservados para a produção feminina e a representação da mulher nas artes.

De acordo com a Forbes Business News, 61,4% dos graduados em Visual and Performance Studies nos EUA em 2013 eram mulheres. Ou seja, há muitas mulheres capacitadas para o trabalho no campo das Artes Visuais; no entanto, ainda existe uma enorme disparidade entre o espaço ocupado por artistas homens e artistas mulheres nos museus e galerias. Ao constatarem que a exposição “Dionisíaca”, realizada em 2005 no Centro Pompidou, não trazia nenhuma artista mulher, as Guerrilla Girls conduziram uma pesquisa nas coleções europeias e descobriram que muitos museus possuíam uma quantidade significante de obras de artistas mulheres, mas todas em estoque. O Museo Correr, por exemplo, possui em sua coleção de arte e história veneziana cerca de 15 peças feitas por mulheres – mas não exibe nenhuma. (Sobre mulheres artistas na Europa pré-moderna, veja o texto que eu já publiquei aqui sobre a Artemísia Gentileschi)

Existem mulheres que conseguiram construir uma carreira nas artes e ocupam hoje posições de destaque em museus renomados. Contudo, elas reconhecem que existem agravantes que dificultam a trajetória de uma mulher no mercado da arte. Em nome da Whitechapel Gallery, Iwona Blazwick afirma que todos os artistas passam por um período difícil após se graduarem, mas as mulheres em especial têm de lidar com pressões financeiras e compromissos familiares; desse modo, um número excessivo de artistas mulheres acaba por desistir da carreira. Frances Morris, curadora da Tate Modern, afirma que a discrepância entre os números de homens e mulheres em instituições culturais é um assunto muito importante, que deve continuar sendo levantado e revelado para o público.

Saiba mais em: http://www.guerrillagirls.com

Lidia Ganhito
Lidia Ganhito
Gosta&pesquisa&faz: artes visuais, cinema, ilustração, design, mobilidade, corpo, sexualidade, feminismos, do-it-yourself! Vai escrever aqui sobre artistas mulheres e mulheres artistas.

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