Entrevista – Atriz e Diretora – Lena Roque

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Entrevista – Atriz e Diretora – Lena Roque

A entrevista deste mês é com a super Lena Roque. Já fui dirigida pela Lena, em 2008, e quando comecei o blog, o nome dela foi um dos primeiros na minha lista de entrevista.

Atriz, diretora, dramaturga, mulher, negra, artista!

O trabalho surge de uma necessidade, uma necessidade de falar, a gente quer falar e tem pouco espaço, então se a gente não fizer, não vai conseguir falar nada do que a gente quer!

Com vocês…Lena Roque!

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Sobre Lena Roque:
Aos 48 anos, a paulistana Lena Roque é uma atriz reconhecida pela versatilidade e veia cômica. Formada em Artes Cênicas pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), tem 30 anos de carreira, com trabalhos em cinema, teatro, teatro de máscaras (comédia dell’arte, clown), teatro de rua e TV. Se notabilizou nos palcos em espetáculos como Domésticas, direção de Renata Melo; Dúvida, direção de Bruno Barreto e Frenesi, direção de Naum Alves de Souza. No cinema, atuou em Domésticas (Fernando Meirelles e Nando Olival), Quanto Vale ou é por Quilo? (Sergio Bianchi). Na televisão, participou das novelas Essas Mulheres (Record); Pícara Sonhadora(SBT); e Sete Pecados (Globo).

Arte-educadora, ministra oficinas de teatro e de preparação de atores. Escreveu quatro textos teatrais, “Alto Falante”, “Autópsia”, “Impressões” e o “Decálogo”, roteiros e o livro de poesias “Impressões”.

Era domingo. Sessão das 19 horas no Top Teatro. Fui assistir ao espetáculo da Lena “Louca de Amor, Quase Surtada” e na sequência desci ao camarim, onde bati este papo com ela.

Pri…me conta deste blog?

Contei….vou pular direto pra fala da Lena que é o nosso foco aqui certo?

A Lena adaptou, dirigiu e atua no monólogo “Louca de Amor, Quase Surtada”, que estava em cartaz no Top Teatro, em São Paulo.

Como começou o projeto?

Começou em 2009. Chegou 2009 e eu queria fazer um monólogo. Eu já tinha quase 30 anos de teatro e nunca tinha feito monólogo. E queria fazer comédia. E queria falar de mulher. Queria fazer algo diferente de tudo o que eu tinha feito. Eu tinha acabado um relacionamento e tava muito tocada com aquilo. Escavando dentro de mim, pensei “é o assunto que eu consigo falar agora”. Comecei a investigar isso, a procurar textos, livros, não achava! Por acaso, não tão por acaso assim fui a um evento e tinha uma jornalista, a Viviane Pereira, que tinha acabado de escrever um livro. Ela me falou que ainda não tinha editado. Pedi para ler. Ela me passou e pedi para adaptar para o teatro.

Ai comecei a inscrever em edital, e nada rolava. Fui então juntando os amigos: luz, maquiagem, cenário. Todos praticamente trabalharam de graça! E em 2010 coloquei em cartaz. Cada temporada eu mudo algo, adapto. O cenário nessa temporada é novo. Tem texto, história das minhas amigas, histórias minhas.

Um amigo judeu diz “abriu uma lojinha né?” é isso mesmo, e como é um empreendimento você tem que investir. Eu vou revendo o espetáculo a cada nova temporada, para me manter com tesão de fazer, porque coisas vão acontecendo. É um investimento, tem que ir mudando, revendo.

O financiamento então foi parceria?

Sim. É o segundo ano que não consigo captação. Tenho visto que os patrocínios são para pessoas não para projetos. É claro que na metade do caminho eu vi que fiz uma escolha difícil: um espetáculo comercial sem ter um nome comercial.

Escrevi também para tudo o que é edital. Aliás os editais deveriam ser unificados. Cada um pede uma coisa! Um tem que ser por CD, outro 5 vias. É um gasto, um trabalhão!

Como foi a escolha da linguagem?

Optei de propósito pelo estereótipo, clichê  e caricatura: é a mulher que se veste de rosa, que se infantiliza, que fica desesperada por  homem.  É a critica pelo humor, e um humor sem palavrão e sem ofensas.

Lena Roque (foto Caio Galucci)

E tem diferença por ser mulher?

No universo!

Você sentiu dificuldade na carreira, nos estudos?

Minha história bem contada faz chorar, por isso não conto bem contada – risos – tive inúmeras dificuldades. Primeira delas sou filha de empregada doméstica, na minha família ninguém fez teatro, sou negra, sou pobre e sou mulher. A dificuldade quadriplicou! Fui fazer ECA, fiquei 4 anos estudando sozinha, não podia pagar o cursinho, não tinha ENEM, estas coisas para dar uma força. Entrei na ECA em 1990, foi um choque. Tinha eu de negra e mais uma. As pessoas eram filhas de juiz, outra coisa. Para mim foi um choque, era tudo novo. Eu tinha feito teatro amador. Naquela época existia tudo de teatro amador: festival, prêmio. Fiz cinco anos de amador.

Faz 31 anos que eu faço teatro. É só dificuldade. Tudo o que eu sou devo ao teatro. Mas é bem difícil, não tem dinheiro.

E como você começou no teatro?

Eu comecei com 17 anos. Sou da Zona Norte, Casa Verde. Eu tava fazendo colegial. Vi um espetáculo na escola, era do Ariano Suassuna, nunca tinha visto teatro. Quando terminou perguntei “O que é isso?”, ai o moço disse: “Isso é teatro!”, e eu perguntei: “como faço isso?”. Ele disse: vai no Teatro Escola Macunaíma ou na EAD. Eu tinha 17, não podia ir para a EAD. Fiz um curso de adolescentes no Macunaima e quando acabou fizemos uma peça, formamos um grupo lá. Uns seguiram outros foram para outro lado.

Ai comecei a fazer tudo: camareira, produção, iluminação. Para sobreviver fiz tudo no teatro! Dei aula 15 anos, porque fiz licenciatura. Fiz várias novelas, fiz várias coisas. Televisão é um outro mercado, como que entra na televisão?

Eu também sou da Zona Norte e também demorei para conhecer teatro…

Pois é…agora melhorou um pouco, mas não tinha um aparelho cultural na Zona Norte. Na casa verde ainda não tem nada e fica dez minutos do centro!

Quando a gente fala de mulher não é homogêneo…

Não é! Porque vc acha que eu coloco a peruca loira no espetáculo? No final eu digo “se eu não for loira e lisa o que eu vou ser?”

Se vc fizer uma pesquisa, de todas as peças que estão em cartaz em São Paulo, quantas negras são protagonistas? Em uma entrevista para o Estado de São Paulo, em 2010, me perguntaram porque que eu quis fazer esse espetáculo, e eu respondi “para ser protagonista”, eu não quero ser grande elenco o resto da vida. Eu quero falar!

Que conselho você daria para quem tá começando?

Estudar e entrar em um grupo. O grupo te fortalece, te leva para frente. A base do teatro é grupo. Com o grupo você constroi uma identidade, uma base. É muito difícil formar um grupo, uma possibilidade é já sair da escola com o grupo, formar ali mesmo. Eu acho que é um caminho. Vocês crescem juntos.

Lena Roque 3 (foto Caio Gallucci)

Entrego o cartão de visitas do blog LAS ABUELITAS:

QUE LINDO! Um blog de mulheres artistas!

Linda é você querida Lena! Obrigada pela entrevista e vida longa ao espetáculo…que aliás eu recomendo gente!

Priscilla Leal

_MG_0162Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua  relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o)  produtor(a) cultural, por isso trago no blog informações jurídicas, que estão  envolvidas na atividade artística, além de informações de produção e gestão cultural. Idealizei e  executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

3 Comments

  1. Valéria disse:

    Oba, que bacana o excelente papo com a talentosíssima Lena Roque! Adorei, parabéns pela iniciativa! Deixo uma observação como crítica construtiva: a pontuação no texto colabora com a boa interpretação do que se lê. Acho que é preciso cuidar um pouquinho mais! De resto, adorei mesmo!!! Um grande beijo!

    • Las Abuelitas disse:

      Oi Valéria! Que bom que você gostou! Você tem toda a razão. Essa entrevista, é fruto de uma longo bate papo que foi gravado, a intenção foi respeitar ao máximo a fala da Lena, e a pontuação do texto seguiu essa ideia. De qualquer forma, vou fazer mais uma revisão. Beijos e continue nos acompanhando!

  2. […] tem que romper com a barreira do preconceito racial. Mas elas estão ai ! A atriz e diretora Lena Roque falou um pouquinho sobre essa dificuldade pra […]

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