Artistas que você TEM que conhecer: Márcia X

Mulheres que revolucionaram a história
dezembro 14, 2016
Deu problema na viagem!
dezembro 14, 2016
Ver tudo

Artistas que você TEM que conhecer: Márcia X

Desde que conheci o trabalho da Priscila Toscano, fiquei muito curiosa com a performance, uma arte que eu conhecia muito pouco. Quando surgiu a oportunidade de escrever um artigo com a querida Lia Mendes, sob a coordenação da professora Carla Cristina Garcia, falar de performance foi natural, e foi aí que entrei em contato com o trabalho da brasileira Márcia X.

Em 2013, a pesquisadora Beatriz Lemos inventariou o trabalho da Márcia X e produziu o livro “Márcia X”, contemplado com o prêmio Procultura de estímulo às artes visuais.

Márcia era uma artista à frente do seu tempo. Suas performances eram atuais e trabalhavam com comportamentos sociais. Para estar consonante ao que era a sua época, a artista ia até o Saara, um mercado popular no Rio de Janeiro, para comprar os objetos que iria utilizar nas performances.

Nada era à toa em sua obra. Todos os objetos e a maneira como eram utilizados, tudo era pensado e trabalhado. Eu, particularmente, fiquei impressionada com a performance “Pancake”. A artista descreveu a performance da seguinte forma:

Performance/Instalação 2001

Duração: 2h

Descrição: Em pé, dentro de uma bacia de alumínio (80 cm de diâmetro), abro uma lata de Leite Moça utilizando uma marreta pequena e um ponteiro. Derramo o leite condensado sobre minha cabeça e corpo. Repito a ação com todas as latas. Em seguida, abro um pacote de confeitos coloridos colocando o conteúdo numa peneira. Peneiro os confeitos sobre minha cabeça e corpo. Repito a ação com todos os sacos de confeito. Os vestígios resultantes da performance permanecem em instalação.

Material: de 10 a 12 latas de Leite Moça (embalagem de 2,5 kg). De 7 a 10 pacotes de confeito miçanga (embalagem 1 kg).

 

 

No artigo “A arte performática, corpos e feminismo”, eu e Lia citamos:

“Segundo Ricardo Ventura, marido de Márcia X, em entrevista ao Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, em 2013, “ela mexia em barris de pólvora”. Outra performance que podemos cunhar como feminista foi “Pankace”, criada entre 2000 e 2003. A artista entra na sala vestida com uma saia de colegial e uma camisa fechada e recatada. Exibe-se: metade boa moça, metade a colegial insinuante. Ao seu redor ficavam os objetos que eram utilizados na performance: latas de leite condensado Moça, um ponteiro e uma marreta, uma bacia de água, uma peneira e confeitos. Em pé, dentro da bacia de alumínio, Márcia X abre uma a uma as latas de 2,5 kg de leite condensado Moça. A marca aqui é importante, pois também contém uma forte simbologia: no rótulo há uma camponesa, símbolo da mulher que luta e cuida dos filhos. Outro hábito a que a lata de leite condensado remete é o “mamar” a lata, fazer um furo e beber direto nela.

Usando um ponteiro e uma marreta, a mulher abre um furo na lata e despeja sobre sua cabeça o leite condensado. Ao todo, Márcia X despeja cerca de 25 quilos do produto em seu corpo. As imagens que se formam são múltiplas: o alimento forma um véu quando esconde seu rosto, trazendo doçura à mulher. Vemos ainda a mulher coberta por “Pancake”; e também cabe a interpretação sexual, parecendo estar a mulher coberta de sêmen. Conforme o alimento vai se acumulando, não se vê a boca da mulher, que neste momento não tem mais rosto. Uma mulher sem voz e sem rosto. Com o acúmulo do leite condensado, pequenas bolotas se formam, desfigurando o corpo coberto.”

Muito bacana, né?

Mas quem foi Márcia X?

Márcia Pinheiro de Oliveira foi uma artista plástica brasileira. Adotou o X depois de uma confusão com uma estilista homônima que se irritou com a comparação, uma vez que a artista Márcia Pinheiro utilizava-se da nudez em suas performances.

Márcia X estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, no começo dos anos 1980. Iniciou sua carreira com a performance Cozinhar-te”, em colaboração com o grupo Cuidado Louças, no 3º Salão Nacional de Artes Plásticas, quando conquistou o Prêmio Viagem ao País.

Em 1986, em parceria com o artista e poeta Alex Hamburguer, realizou a intervenção intitulada “Triciclage – música para duas bicicletas e pianos”, quando entrou em cena em um pequeno velocípedes durante a apresentação de Jonh Cage e Jocy de Oliveira. A dupla firmou parceria e realizou diversas outras performances.

Realizou sua primeira instalação individual nos anos 1990. Foi nessa época que iniciou uma de suas séries mais marcantes, a “Fábrica Fallus”, que continuou a desenvolver até 2005, tendo participado de diversas exposições. Também em 1995, realizou uma das mais importantes instalações individuais de sua carreira: “os kaminha sutrinhas”.

Kaminha Sutrinha

A partir dos anos 2000, a artista viu seu trabalho ser reconhecido pela crítica e seguiram-se inúmeros convites de viagens e exposições.

Márcia X foi uma grande defensora da performance e da arte contemporânea. Infelizmente, morreu de forma prematura, aos 45 anos, em 2005. Mas seu trabalho continua vivo graças ao inventário realizado pela pesquisadora Beatriz Lemos e sua equipe.

Márcia X é aquele tipo de artista que você tem que conhecer e cuja obra tem que ser sempre revisitada. Ela era tão à frente do seu tempo que não me admira que daqui uns belos anos seu trabalho esteja ainda super atual.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *