Artistas que você TEM que conhecer: Liv Ullmann
janeiro 10, 2016
Artistas que você TEM que conhecer: Cesária Évora
janeiro 17, 2016
Ver tudo

Assisti novamente ao filme “O Mágico de OZ”, um clássico do cinema, que inclusive virou musical da Broadway.

Mago_de_Oz_t670x470

Sem dúvida é um filme com muita simbologia, mas o que mais chamou a minha atenção foi a jornada da personagem Dorothy, que para descobrir que “não há lugar como a nossa casa”, precisou sair da fazenda, onde vivia com a tia e os empregados, e enfrentar todos os seus medos em busca desse retorno ao lar – que seria dado pelo tal Mágico de OZ.

O filme me trouxe também a imagem da menina Alice do longa “Alice no País das Maravilhas”, do diretor Tim Burton, que empreende uma longa viagem de descoberta fora da sua terra conhecida.

E podemos trazer outras imagens de jornadas como a da Liz, protagonista do best-seller que virou filme “Comer, Rezar e Amar”.

Muitas heroínas saem da sua terra natal para empreender a busca de si mesma em uma terra nova. Puxando esses exemplos, relacionei-os com a jornada do herói, descrita por Joseph Campbell.

Apesar de estar no masculino – herói- essa estrutura pode ser perfeitamente aplicada ao feminino, às mulheres.

Tudo começa com um chamado, um começo. A heroína sente que algo está faltando, que ela precisa viver uma experiência diferente da cotidiana.

Ou algo lhe foi usurpado: no caso da Dorothy é o Totó, seu cãozinho. No caso de Alice é a necessidade de viver algo novo e a sua curiosidade que a fazem seguir o coelho.

Nesse caminho a heroína vai passar por provações e experiências penosas, afinal ela tem que provar que pode ser uma heroína. Tanto Dorothy quanto Alice têm uma bruxa má e uma bruxa boa ao seu lado. No caso de Alice essas bruxas são representadas pelas rainhas.

A escritora Clarissa Pinkola Estés, na sua obra clássica “Mulheres que Correm com Lobos”, fala da bruxa da floresta, a Babá Yaga, e da mãe boa demais. Em síntese a mãe boa demais pode ser um obstáculo para a heroína, já que ela não vai desafia-la. Ao contrário da bruxa que obriga a menina a passar por todas as provações e provocações. Assim, ela precisa se superar e, consequentemente, crescer.

No meio do caminho nossas personagens mudam o pensamento: de um individualismo, que visa a autopreservação, surge um senso de coletivo e elas precisam salvar um povo, uma pessoa ou até uma ideia. A luta deixa de ser em prol delas para ser a favor dos outros.

Alice%20obvious

Dorothy encontra três figuras – o espantalho, o homem de lata e o leão – no meio do caminho, e os leva ao encontro do Mágico de OZ. Alice precisa acabar com a tirania da Rainha Vermelha.

Outra característica dessa jornada é que quando a heroína tá chegando perto do fim, ela se frustra. Algo acontece que impede seus planos originais. Quando está chegando muito perto de se libertar ou de voltar para casa, algo é revelado ou uma escolha tem que ser feita.

Para ser heroína, é necessário ser testada diversas vezes.

Descrevi aqui muito sucintamente a jornada do herói, de Joseph Campbell. Muitos roteiristas e empreendedores usam esse caminho para escrever seus trabalhos e projetos.

Também, segundo Campbell, se você desmontar as histórias verá que todas tem essa estrutura básica que ele apresenta na jornada do herói.

E se você reparar vai ver que nossa vida também, muitas vezes, tem esse roteiro. Quem nunca teve uma intuição ou foi lançado para algo que a princípio não queria?

Quem nunca quis muito algo e passou por todas as dificuldades para alcançar o que desejava? E quando estava chegando perto, algo simplesmente mudou o curso de tudo?

Não tem nada de místico ou religioso nessas constatações. Simplesmente são acontecimentos humanos e por isso todos nós nos identificamos com essas histórias.

As nossas heroínas – Dorothy e Alice – completaram seu percurso. A viagem que realizaram foi interna. Ultrapassaram seus medos, e descobriam que não há lugar melhor que o nosso lar.

Entendo que lar aqui é o nosso corpo, nossas ideias e desejos genuínos.

Não há lugar melhor que a gente mesmo para habitar.

Priscilla Leal – texto publicado originalmente na Revista Obvious

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *