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Entrevista – Renata Andrade – Atriz e Artista Plástica

Eu conheci a Renata por conta de uma paixão em comum: a artista francesa Camille Claudel! Quando comecei com o Las Abuelitas, a Rê estava na lista porque ela é múltipla: é atriz, é cenógrafa, é artista plástica….uma artista apaixonada pelo que faz!

Conta um pouco de você: porque artista?

Na verdade meu sonho de criança era ser cientista. Sempre me encantei por descobrir e experimentar. O contato com o teatro aconteceu por volta dos 8 anos, mas até então era brincadeira. A história ganhou peso quando comecei a estudar técnico de contabilidade e fugia das ultimas aulas para fazer um curso de teatro “Iniciação ao ator” com o diretor e ator Walter Portella. Dessa forma descobri o teatro, que é viciante.

Paralelo a isso sempre desenhei e tive habilidades manuais adquiridas através da minha mãe Rosa Maria que é extremamente criativa.

Isso me levou a criar cenários e figurinos das peças onde eu atuava. Vendo isso resolvi estudar artes visuais.

Hoje trabalho a mais de 10 anos na Cia Noz de teatro onde atuo como atriz e cenógrafa além de ter meu trabalho individual de escultora e performer.

Como artista visual também tive a sorte de encontrar um amigo e mentor Gilberto Habib, curador de arte. Ele sempre que pode, toma um café comigo, me instrui, me questiona, me tira do lugar comum e no fim me apoia. Isso é de grande valia pra mim, como artista e como pessoa. Cresci muito com esse relacionamento.

Finalmente, descobri conversando com outro amigo que é pesquisador de arte Denis Molino (curador do Masp)  que sou cientista, não da forma clichê do laboratório, mas da sala de ensaio e do ateliê. Meu sonho foi realizado.

Primeiro vieram as artes cênicas ou as plásticas?

O teatro apareceu, de uma maneira “formal”, antes das artes plásticas. O trabalho plástico sempre esteve presente, mas eu não percebia.

Quais as dificuldades que você encontra nessas áreas?

Todas as dificuldades (risos)

É um processo, uma ciência que não tem exatidão.

Nessas áreas não basta você ser bom no que faz, tem que saber um pouco de produção ou achar pessoas que trabalhe em conjunto com você.

É um trabalho vinculado ao lazer e por isso é difícil para as pessoas encararem como trabalho.

A arte por estar associada ao descanso é colocada em um plano supérfluo e quando há cortes financeiros é a primeira a sofrer.

Você se dedica exclusivamente a área artística?

Sim, eu trabalho somente com arte. O que dá uma inquietude porque sempre temos que estar pensando no futuro. Como viabilizar um próximo projeto… Neste caso é muito bom quando tenho um produtor do lado, dessa forma não disperso tanta energia e me concentro na área artística.

Teatro O sonho de Maria Luisa

Como está o mercado para quem quer seguir carreira nas artes plásticas? Como começar?

A área é muito ampla, existem vários mercados em artes plásticas. Agora se o foco for o mercado de arte, é mais difícil. Há muita concorrência, muitos artistas bons. É necessário além de ser bom na sua pratica, ser autentico e ligado a uma reflexão do agora. E paralelo a isso ter uma boa divulgação, participar de salões… Dessa forma o mercado vai se abrindo para o novo artista.

E no teatro?

No teatro no meu caso atual é um pouco mais fácil. Como trabalho em uma Cia existe um suporte de produção que faz eu ter um pouco mais de tranquilidade. Dessa forma consigo me concentrar melhor na criação.

Por outro lado é mais frustrante e mais desgastante defender minhas ideias para o produtor, diretor e enfim a equipe de trabalho.

 Pra mim essa forma de trabalho é como se fosse um relacionamento é preciso muito dialogo aberto, dessa forma dá para se criar algo incrível em um processo colaborativo. Mas se não acontece o trabalho fica raso e só cumprir a função, não vira “Arte” na sua excelência.

Como você financia o seu trabalho?

O financiamento é através de editais, de vendas, palestras, cursos.

Que conselho você daria para quem está começando?

Fazer, fazer, fazer… Refletir sobre a produção e o fazer. Depois dessa fase, se já houver um embrião de satisfação pessoal, recolher a impressão estética do seu trabalho com os outros. O que as pessoas falam do seu trabalho é importante, mas é preciso passar por um filtro.  Muitas vezes faço uma obra para provocar e a pessoa diz “Eu não gosto”. Nessa hora fico muito contente. A expressão em conjunto com a frase faz eu ter a conclusão: “A obra é muito boa, tive o meu objetivo alcançado” As pessoas não sabem diferenciar o bonito do belo. O belo também é encontrado no feio, no trágico, no instintivo…

Outra dica é estudar, trabalhar ou se aproximar das pessoas que você admira. De uma forma que ainda não compreendo, você acaba adquirindo essas qualidades admiradas.

 E para quem está fora de São Paulo?

Não sei te dizer como é fora de São Paulo. Faço trabalho no interior que é  muito bem recebido, mas é temporário. Nunca vivi fora de São Paulo.

E fora do país também há espaço para palestras e cursos pela pouca experiência que tive na Argentina e na França, mas também foi temporário. Não sei quais são as possibilidades quando se habita o lugar.

Quem são suas referências nas duas áreas?

Tenho muitas referencias, mas não me fecho na área. Sou muito influencias por pessoas ou vivências próximas. Isso reflete diretamente no trabalho. Penso que quando se fala com propriedade a verdade do que se diz ganha força e atinge muito mais pessoas. Mas falando de artistas… o Portella e Gilberto já citados acima. Louise Bourgeois, Camille Claudel, Henrique de Oliveira, Israel Kislansky são alguns dos escultores. No teatro, Flavia Pucci, Denise Stoklos, Yoshi Oida… 

Você enfrentou ou enfrenta alguma dificuldade por ser mulher?

Muitas dificuldades.  Desde o tema que abordo,  passando por dificuldade de credibilidade e confiança até a negociação.  Nessa última tenho o apoio do meu marido  que  me ajuda muito.  Mas fico muito triste e tenho picos de revolta quando esbarro em questões como essas.  Sei que também tenho um agravante de parecer muito jovem… enfim somos vítimas e fazemos parte de uma cultura que de um lado cobra a “beleza e  a juventude” e do outro lado não da credibilidade…  enfim acho que os homens não passam por esses pequenos problemas e questões.  Eu que trabalho com o assunto e penso muito sobre,  me vejo as vezes como colaboradora…  é difícil de mudar.  Não é algo que se consegue fazer sozinha. Somos seres sociais e isso só vai se transformar significativamente no coletivo…  mas temos que continuar a pensar, a falar e discutir o assunto para que mais pessoas ganhem uma nova visão sobre o papel da mulher na sociedade e se esse papel é justo. Não sou feminista porque acho que essa palavra ganhou um rótulo como contra o homem.  Compartilho de ideias feministas porque é aonde discutem essas questões…  mas é assunto para ser discutido em todos os gêneros.

Se você quiser conhecer mais o trabalho da Renata é só acessar o site www.artesandrade.com e a página https://www.facebook.com/artistarenataandrade.

Obrigada Rê!!!

_MG_0162Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso trago no blog informações jurídicas, que estão envolvidas na atividade artística, além de informações de produção e gestão cultural. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

 

 

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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