DOUBLE BLIND: A construção da intimidade e a percepção da verdade

Colaboradora – Lidia Ganhito
setembro 8, 2016
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DOUBLE BLIND: A construção da intimidade e a percepção da verdade

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De acordo com o Science Daily, o termo double blind é usado no âmbito científico para caracterizar experimentos nos quais nenhum dos envolvidos têm consciência dos detalhes críticos do mesmo, evitando assim a contaminação da interpretação dos resultados por meio da visão pessoal do pesquisador ou do estudado.

Sophie Calle e seu então companheiro, Gregory Sheppard, se apropriaram nessa ideia para realizar o melancólico filme-experimento Double Blind aka No Sex Last Night (1992). Tendo se visto apenas duas vezes na vida, os dois artistas combinaram de se encontrar em Nova York e cruzar de carro os Estados Unidos, para se casar em Las Vegas. Cada um carregava consigo uma câmera VHS, que funcionou como um diário no qual os realizadores-personagens registravam as angústias que invadiam a viagem, num retrato sincero das dificuldades de dois quase estranhos tentando convencerem-se a amar um ao outro. Calle e Sheppard seguiram à risca os parâmetros do experimento proposto, e não acessaram nenhum dos registros um do outro durante as três semanas que durou a viagem. Foram captadas 60 horas de material bruto que, depois de terem sido trabalhadas durante nove meses, deram origem ao longa documental-ficcional que expõe ao público os diferentes pontos de vista e as diferentes interpretações possíveis para uma mesma situação, revelando desejos, medos e ressentimentos sempre presentes em uma relação amorosa.SophieCalle

Esse filme-experimento nos dá uma boa amostra do imaginário das obras de Sophie, nas quais ela explora a imprevisibilidade das relações interpessoais e a intimidade sentimental de si mesma e dos outros, construindo narrativas artísticas a partir de evidências da realidade, coletadas com práticas muitas vezes invasivas, em que os limites entre o público e o privado são constantemente questionados. Uma dessas obras é Suite Venitienne, de 1979, em que a artista registra por duas semanas os passos de um homem que conheceu em uma festa.

Suite Venitienne (1979)

Em The Hotel Room (1981), ela invade quartos de hotel recém desocupados e cria narrativas baseadas em fotos dos objetos que estranhos deixavam para trás. A artista também investigou a vida de um desconhecido a partir de um livro de endereços que achou na rua, conduzindo entrevistas para tentar criar um retrato desse homem. Após se ver em Adress Book (1983), o dono do livro se sentiu extremamente desconfortável com a investigação e promoveu ações de retaliação contra a artista, incluindo a divulgação de imagens íntimas dela (em um claro ato de revenge porn).

Além de pesquisar a vida de desconhecidos, Calle também usa suas experiências emocionais como material performativo e artístico. Em Exquisite Pain (2005), a artista enfrenta o rompimento de uma de suas relações convidando pessoas a descreverem suas memórias emocionais mais dolorosas. Posteriormente, essa ação foi desenvolvida e resultou em sua obra mais famosa, Take Care of Yourself (2007), na qual a artista convida 107 mulheres de diferentes campos – escritoras, dançarinas, advogadas, criminologistas, arquitetas, contadoras, publicitárias, entre outras – para interpretarem de acordo com sua especialidade o e-mail com o qual seu namorado terminou a relação de dois anos. (No Brasil, essa obra foi exposta em 2009, no Sesc Pompéia e no Museu de Arte Moderna da Bahia – o site da exposição ainda está no ar e traz informações bem interessantes sobre a obra)

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Suite Venitienne (1979)

Em ambos os casos, o processo de realização das obras de Calle envolve uma estreita ligação entre privacidade e exposição, trazendo à tona as ambiguidades narrativas de todo trabalho autobiográfico e questionando também a função social, artística e terapêutica da autorrepresentação e da exposição da intimidade. Em tempos de redes sociais, esse é um exercício diário da população que usa diariamente a internet, acostumada a realizar quase que sem pensar o ato de selecionar e editar os registros autobiográficos para expô-los ao público. Como nas obras de Sophie, o resultado é um registro autobiográfico editado – um recorte controlado da realidade que envolve a manipulação do passado e do futuro de acordo com os parâmetros que os artistas/usuários/realizadores querem abordar, seccionando a sequência de eventos para transconfigurar o presente do modo desejado.

 

 

Lidia Ganhito
Lidia Ganhito
Gosta&pesquisa&faz: artes visuais, cinema, ilustração, design, mobilidade, corpo, sexualidade, feminismos, do-it-yourself! Vai escrever aqui sobre artistas mulheres e mulheres artistas.

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