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No dia 12 de julho, rolou no Cine Belas Artes, em São Paulo, uma exibição do filme “Mãe só há uma” para um grupo de influenciadores digitais. Com alegria, o Las Abuelitas foi acompanhando o Canal do Coaching e de quebra conseguiu uma entrevista com a diretora Anna Muylaert por e-mail.

Anna nasceu em 1964, em São Paulo. É diretora, roteirista e produtora. Estudou cinema na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Em 2015, durante o lançamento do filme “Que horas ela volta?”, em Recife, Anna foi constantemente interrompida pelos cineastas Cláudio Assis e Lirio Ferreira, que não a deixaram falar do filme. Por conta disso, ambos foram punidos pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), que os proibiu de participar de eventos no local, por um ano.

Após esse fato, que foi denominado como machista – e de fato foi –, a cineasta intensificou sua participação em eventos de discussão feminista, sempre se posicionando pela igualdade de gênero e pela necessidade de observarmos isso no cinema. Em 2015, a página da artista no Facebook, na qual Anna fala constantemente de feminismo e questões sociais, foi derrubada por internautas incomodados.

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O novo filme de Anna, que estreia dia 21 de julho, é livremente baseado na história de Pedrinho, um garoto sequestrado ainda na maternidade por uma mulher que o criou como filho longe de sua família biológica. O filme se ocupa em mostrar os conflitos de Pierre (Naomi Nero) ao ser arrancado da mãe de criação quando seu crime é descoberto.

Lá, ele confronta seus progenitores com uma assertiva transformação da própria identidade sexual e de gênero. O uso de vestidos, as unhas pintadas e o desinteresse pelo futebol são motivos para embates tensos e constrangedores com o pai, interpretado por Matheus Nachtergaele.

Aliás, para mim, esse é o plus do filme. A sexualidade do adolescente protagonista é fluida. A necessidade de definição vem da instituição “família”.

E, novamente, tem a figura da mãe no filme, que já aparece no título. Como disse Anna para a Folha de São Paulo: “Acho que existe uma evolução nas minhas mães. Desde a do ‘Durval’, totalmente controladora, até a Val, sua patroa, e a Jéssica [Que horas ela volta?], que eram ausentes. Sempre existe essa questão de mãe demais e mãe de menos”.

Bem, e eu, como também pude ter repostas da própria Anna, compartilho aqui a entrevista que ela deu ao Las Abuelitas:

Quais as dificuldades de ser mulher e fazer cinema no Brasil?

Acho que fazer cinema é difícil em qualquer lugar do mundo, até em Hollywood. Então fazer cinema no Brasil é mais difícil ainda. E ser mulher fazendo cinema no Brasil é tipo, como diz o Jorge Furtado, ser astronauta em Chipre.

Mas o fato é que consegui viver, construir uma carreira e sustentar meus filhos escrevendo e dirigindo para o cinema e para a TV.

Quando assisti o filme “Mãe só há uma” a primeira coisa que me chamou a atenção foi o momento de mudança do personagem principal. Todo o mundo dele se modifica e ele passa a ser cobrado, a ter que se identificar, vestir-se “como homem”, por exemplo. Me pareceu que para o Pierre a sexualidade era algo natural, a cobrança de se “definir” veio com a nova família. Qual a importância de se propor a discussão de temas como esse no cinema?

Creio que este filme fala simbolicamente sobre uma fase que todo adolescente passa que é a hora de quebrar as regras da geração dos pais e impor novas regras. O Pierre tem uma sexualidade e uma identidade de gênero fluidas – o que para mim eh um fenômeno das novas gerações que estão acabando com os antigos paradigmas. Mas por ser um fenômeno novo ainda não foi muito explorado no cinema brasileiro. Eu acredito que o filme propõe uma atitude de rebeldia para o personagem que quer impor sua identidade.

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O filme traz novamente a figura da mãe, como em “Que horas ela volta?”. Confesso que apesar de achar as atrizes parecidas, só no final constatei que as mães foram interpretadas por somente uma atriz. A mãe é a figura apaziguadora, mas ao mesmo tempo foi usurpada e usurpou. Porque essa escolha?

Acho que esta escolha é uma resposta visual à ironia do titulo e ao mesmo tempo é uma anedota freudiana.

Que mensagem você deixaria para as meninas que querem fazer cinema?

Estudem o máximo, pratiquem o máximo, não se deixe levar por assédio no trabalho e principalmente não se deixem abater pelas rasteiras e cotoveladas de praticas machistas – que podem ser violentas e explicitas mas ainda mais nocivas quando nos diminui de forma sutil e escorregadia – e as vezes nos confunde. Para roteirista: não trabalhem sem um contrato que lhes garanta o crédito pelo que fez. Essa questão do credito é sempre onde acaba dando problema. E para as diretoras: um conselho sexista –  trabalhe com produtoras mulheres que tenderão a respeita-la mais.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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