Comparando os filmes Wanda e Alice

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Comparando os filmes Wanda e Alice

wanda Barbara Londen, 1970

wanda Barbara Londen, 1970

Na última parte da minha análise, vou comparar os dois filmes e, principalmente, verificar de que maneira o olhar feminino e o masculino convergem ou divergem sobre o tema mulher.
Os filmes têm em comum o fato de serem road movies sobre mulheres sozinhas tentando descobrir sua força. São mulheres de classes mais baixas, que não tiveram acesso a uma educação acadêmica nem possuíam preparo profissional. Oprimidas pelo poder, sentiam-se inferiores e submissas, sem domínio da própria vida.

A visão de Bárbara sobre os papéis e problemas das mulheres e dos homens é mais cáustica, diria menos romântica. Barbara filma no início dos anos 1970, momento em que a discussão sobre o poder e a opressão começava a se expandir em todas as camadas sociais, portanto Wanda é quase uma denúncia da não possibilidade de emancipação das mulheres. Alice é mais solar, mais esperançoso, dá uma sensação de que se as mulheres realmente quiserem elas podem tomar a própria vida em suas mãos, mas nota-se nele também a opressão em que se vivia.

Outro ponto de interesse é com relação às táticas de resistência. Wanda é uma mulher que resiste em seu mutismo, ela quase não reclama, pouco se sabe sobre seus pensamentos, e ela está sempre de cabeça ou olhos baixos, mas em seu silêncio ela vai resistindo aos maus tratos e tentando descobrir algum caminho. Nunca se deixa abater, quando abandonada no meio da estrada por um homem que só queria sexo, toma um sorvete e vai ao cinema. Na cena do divórcio, quando entra no tribunal, está de cabeça baixa, ombros contraídos, mas fumando e de bobes nos cabelos. Se confrontada, abaixa a cabeça e não responde, deixa que eles pensem o que quiserem.

Alice usa do humor; quando o marido a ignora quando ela faz uma pergunta, ela o imita, dando a resposta que gostaria de ouvir; quando questionada pelo atendente do motivo de comprar tanta carne de carneiro, responde que um ótimo jantar pode fazer com que o marido tenha gana de correr atrás dela até o quarto. E ainda usa a cumplicidade com o filho como apoio e força para manter um lar mais feliz e equilibrado.

Nos filmes, as mulheres são representadas como se estivessem em busca de uma nova subjetividade. A família ou a constituição de um lar não representava mais a finalidade suprema. O gênero de filme escolhido, o road-movie, é um gênero de peregrinação, de cair na estrada, com o caminho sendo mais importante que o fim da viagem, pois às vezes ela não acaba.

Na questão da maternagem, em Wanda há uma recusa. Wanda, apesar de carregar as fotos dos filhos, não consegue ser a mãe que a sociedade espera. Já em Alice, a maternagem é algo que, apesar de ter seus conflitos, era essencial. Talvez essa seja uma grande diferença entre um roteiro escrito por uma mulher e um escrito por um homem. A sociedade transformou a maternidade/martenagem em um fim em si, a máxima realização de uma mulher – de acordo com a nossa cultura, todas as mulheres deveriam sonhar em serem mães. O homem, proibido biologicamente de desfrutá-la, tem uma tendência da idealização das mães, que são por excelência pessoas fortes, que lutam por seus filhos; já a mulher pode ver o quanto é massacrante a obrigação da marternagem esperada pela sociedade. Nem todas nasceram para esse papel, e Barbara discute esse ponto, a indiferença de Wanda aos filhos é a negação da maternagem como essência.

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Em ambos os filmes, os homens são mostrados como seres violentos, rígidos, nervosos, como se a qualquer momento eles fossem explodir. A exceção seria David, que se mostra mais sensível; para ele, as necessidades de Alice são tão importantes quantos as dele, não há entre os dois uma relação de desigualdade.

Uma questão muito discutida por Mulvey e Kaplan é a erotização feminina. Em Wanda, nas cenas iniciais ela está sempre de bobes e com lenço no cabelo e as roupas são mal cortadas, ela não se insere no contexto de beleza definido pela moda daquele momento. Em uma cena no shopping, Wanda olha as vitrines, os manequins parecem maiores que ela, sem expressão, sem vida, ela os olha com estranhamento, quase como se eles fossem uma ameaça. No entanto, quando o Sr. Dennis dá dinheiro para ela comprar roupa, sai toda feliz e luminosa do shopping, sentindo-se bonita e querendo ser admirada por ele. Em Alice, há um discurso sobre a beleza, pois Alice acha que, para conseguir emprego, tem que parecer jovem e bonita. Ela também aparece raspando as pernas na pia, mostrando a necessidade de cuidar da aparência. E, apesar de o corpo de Alice estar mais em evidência do que o corpo de Wanda, não se pode dizer que há a mesma erotização que foi feita em Marilyn Monroe ou Rita Hayworth.

Pode-se dizer que é possível encontrar em ambos os filmes uma crítica à opressão que as mulheres viviam, e também as possibilidades de novos contextos das relações de gênero, algo que é mostrado nas figuras de Alice e David e de Tommy e Andrey.

As ações são deflagradas pelas mulheres, o olhar dos filmes é sobre elas, que estão exigindo mais poderes e questionando os papéis que a sociedade lhes ofereceu. Não são vítimas, nem bruxas, nem manipuladores, são seres humanos com dúvidas e revoltas.

Pode-se também dizer que há uma diferença nas abordagens e visões dos diretores. Barbara Loden tem uma visão mais crua e mais triste, mostrando uma mulher em busca de um rumo e totalmente à margem daquele programado para ela pela sociedade. Enquanto Martin Scorsese fez uma Alice que, apesar de também estar procurando sua força, está mais adequada à sociedade, sendo seu filme, talvez por exigência do estúdio, mais leve e romântico.

Lia Mendes
Lia Mendes
Especialista em História Sociedade e Cultura pela PUC, estuda o feminismo, corpo e sexualidade e suas relações com as mídias audiovisuais. Professora do ensino fundamental e médio da rede particular da cidade de São Paulo.

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