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Como organizar um projeto cultural?

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O tema deste mês é REFUGIADAS, e temos textos ecléticos, com variadas formas de abordar o assunto.

Quando pensei sobre o tema, intuitivamente já estava pensando no caos. Talvez seja porque, quando lembro da questão das mulheres refugiadas hoje, penso em diversidade. E diversidade gera um caos – que não é aqui colocado com uma conotação negativa.

Todo mundo já passou ou vai passar pelo caos criativo. Você tem mil ideias e não sabe como desenvolver nenhuma. Isso se deve um pouco ao excesso de informações que recebemos todos os dias, via redes sociais e outras tecnologias que nascem diariamente. Na atualidade, temos acesso a outras culturas, a outros projetos, com muita facilidade.

Isso, sem dúvida, é muito bom! Mas também pode gerar uma ansiedade que só nos atrapalha. A primeira coisa que pensamos é: “tenho que ser original! Mas como, nesse mundo tão cheio de coisa? Ah, então tenho que ser inovadora, fazer algo inédito!”. Aí você pesquisa e acha um projeto com a mesma ideia sua na Alemanha. Quanta energia perdemos…

Então, decidi compartilhar neste texto a minha experiência para organizar esse caos de ideias na cabeça e abrir caminho para um pensamento lógico, que permita se concretizar em um projeto.

1- O que faz sentido para você?

Dentro de todos os assuntos que te interessam, pense qual é aquele que faz seu coração vibrar? Que você gosta de ler, que curte debater?

Onde está a sua identificação?

Responder essas perguntas já vai te dar um bom caminho de por onde começar…

2- Pesquisar

Pesquise, pesquise e pesquise. Tente pesquisar sem nada em mente, apenas sobre seu tema. Eu, por exemplo, sempre me interessei pela questão da memória, da sua importância para a sociedade. Em 2013, desenvolvi, com o diretor Carlos Alberto Ferreira, o projeto Tecendo a Nossa História, que foi premiado com o edital Interações Estéticas da Funarte e realizado na cidade de Itapetininga, em São Paulo. Queríamos falar de memória, era esse o nosso norte. Então pesquisamos: projetos, filmes, textos, livros…

Quando fiz o Mulheres Artistas na Ditadura e agora o Las Abuelitas, foi a mesma coisa: pesquisei sobre a mulher artista e li tudo o que encontrei.

É o seu alimento, você está se alimentando! Eu gosto de deixar cozinhar a ideia. Adoro esse termo! Você junta todo os ingredientes – encontrados em sua pesquisa – e deixa um tempo no fogo – sua cabeça. Sem crítica, sem ter que definir nada, sem deixar a ansiedade lhe consumir. Você está começando a cozinhar…

3- Linguagem artística

Depois de toda a pesquisa, com certeza você estará dominando mais o assunto que te faz vibrar. Já viu o que está sendo feito, se alimentou de ideias e sonhou bastante também. Sim, é necessário, para depois colocar o pé no chão.

Agora você vai pensar na linguagem artística com a qual você gostaria de trabalhar. O que você sabe fazer? Pintar, cantar, tocar um instrumento, atuar, dançar, produzir, escrever etc.

No Tecendo a Nossa História, eu e o Carlos queríamos trabalhar com o teatro, que é a nossa linguagem artística (eu sou atriz, e ele, diretor). No Mulheres Artistas na Ditadura, eu queria produzir conteúdo, porque durante a pesquisa achei pouquíssimas informações.

4- Formatar e ceder

Bem, você já pesquisou e já pensou na linguagem que quer utilizar. Agora é a hora do pé no chão! Você consegue fazer o que deseja? Se sim, maravilha, se jogue e vá em frente. Se não, é hora de ceder.

No Tecendo, eu e o Carlinhos tivemos que ceder e deixar o teatro de lado. Vimos que era inviável realizarmos uma peça de teatro em uma comunidade sem conhecê-la, e que precisaríamos de mais tempo do que tínhamos para isso. Então, usamos o teatro como aquecimento para deixarmos os participantes mais à vontade, e propusemos um documentário, contando a história da cidade, feito por eles, utilizando celulares.

A gente tem que tomar muito cuidado quando se propõe a trabalhar com uma comunidade, um bairro ou um grupo pequeno de pessoas. É preciso tratar todos com delicadeza e ter humildade para chegar nesses lugares e se deixar contaminar. Sim, porque todo grupo é um organismo vivo e tem sua própria cultura. Chegar com a cabeça de “vou levar cultura” é um erro que demonstra uma arrogância desnecessária.

O ideal é passar um tempo com o grupo com o qual você vai trabalhar. Ouvi-los, ver o que eles querem, o que eles fazem de muito legal e que pode ser divulgado e fomentado.

Por isso é que eu gosto de fazer um “piloto” do projeto, sempre que posso. O Las Abuelitas, antes de se divulgado, foi compartilhado com algumas pessoas que me deram feedback. O Mulheres Artistas na Ditadura agora virou uma Mostra de Cinema e em breve vai ter uma exibição, antes mesmo de eu propor em leis de incentivo ou editais.

Porque, quando pensamos em trabalhar com as pessoas e compartilhar o nosso trabalho, temos que ter em mente que ele sofre transformações. O próprio Las Abuelitas é assim; como é um projeto que está acontecendo, sofre mudanças diárias. É necessário termos uma personalidade flexível e estarmos apropriadas do que queremos fazer, para saber a hora de ceder, a hora de bater o pé e a hora de abrir mão.

No Mulheres Artistas, como eu queria produzir conteúdo, propus um ciclo de palestras. Quando entrou o patrocínio da Caixa Cultural, tivemos que nos adaptar ao patrocinador e, posteriormente, às palestrantes e aos participantes. Não significa que perdemos o projeto, ele foi concretizado, mas tivemos que ceder em alguns pontos. Faz parte! A vida é dinâmica, e um projeto é parte desse dinamismo.

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5- Junte-se

Uma andorinha só não faz verão. Isso é fato! Mas nem sempre a gente tem um grupo para começar, e isso não deve te impedir. Já durante a pesquisa, você vai encontrar bastante gente que está fazendo algo dentro do que te faz vibrar e da linguagem artística que você curte. Siga essas pessoas, anote os nomes. Depois que tiver sua ideia formatada e começar, mande seu trabalho para elas. Experiência própria: vai ter gente que não vai responder, gente que vai agradecer e gente com quem você vai fazer parceria. E você pode ir fazendo isso, agregando parceiros. Aliás, esqueça a história de concorrência! Tem espaço para todos, então, como tudo que interage se transforma, deixe-se contaminar pelo trabalho de outros.

Agora, na prática

Recebi esse feedback no Facebook, em uma pesquisa que fiz sobre cursos on-line:

“Oi, Priscilla, sou designer. Vim do Rio e me mudei para SP neste ano. Já tive experiências com agências, mas nunca participei de nenhum projeto cultural. Queria muito fazer um projeto diferente, algo mais artístico, mais colaborativo, mais humano… só que nada sai do papel. Não sei por onde começar, até onde posso ir. Só tenho o sentimento de querer fazer algo bacana para nós, além da capacidade de produzir algo visual, pelos meus conhecimentos (…)”

Dentro do caminho proposto, vamos supor que o que faz nossa leitora vibrar seja a diversidade de pessoas: as línguas, as tradições, as cores etc., e ela fica extremamente tocada com a questão das guerras e das famílias que precisam se refugiar e começar a vida num lugar diferente. Ela então começou a pesquisar sobre o assunto, se alimentou muito, se fartou! E deixou isso cozinhando na cabeça por um tempo que funciona para ela (pode ser dias, semanas…).

Enquanto isso, ela foi pensando na linguagem dela. Bem, a nossa leitora é designer e é essa linguagem que ela quer usar (ela diz “além da capacidade de produzir algo visual, pelos meus conhecimentos”). Em um e-mail, ela também me disse que adora escrever.

Na hora de formatar, ela verificou todas as possibilidades que apareceriam no caso concreto. Ela viu, por exemplo, que criar uma plataforma on-line de ensino de design fica caro demais e, portanto, é inviável. Ela viu também que abrir aulas agora é complicado, porque ela não tem networking ainda na cidade etc.

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Mas aí, ela se lembrou de que, durante a pesquisa, encontrou diversas instituições que cuidam dos direitos e da adaptação dos refugiados e imigrantes e que, inclusive, aceitam voluntárias, uma excelente forma de ela conviver de perto com esse grupo.

Convivendo com o grupo, ela percebeu uma saudade das famílias refugiadas e, ao mesmo tempo, um total desconhecimento dos brasileiros sobre aquelas culturas. Ela fez, então, um blog no wordpress, contando as memórias de família dos refugiados, com delicadeza e poesia, e, claro, tudo com muita ética e respeito, aproximando todos pela saudade – sentimento universal –, e com um design incrível!!!

Depois de tudo pronto, você pode formatar seu projeto e tentar financiamentos. Já falamos sobre isso no blog, nos textos “Como escrever um projeto em edital público” e “Financiamento à cultura”.

Mas, principalmente, não desista. Tem dias que é difícil, que você quer desistir, que nada faz sentido. Mas, acredite em mim, faz parte. Do mesmo jeito que em outros dias você vai achar sua ideia incrível e todas as portas irão se abrir. Tudo é um ciclo, não se esqueça disso!

Espero ter ajudado! Se você tem dúvidas, mande para a gente!

 

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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