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“Meu corpo é um lugar sem recurso a qual estou condenado…”
Michel Foucault, “O corpo utópico”.

Quando pensei em escrever sobre a beleza tinha a noção do imbróglio que estava me metendo, mas não sabia que este assunto iria me levar para outras paragens. Por exemplo, sabia que o conceito de beleza é mutável, pois como escreveu Umberto Eco no livro História de Feiura “0 conceito de belo e feio são relativos aos vários períodos históricos ou às várias culturas…”p.10 , logo estava me preparando para não ter uma definição estrita.

No entanto, quanto mais eu lia sobre o que é ser bela/o nos vários períodos, mais certeza tinha que estava lendo sobre a história dos cuidados dos corpos e como esse cuidados foi tomando diferentes esferas do século XVIII até a nossa realidade.
O corpo sempre sofreu repressões e opressões, desde o século XVIII. De acordo com Michael Foucault nos livros História da Sexualidade I e Vigiar e Punir, o corpo é uma fonte de regulações sociais; tanto que um dos lemas do movimento feminista da década de 1970 era “Nosso corpo nos pertence”, um lema sobre o direito ao aborto, a liberdade sexual e sobre o agenciamento de nosso próprios corpos.
Porém, apesar de ter havido ganhos, o corpo, que já trazia em seu lombo a marca de vários controles recebeu a intensificação de mais um: o voraz e cruel mito da beleza.

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Alfredo Veiga-Neto, no texto “O currículo e seus três adversários”, que está no livro “Para um vida não-fascista”, oferece uma interessante definição, que apesar de ser usada para descrever o que significa currículo, se adere perfeitamente sobre as subjetividade criada no e pelo corpo. Trocando a palavra currículo para corpo, temos:

“O sujeito acaba sendo o que é não apenas porque ele é descrito assim ou assado por seu currículo (corpo), mas porque ele vai se pautando pelo próprio currículo (corpo), de modo a ir se vendo, se narrando, e se julgando e, com isso, montando sua trajetória segundo aquilo que quer ser ou aquilo que ele pensa que deve ser” p.19.

E quase sempre julgamos nosso corpo pela beleza que ele possa representar e, na nossa sociedade de consumo de imagens, ser belo é um exemplo de ser bem-sucedido.

Denize Bernuzzi de Sant’anna relatou, no livro História da Beleza no Brasil, que no início do século XX: “a faceirice, definia-se por uma delicada habilidade para esconder o que fosse feio e realçar o agradável. O embelezamento tendia a se limitar a indumentária e alguns produtos para o rosto e cabelo p.14”, mas na atualidade:

“a beleza implica a aquisição de suposta maravilhas em formas de cosméticos, mas também o consumo de medicamento, a disciplina alimentar e a atividade física. Beleza é, igualmente submissão a cirurgias, aquisição de prazer acompanhado por despesas significativas, de tempo e dinheiro” p.15.


E apesar do controle do belo ser dirigido a todas e todos, será sobre a mulher que ele caíra com maior força, pois como disse Naomi Wolf, no livro o Mito da Beleza: “quanto mais numerosos foram os obstáculos legais e matérias vencidos pelas mulheres, mais rígidas, pesadas e cruéis foram as imagens da beleza feminina a nós impostas” p.11. Ou seja, mais do que nunca, o corpo é político, sendo foco de uma série de ideologias. Três tipos de corpos recebem a maior carga: o negro, o gordo e o velho.

Voltando a Umberto Eco, mas agora no livro História de Beleza, ele escreveu ainda no primeiro parágrafo da introdução: “Belo – junto com “gracioso”, “bonito” ou “sublime”, “maravilhoso”, “soberbo” e expressões similares – é um adjetivo que usamos com frequência para indicar algo que nos agrada. Parece que, nesse sentido, aquilo que é belo é igual àquilo que é bom…tendemos a definir como bom aquilo que não somente nos agrada, mas que também gostaríamos de ter”.

De acordo com o dicionário: bom é aquilo ou aquela/e que segue todas as virtudes humanas. Ou seja, posso vincular a beleza a uma espécie de virtude. Logo, os corpos acima citados não são virtuosos, pode-se inclusive dizer que são corpos ignóbeis, e na maioria das vezes não são admirados ou desejados, por isso vou escrever um pouco sobre cada um deles e mostrar de que forma o mito da beleza os atinge.


A opressão sobre o corpo negro existe no ocidente desde o advento da escravidão. No Brasil, a mestiçagem era desejada por uma ideia de branqueamento que imperou por décadas (vejam o quadro A Redenção do Cam, que está no Museu de Belas Artes, RJ), mas também era vinculada a uma ideia de atraso cultural. Denise Bernuzzi descreveu que, no início do século XX, não havia pudor em criticar a pele negra ou o cabelo “carapinha” e que nos jornais e revistas sempre apareciam receitas, caseira ou não, de branqueamento e alisamento de cabelo. Apenas na década de 1980, surgiram os primeiro produtos voltados para as características da beleza negra, e em 1996 foi lançado o primeiro número da revista Raça.

No entanto, a ressignificação do corpo negro e a exaltação de sua beleza não foi suficiente para acabar com séculos de ditadura dos cabelos lisos, principalmente depois do surgimento das dezenas de formas de alisamento. Ainda são pouca as atrizes ou atores com papéis de destaques, ou modelos com projeções internacionais, e cada vez que uma aparece é necessário enaltece-la por conta de sua raridade.

Obviamente houve ganhos e temos mais pessoas negras aparecendo nas mídias, mas o que vemos normalmente nas propagandas são pessoas de traços finos e cabelos cacheados, nada de narizes chatos, lábios grossos e cabelos crespos, criando um ideal não condizente com a maioria. O caminho a se percorrer para a aceitação de uma beleza negra, sem querer embranquece-lá, ainda é longo.


Já a luta contra a velhice existe desde de tempos imemoriais. Pomadas, cremes e maquiagens para amenizar os efeitos da idade faziam parte de qualquer toucador de uma dama de classe. Mas, se antes era restrito a uma esfera da população, hoje ninguém pode ser velho, ou melhor, parecer velho. Além dos produtos, temos remédios, cirurgias etc. Podemos até rejuvenescer as nossas vaginas, vejam só…

No texto “Beleza e feiura: corpo feminino e regulação social” escrito por Joana de Vilhena Alves, que consta no livro História do corpo no Brasil, ela diz:

“E quais seriam os valores contemporâneos? Que imagem de corpo é exaltada na cultura vigente? Seu status é adquirido por meio de sua jovialidade, de sua beleza, de aparência de felicidade, de seu poder de atração sexual e, finalmente, do quão longevo parece ser, isto é, a tentativa desenfreada em retardar os efeitos do envelhecimento…”p.484

E citando mais uma vez Denise Berenuzzi:

“Em numerosos anúncios para cosméticos e vitaminas, envelhecer sem ser velho deixou de ser uma contradição em termos. Rejuvenescer tornou-se uma necessidade cada vez menos discutível para garantir o emprego, cônjuge e aceitação social. Assim a diferença entre envelhecer e “envelhecer mal” tornou-se cada vez mais difícil de ser percebida” p.167

Ou seja, além da ditadura de beleza, também temos a ditadura da eterna juventude, mas acredito que a única forma de ser eternamente jovem é morrendo jovem e eu prefiro viver.

E, finalmente, o corpo gordo. Posso dizer, sem medo de errar, que esse é o corpo que mais tem sofrido nesta nossa ditadura da beleza atual, pois de acordo com Joana Vilhena Alves: “Os gordos são, assim, ‘os novos feios’”, p.489.

Denize relata que, na década de 1920, já havia uma preocupação com o peso, mas uma pele viçosa, elegância e aprumo eram mais importantes. A magreza só tornou-se uma preocupação maior, após a década de 1960, com o surgimento da liberação sexual.

A liberação trouxe em seu bojo os corpos semidespidos, aumentando a atenção sobre a pele; surgiu a moda da calça saint-tropez, que deixava a mostra a barriga que tinha de ser quase inexistente, ser bela neste período era ser jovial, magra e bronzeada. No Brasil, aumentaram as propagandas para emagrecer e surgiram nas farmácias as balanças da marca Filizola.

A década de 1980 trouxe a expressão “malhar o corpo” e as academias viraram moda, além de magro, agora o corpo tinha que ser rijo e tonificado, mas flexível. Entre 1980 e 1990, a top model, magra e alta, ganha status de pop star, e surge a MTV, com seus apresentadores quase adolescentes, magros e esguios, portanto tudo gritava (grita): Seja magro,pois são a eles que o mundo pertence.

Ser magro tornou-se tão imperioso que surgiram doenças relacionada a isso, como anorexia e bulimia. Foi cunhado o termo gordofobia, para falar do preconceito relacionado às pessoas gordas, e as doenças não são ligadas ao tipo de alimento que ingerimos, mas a ser gordo.

Nos tornamos empresários de nossos próprios corpos, sendo ele o nosso principal capital e cabe a nós agencia-lo, mas se não conseguimos domar e disciplinar nossa anatomia, como podemos ser confiáveis? Esse é o pensamento da nossa modernidade.

No entanto, a parte mais malévola da gordofobia é a que nega a sexualidade ao gordo, pois não há como ter prazer com um corpo que muitos consideram repulsivo. Como escreveu Joana de Vilhena: “Da fonte do prazer ao calvário, eis a perversão” p.488.

Não foi fácil iniciar este texto, assim como não está sendo fácil terminá-lo, tenho a sensação de que não fui clara, há tanta coisa a ser dita e pesquisada. Nós estamos condenados a um corpo e sobre este pesa uma ideia de beleza. Esta beleza pode ser um prisão, se o único parâmetro foi o imposto pela sociedade, ou libertação se assumirmos que há múltiplos corpos, assim como há múltiplas belezas, pois como escreveu Noami Wolf:

“…isso significa que temos de separar do mito tudo aquilo que ele cercou e manteve como refém: a sexualidade feminina, os vínculos entre as mulheres, o prazer visual, o prazer sensual em tecidos, formas e cores, enfim, o prazer feminino, puro ou obsceno. Podemos dissolver o mito e sobreviver a ele mantendo o sexo, o amor, a atração e o estilo não só intactos, mas ainda mais vibrantes do que antes. Não estou atacando nada que faça as mulheres se sentirem bem; só o que faz com que nos sintamos mal. Todas nós gostamos de ser desejadas e de nos sentir bonitas” p 360.

Lia Mendes
Lia Mendes
Especialista em História Sociedade e Cultura pela PUC, estuda o feminismo, corpo e sexualidade e suas relações com as mídias audiovisuais. Professora do ensino fundamental e médio da rede particular da cidade de São Paulo.

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