A primeira enquete do blog Las Abuelitas foi sobre o tema que vocês queriam ver trabalhado aqui. E ganhou: financiamento à cultura.

De fato, quando a gente fala em cultura a primeira coisa que vem em mente é: dinheiro. Como levantar um projeto cultural sem dinheiro? Ou como conseguir esse dinheiro?

O tema é longo e merece um tratamento aprofundado. Por isso, a partir de hoje, toda quarta-feira vou publicar um post falando de uma espécie de financiamento.

Para começar é essencial fazer algumas distinções e entender o que é o financiamento à cultura e quais suas possibilidades.

banco de imagens pixabay

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FINANCIAMENTO À CULTURA

O financiamento à cultura pode ser conceituado como “Conjunto de iniciativas, medidas ou mecanismos capazes de prover recursos financeiros para o desenvolvimento do setor cultural”.

Os modelos de financiamento à cultura são determinados pelos objetivos da política cultural empregada no momento. Assim, por exemplo, na França o financiamento é majoritariamente estatal, enquanto nos Estados Unidos é da iniciativa privada.

No Brasil, nossa política cultural direciona o financiamento para um padrão misto: público e privado.

RECURSOS PÚBLICOS

Os recursos públicos são aqueles empregados pelo governo. Podem ser divididos em direto e indireto.

O Estado financia diretamente a cultura por meio de editais públicos, manutenção de instituições culturais, fundos de cultura e subsídios para artistas.

Muito se critica o número desse financiamento, e, infelizmente, as críticas têm razão: o orçamento da pasta do Ministério da Cultura é bem abaixo do que a Unesco considera razoável. E com a crise que o Brasil está passando, teve ainda mais cortes.

O financiamento público indireto se dá por meio das leis de incentivo. A mais conhecida é a Lei Rouanet, no âmbito federal, mais existem outras leis em âmbito municipal e estadual.

Diz-se indireto porque o Estado deixa de arrecadar este valor e repassa para os projetos culturais. No caso da Lei Rouanet, o Governo “abre mão” do que arrecadaria com o Imposto de Renda das empresas e repassa para os projetos culturais.

Para tanto, o produtor precisar submeter o seu projeto ao Governo, aqui no caso para o Ministério da Cultura, que verificando estar presente todos os requisitos objetivos exigidos pela Lei, autoriza a captação do valor com a empresa e consequentemente o abatimento do imposto.

Essa política de patrocínio, conhecida como Mecenato, é bastante criticada e está com propostas de mudança, ainda tramitando no Senado.

RECURSOS PRIVADOS

O projeto cultural também pode ser patrocinado inteiramente por recursos privados, isto é, recursos advindos de pessoas físicas ou jurídicas, que não passam pelas leis de incentivo.

Muitas empresas patrocinam o projeto cultural sem a lei de incentivo, pois sabe da importância de agregar a sua marca àquela ação cultural. É o chamado “dinheiro bom”.

Outra forma que tem se popularizado no Brasil é o crowdfunding. Por meio de doações de pessoas físicas a um projeto inserido em uma plataforma, o produtor consegue levantar a quantia necessária para produzir seu produto cultural.

Apoios, parcerias, SESCs e escolas também devem ser inseridos como financiamento à cultura, em âmbito privado.

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RECEITAS PRÓPRIAS

Outro meio de financiar o seu projeto cultural é gerando receita própria. Seja pela bilheteria do teatro, pela venda de um CD ou livro, por exemplo, criando camisetas, canecas e marcadores de livro. É importante ter esta visão para criar todas as possibilidades de financiamento.

E QUAL A IMPORTÂNCIA DE SABER DISSO?

GRANDE! Acredite em mim! Isso porque, planejar o como você vai concretizar o seu projeto é tão importante quanto planejar o que será o projeto e como vai fazê-lo.

Um projeto cultural deve ser visto como um plano de negócios. O SEBRAE conceitua plano de negócios como “é um documento que descreve por escrito os objetivos de um negócio e quais passos devem ser dados para que esses objetivos sejam alcançados”.

Quer dizer, depois que você fez seu projeto, estruturou apresentação, justificativa, objetivos, equipe, você tem que pensar como será a concretização dele. Pensar no projeto não como um fim que se acaba, mas com várias possibilidades. Dessa forma, você consegue criar sustentabilidade no seu projeto, ou seja, consegue fazer ele se sustentar, além do produto cultural final.

Por exemplo: Uma artista quer propor uma mostra de dança. Ao invés de pensar unicamente na mostra, como produto final, ela pode pensar no que é possível agregar a ele. Talvez workshops, uma exibição de filmes sobre grandes nomes da dança, palestras, algum campeonato ou alguma ação na internet , etc.

Desta forma ela vai conseguir desmembrar o projeto e consequentemente o financiamento dele.

E tendo estas informações a artista também consegue escolher qual é a melhor forma de financiar o projeto.

Evidentemente é necessário ter um pensamento crítico em relação ao financiamento à cultura. Não temos editais suficientes, as empresas privilegiam projetos que vão trazer mídia e, estes consequentemente, tem alguma celebridade envolvida, etc. No entanto, esta é a realidade atual, como usá-la a nosso favor?

Fazendo o “plano de negócios”.

1_ Você já elaborou o projeto.

É bacana ter o projeto feito antes ao invés de fazê-lo para uma lei ou edital. Você pode ter o projeto pronto e depois ir adaptando para o que precisar.

2 _ Você desmembrou o projeto

Tem a Mostra e a artista decidiu colocar oficinas e exibição de filmes sobre dança. Aqui ela tem 3 ações.

3_ Você começa a pensar nos recursos

Quando a gente fala de recurso privado ou de público indireto, ou seja, do patrocínio ou das leis de incentivo, é impossível não pensar em mercado. Sim, mesmo nas leis de incentivo. A empresa vai dar o dinheiro para um projeto que seja estruturado e que agregue valor à marca dela. Não adianta a gente ficar brava com isso, por enquanto é assim que a coisa funciona.

Dessa forma, quando você for sair para captar recursos é necessário fazer a lição de casa e pesquisar quais empresas tem a linguagem do seu projeto, quais patrocinam cultura, como estão estas empresas no mercado, se você quer agregar seu projeto a essa empresa, etc.

Se você concluir que o melhor é o recurso público, o foco muda um pouco. O Estado tem como finalidade o interesse público e temas como descentralização e democratização cultural. É bacana pensar em qual edital seu projeto se encaixa, qual a contribuição cultural dele, como você atende aos objetivos do edital, etc.

Por outro lado, você pode concluir que vai tentar sem grana ou vai passar o chapéu, no estilo moderno: crowdfunding. Vai tentar arrecadar uma grana, ver quem pode apoiar o seu projeto com um espaço, se algum restaurante aceita fazer parceria na alimentação, etc.

4_ Você desmembra o projeto

É sempre complicado contar com apenas uma fonte de financiamento. E se a fonte acaba? O projeto fica muito vulnerável, certo?

Você pode ter vários projetos e cada um contar com uma fonte de financiamento ou pode ter um projeto com vários financiamentos.

No exemplo, a artista que quer fazer a Mostra estudou e decidiu que quer inscrever o projeto na Lei Rouanet. Ela inscreveu o projeto inteiro: a Mostra, oficinas e exibição de filmes.

Mas como ela sabe que captar recurso é demorado e é difícil, ela decidiu inscrever a exibição de filmes em um edital que saiu na cidade dela e as oficinas ela começou a estruturar com parcerias e apoio cultural. Assim, quando ela for captar o recurso também terá um material para mostrar para o patrocinador.

Ela também pensou em colocar a Mostra no crowdfunding para arrecadar o valor necessário para trazer uma companhia de outro Estado.

O que ela fez? Diversificou as fontes de financiamento. O famoso “não colocar todos os ovos em uma cesta só”. Supondo que ela conseguiu todos os recursos. Bem, ela terá que conversar com o patrocinador, apoiadores e a Secretaria responsável pelo edital, informar os outros financiamentos e, ao fazer a divulgação, colocar os logos de forma organizada de acordo com o que foi decidido nessas conversas.

Agora supondo que ela não conseguisse captar o dinheiro para a Mostra e ganhasse o edital? Bem, ela teria uma exibição de filmes. Ou ela só conseguiu arrecadar no crowdfunding, possivelmente ela teria apresentação desta Cia de fora. Mas percebe que o projeto existiria? No mínimo, ela teria portfólio, material para tentar mais uma vez financiar o projeto maior.

Essa artista é empreendedora. Além deste projeto, tem mais dois na gaveta. E ela é super talentosa para desenhar. Como ela ganhou só o crowdfunding e só conseguiu trazer uma Cia neste ano, ela aproveitou, fez um site no wordpress divulgando o projeto dela, conseguiu apoio de um escola pública que cedeu uma sala para ela fazer uma oficina com os alunos, conseguiu que um amigo fotógrafo tirasse belas fotos e, além de divulgar essa ação no site, ela criou o logo da Mostra dela e fez umas camisetas para vender.

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Entende? Temos que ser criativas também para criar mecanismos de financiamento.

Mas para ser criativa, você tem que conhecer o básico destes financiamentos.

Pensar no seu projeto como um plano de empresa mesmo: agregar ações e elementos que o enriqueçam, pensar em alternativas como circulação ou outros produtos, por exemplo, essa Mostra pode virar um documentário, e ir se estruturando para isso.

Seja qual for o financiamento que você vai escolher para o seu projeto, execute a elaboração dele com zelo e saiba como a fonte de financiamento irá funcionar.

Não adianta querer que o empresário aja como o poder público iria agir. É necessário entender esse mecanismo, pois ele muda a sua forma de abordagem.

Há pessoas e empresas especializadas em elaborar, negociar, gerenciar e executar projetos culturais e se você não se identifica com nenhuma dessas atividades, pode estar contratando esses profissionais.

No entanto, é importante você ter noção do trabalho envolvido, afinal é seu projeto não é mesmo? E fica até mais fácil depois você ir conversar e contratar o profissional.

Neste mês de agosto, toda quarta-feira irei trazer um post sobre financiamento cultural, aprofundando em cada um dos mecanismos citados neste texto.

Aguardem e acompanhem! Vamos produzir!

Priscilla Leal

_MG_0162Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua  relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o)  produtor(a) cultural, por isso trago no blog informações jurídicas, que estão  envolvidas na atividade artística, além de informações de produção e gestão cultural. Idealizei e  executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

2 Comments

  1. Muito bom amigo! Realmente eu ja testei quase todas as suas dicas e funciona.
    Aguardando seus próximos artigos rs
    Abraços

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