Entrevista – Carmen Magalhães e Gabi Cywinski

Empreendedorismo Cultural – Cinematerna
março 13, 2016
Salário Maternidade da Autônoma
março 17, 2016
Ver tudo

Entrevista – Carmen Magalhães e Gabi Cywinski

Para estreiar a cara nova do blog a entrevista foi em dose dupla: Carmen Magalhães e Gabi  Cywinski conversaram comigo sobre ser mãe e artista.

Agradeço a essas duas artistas que na correria do fim do ano separaram um tempo para o Las Abuelitas. Conversei com a Carmen via email e com a Gabi via Whatsapp. Adoro essa vida moderna!

A Carmen é uma artista visual de São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Neste link você pode conhecer mais sobre o trabalho dela: clique aqui!

A Gabi é atriz e youtuber! Ela tem um canal super legal o “Tiago e Gabi” e também um site! A Gabi ainda trabalha com dublagem e locução. Bora conhecer essas duas artistas?!

Gabi Cywinski e a filha Manu

Como foi a sua trajetória como artista?

Carmen: Trabalhei com joalheria. Gosto muito do processo de solda. Também já trabalhei com vidraria artesanal, em uma técnica chamada fusing, que consiste em juntar camadas de vidro sobrepostas e depois levar ao forno.

Também tive uma galeria de arte na cidade onde moro (São João da Boa Vista), onde além dos meus trabalhos, vendi obras de vários artistas da região e de São Paulo.

Atualmente, desenvolvo minha produção artística em pintura e fotografia. Participei de diversas exposições coletivas e individuais, entre elas,”Quiasma” (GLOC), “Forma e(m) Imagem” (I FESTimagem), “O Olhar é o nosso farol” (Ateliê Ângela Bonfante), “Foto Falada” (GLOC), Fenacordel (Memorial da América Latina) FreeArtFest (Galeria Mônica Filgueiras) e Mostra Imagem e Tradição (Livraria Cultura). Sou membro do Grupo de Estudos e Criação do GLOC e do projeto coletivo “Imagem e Tradição”, que propõe o diálogo entre os símbolos populares e a arte contemporânea.

Gabi: Desde pequena eu falava que queria ser atriz. Fui assistir saltimbancos com a escola, meu pai sempre colocava esse disco pra mim antes de dormir, quando fui ver a peça e vi que conhecia as músicas… eu queria fazer aquilo! A partir daí eu devia ter uns 6 ou 7 anos eu queria ser atriz. Meus pais não levaram muito a sério acharam que ia passar. Meu pai falava que quando eu fosse fazer faculdade eu podia escolher fazer teatro se eu quisesse. Na época da faculdade eu não tinha outra coisa para fazer eu só falava disso! Me formei na Universidade Anhembi Morumbi. Tentei dar aula mas sala de aula não é o lugar que eu gostava de estar. Prefiro a educação individual como eu uso com a minha filha. Terminando a faculdade fiz publicidade, vídeo interno para as empresas, mas meu foco sempre foi o teatro. Fiz muita peça comercial, tive um grupo de teatro onde a gente fazia nossas peças com leis de incentivo. Sai do palco quando descobri que tava grávida, ai as coisas mudaram. Teve época que eu tava em cartaz em 3 peças ao mesmo tempo de segunda a segunda.

 Você se dedica exclusivamente a arte ou tem outro trabalho em paralelo?

Carmen: Hoje, exclusivamente, à arte. Fiz uma escolha coerente com os meus objetivos e propósitos e, mesmo diante da instabilidade financeira que acarreta, acho que está valendo a pena.

Gabi: Todos os meus trabalhos estão relacionados a minha profissão. Hoje eu consigo dividir o que é ser atriz e ser artista. Hoje meu eu artista está um pouco adormecido por conta da maternidade, é complicado levar os dois juntos. O meu “eu atriz” tem que funcionar porque eu tenho que ganhar dinheiro. Como atriz trabalho como dubladora, locutora, produtora, e youtuber, que agora ta começando a ficar bem legal. Foco nisso como atriz. Meu lado artista andou muito ligado ao meu lado atriz, principalmente quando eu fazia teatro com meu grupo, era peça própria , mas o artista tá em segundo plano para mim hoje.

Carmen Magalhães

Carmen Magalhães

Quantos filhos você tem? Qual a idade?

Carmen: Tenho dois filhos, o Miguel (34) e o Victor (29). Já sou avó também…tenho um netinho de 8 anos, o Bruno

Gabi: Tenha uma pequeninha, linda e maravilhosa de 2 anos e 3 meses!

 O que chegou antes a arte ou a maternidade?

Carmen: Bom, comecei muito cedo a me interessar por arte. Tocava piano e era apaixonada por desenho e poesia. A pintura veio um pouco mais tarde. No começo era só brincadeira de criança. Minha mãe desenhava os personagens da Disney no isopor e eu e minha irmã pintávamos pra colocar na parede do quarto. Eu também fazia roupinhas de boneca de papel e vendia… Eu me casei muito cedo e não achava que era possível viver de arte. Então, era um só um passatempo. Comecei a trabalhar com 16 anos e fiz várias coisas, mas com o tempo o que permaneceu e ficou mais forte foi a arte. Aí resolvi que não dava mais pra ser  só um passatempo e desde então vivo da arte.

Gabi: A arte 100%. Não me imaginava mãe na verdade. Eu não me programei para. Não fui aquelas mulheres que sonham em ser mãe desde que nasceu sabe? A vontade de ser mãe nasceu tarde na minha vida, eu tinha 31 anos de idade quando eu quis ser mãe. Bateu e a gente assumiu. É engraçado porque até 3 anos eu me guiava pela arte e hoje a maternidade ocupou 100 % do espaço do artista é engraçado isso…

Você sente dificuldade em ser mãe no meio artístico? Quais?

Carmen: De verdade nunca vi dificuldade em ser mãe no meio artístico, o problema maior é em conciliar tudo, filhos, casa, ateliê e etc.

Gabi: Muita dificuldade! É muito difícil conciliar, as pessoas querem exigir uma entrega…é engraçado o teatro exige uma entrega, uma prontidão que é contraditória a maternidade. Você tá ensaiando, seu filho fica doente você sai correndo, não tem jeito!! As pessoas do teatro não compreendem que tem coisas mais importantes. Muita gente me criticou porque eu desisti, mas vou dizer que tô mais feliz agora do que naquela correria insana de querer mostrar algo para alguém, to numa fase que a busca ta mais interna do que pro outro…acho que viajei qual foi a pergunta mesmo? Rs

Ah outra coisa é que te limitam também. Não te chamam mais para coisas que você fazia com tranquilidade. Você sabe que não vai se entregar e eles também sabem. E outra coisa: tem que valer muito a pena. Me chamaram para fazer uma peça e falaram “não vai ter dinheiro a gente vai estreiar e a gente vai tentar captar” eu disse “meu amor agora não tem mais isso, vocês querem me contratar para uma peça? quanto eu vou ganhar?”. Não tem mais vamos fazer na raça isso era uma coisa que eu fazia muito e hoje não posso mais fazer.

Você sentiu algum tipo de exclusão profissional após ter virado mãe?

Carmen:  Não, nunca.

Gabi: Sim! o meio do teatro por ser meio porra loca de noitada, de bebida… eu era inserida nisso, fazia parte! depois que eu virei mãe parece que ele santificam um pouco, eu deixei de ser a louca. Quer dizer mudei sim, mas tb sou a mesma pessoa. As pessoas se afastam mesmo e acaba mudando muita coisa. Mas, também se afastam, mas você conhece outras pessoas, que fazem parte desse novo mundo. Eu fui excluída e exclui também.

 O que você acha que falta para as mães artistas?

Carmen: Os filhos inspiram e nos ensinam o tempo todo, mas exigem muito cuidado e dedicação. E a arte também. Assim, é um equilíbrio delicado manter o lado profissional e o maternal satisfeitos e nutridos.

Gabi: Trabalho. Falta trabalho para as mães artistas. Trabalho com dinheiro mesmo, que a gente possa fazer e trazer pra casa, que a gente possa fazer sem culpa. Mas também acho que falta na área artística em geral, complicado…

Como você concilia sua carreira com a  maternidade? Tem ajuda?

Carmen: Tive alguma ajuda da minha mãe no cuidado com os meninos e de algumas fadas madrinhas que me auxiliavam com os serviços de casa. Sem elas, não teria conseguido.

Gabi: Tenho meu marido que me ajuda. Se eu tenho um teste para gravar ela tem que ficar com ele. Mas ele também é ator, fotógrafo, tudo o que eu faço ele faz também. Então tem dia que ela tem que ir comigo em teste, dublagem…por isso eu coloquei ela em uma escola, para eu poder fazer essa correria durante o dia e não arrastar ela junto. Complica, perde foco, você quer ir embora logo do teste, acaba não fazendo direito. Ele me ajuda muito, mas é aquela coisa: enquanto ela tava em casa, e agora nas férias ta acontecendo de novo, eu tenho que perguntar se eu posso sair pra trabalhar. Então é complicado, dependendo do trabalho não dá nem para aceitar.

Quais os planos para a carreira?

Carmen: Pretendo seguir estudando e ter uma galeria que me represente.

Gabi: Meu sonho de vida, meu objetivo é chegar a 500 mil inscritos no canal do youtube e a partir daí conseguir patrocínio para as minhas peças. Eu gosto de trabalhar com o que é meu, eu tenho um pouco essa megalomania, eu quero fazer tudo! Quero crescer no youtube para conseguir ter essa força no teatro.

O que você diria para uma jovem artista que deseja ser mãe ou que será mãe?

Carmen: Do ponto de vista das emoções e do autoconhecimento, a maternidade traz muitas revelações e um farto material para ser utilizado no trabalho autoral, que impulsiona muito o processo criativo. Como se trata de conciliar duas atividades estruturantes, é importante manter o foco e fazer um bom uso do tempo para que a energia não se dilua e possa ser utilizada da forma mais produtiva possível, sem neuras e sem culpa. 

Gabi: Que difícil essa pergunta! eu diria que o mundo dela vai mudar, que o mundo que ela conhece vai mudar completamente e que isso não é ruim! Vai abrir uma nova porta para a vida dela e que vai ser muito legal, se ela estiver disposta para a mudança, se ela não tiver medo da mudança.

"Aterrizo" - Carmen Magalhães

“Aterrizo” – Carmen Magalhães

Mais alguma consideração?

Carmen: A  paixão pela arte e a minha curiosidade me fazem sentir um frescor e um encantamento. Quando vejo alguma coisa nova que me surpreende, me vem uma sensação de identificação e uma crença muito forte de que vale a pena estar aqui.

Gosto muito dessa frase do Agnaldo Farias: “O mundo mora em nós e nós no mundo, e quanto mais repertório maior o mundo. Quanto mais sabemos do mundo o mundo sabe de nós”.

Nunca planejei nada, sou uma pessoa indisciplinada mas, ultimamente tenho tentado colocar horário pra trabalhar, planejar … Fico no ateliê lendo, pesquisando, assistindo vídeos de artistas que gosto,  vendo imagens e isso vai me inspirando. Tenho o caderno de criação, onde vou colando figuras que encontro em revistas, frases, palavras, ideias. Escrevo bastante também e isso tudo me ajuda no processo criativo.  Faço muita coisa ao mesmo tempo. Fico sempre com vários projetos em aberto e tenho muita dificuldade em finalizar.

Fico olhando pro meu trabalho e demora um tempo pra  conseguir me concentrar. Esse desocupar-se do mundo sempre funciona. É um exercício pra esquecer de tudo e poder entrar no mundo da solidão, do silêncio,  isso me faz bem, me equilibra e me organiza. Muitas vezes deixo a tela em um lugar de passagem e olho pra ela varias vezes por dia. Em outras vezes fico sentada olhando pro quadro tentando entender o que está me incomodando. Também acontece da tela ficar esquecida em algum lugar e aí do nada me lembro dela e retomo. Parece que tava lá no subconsciente a solução daquele problema.

Quando eu pinto eu não tenho uma ideia clara do resultado a não ser que seja uma encomenda ou um projeto. Eu penso bastante antes e geralmente não faço um esboço – é uma coisa bem intuitiva e visceral.

O que me instiga é a descoberta, a investigação de diferentes meios e linguagens. Acho que vou vivendo e encontrando coisas novas, informações, novos olhares e pessoas e vou acrescentando, compondo. Cada detalhe do dia a dia que me chama a atenção e me comove  é uma inspiração, uma frase, uma música, um gesto, um filme, uma rachadura na parede …

Fui mudando, amadurecendo,  antes não tinha uma disponibilidade pra arte ela ficava ali do lado, quietinha, mas pulsando. Hoje acredito mais nesse poder que ela tem….Aprendi que é nos erros que a gente vai se ajustando e que o erro faz parte do processo.

Gabi: A maternidade não é aquela maravilha 100 %, que vc acorda linda no comercial de margarina e todo mundo te beija! A maternidade é um trabalho diário e a arte até te prepara pra isso, ela ta sempre colocando seus sentimentos em xeque. Ser mãe e artista é poder usar o melhor dos dois mundos. Ver uma criança crescer, com as bases da arte, dos fundamentos do  teatro, ver ela crescendo tendo como base o espirito de grupo, entendendo o ouvir… é uma coisa incrível!!! Eu acho que isso pelo menos! O que to vivendo com a minha filha, é ver ela se transformando em uma pessoa que cada vez eu mais admiro e acho que a arte, a arte educação, me ajuda muito na educação da minha filha. Tudo o que estudei de arte eu to colocando em prática hoje na verdade. Porque ser atriz pra mim é outra coisa: é técnica, é dia a dia, é trabalho e tudo o mais é outra coisa! Agora… a arte… eu to me sentindo mais artista hoje, porque eu realmente tô usufruindo da arte para educar a minha filha.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *