Entrevista – Gabriela Cunha, Vidas Refugiadas

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Entrevista – Gabriela Cunha, Vidas Refugiadas

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Durante a minha pesquisa sobre mulheres refugiadas, entrei em contato com o projeto “Vidas Refugiadas”, idealizado pela advogada Gabriela Cunha Ferraz e pelo fotojornalista Victor Moriyama.

Com delicadeza, o projeto traz as mulheres refugiadas para o primeiro plano, já que, quando se fala do assunto refugiados, a perspectiva geral é a do homem. Clique aqui para conhecer melhor.

Recomendo uma visita minuciosa ao site do projeto, que conta com as histórias das mulheres retratadas, explicações sobre o refúgio no Brasil e uma rica lista de links para se aprofundar no assunto.

As fotos estão expostas na FNAC da Avenida Paulista, em São Paulo, durante todo o mês de março. É um projeto apaixonante!

Bati um papo, por e-mail, com a Gabriela, e compartilho aqui com vocês:

Como você começou o projeto Vidas Refugiadas?

Meu trabalho com refugiadas começou há cinco anos, mas o projeto Vidas Refugiadas surgiu em março de 2015. Conheci o trabalho do Victor por meio de uma outra proposta e percebi que ele tinha a sensibilidade que precisava para um projeto com refugiadas e solicitantes de refúgio no Brasil. Ele aceitou dividir esse desafio comigo e, hoje, um ano depois, fazemos nosso lançamento em São Paulo.

Qual a importância de dar voz às refugiadas?

É preciso sair do senso comum de que as refugiadas são apenas mulheres vulneráveis e que precisam de ajuda. Elas são muito mais do que isso e querem contar suas histórias. O refúgio é apenas uma fase da vida dessas mulheres, que já ultrapassaram grandes barreiras e venceram muitas batalhas. Hoje, elas assumem o centro e o comando de suas vidas. Isso é fundamental para provocar um maior empoderamento dessa mulher e ajudar no seu processo de integração em um país estrangeiro.

Quem são as mulheres refugiadas? Que características você encontra nesse grupo?

São mulheres com histórias muito fortes. Algumas delas tiveram a força necessária para romper com um determinismo regional e procurar um destino diferente para si. Outras, fugiram porque viram suas vidas e a vida de seus filhos ameaçadas. O que une todas elas é a necessidade de fugir, elas precisaram deixar seus países para poder reconstruir a vida, com dignidade, em outra localidade. São mulheres que chegam no Brasil extremamente abaladas e que precisam, sem dúvida, de um tempo para se reerguerem. Mas, ao mesmo tempo, são mulheres incríveis, que atravessaram oceanos e superaram barreiras para tentar sobreviver.

Fotos divulgação imprensa-8

Vivemos em uma sociedade patriarcal. Pela sua vivência no projeto “Vidas Refugiadas”, o que você poderia dizer sobre ser mulher e refugiada no Brasil?

As mulheres já são invisibilizadas no nosso país, e a mulher refugiada acaba “herdando” essa condição. É preciso deixar claro que quase 30% da população de refugiados é formada por mulheres e que elas precisam estar contempladas em políticas públicas de atenção específica. Desde 2015, presenciamos um aumento do número de solicitações de refúgio de mulheres que estão chegando ao País. Não podemos fechar os olhos para essa realidade. Essas mulheres chegam em condições precárias de saúde, algumas precisando de auxílio médico de emergência, outras gestantes, e muitas com filhos pequenos. Essas condições, inerentes à mulher, precisam estar refletidas nas ações políticas e nas políticas do nosso país.

Constantemente vejo na mídia notícias de hostilidade com os refugiados. Na sua opinião, por que os brasileiros têm tanta dificuldade de aceitar esse grupo?

Você falou em sociedade patriarcal, e isso é verdade. Mas o Brasil também é um país racista. Testemunhamos um racismo estrutural na nossa sociedade. Na minha opinião, esse é o primeiro entrave na aceitação de alguns refugiados. A integração dos sírios, por exemplo, acontece de forma menos dura do que a dos africanos. Não digo que isso aconteça de forma consciente em todo o mundo, mas entendo que é uma triste realidade e que precisamos enfrentá-la.

Qual a relação das mulheres refugiadas com a arte? Tem algo para destacar?

Uma das mulheres fotografadas para o projeto é artista. Ela é atriz e foi proibida de trabalhar pela família. Mais do que isso, para que parasse de se envolver com o mundo da arte, seu pai arranjou seu casamento com um homem idoso, do vilarejo onde vivia. Ela conseguiu fugir e hoje sonha em retomar suas atividades na arte. Ela quer publicar um livro de contos africanos para os pequenos refugiados que nasceram no Brasil e desconhecem a origem da sua cultura.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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