Artistas que você TEM que conhecer: Cassandra Rios

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Artistas que você TEM que conhecer: Cassandra Rios

Hoje, dia 29.08, é comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.

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Foi escolhido esse dia pois, no dia 29 de agosto de 1996,  foi realizado o primeiro SENALE (Seminário Nacional de Lésbicas) no Rio de Janeiro, pelo Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro (COLERJ). As ativistas ali presentes definiram esse dia como o dia nacional da visibilidade lésbica.

Como já mencionei aqui nos posts 5 razões para um espaço de mulheres artistas  e Artistas que você TEM que conhecer: Nina Simone e uma Pausa, quando falamos de mulher, não podemos perder de vista que não estamos tratando de um grupo homogêneo.

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Dentro desse grupo “mulheres” temos que pensar em outras intersecções como sexualidade, raça, classe social, por exemplo.

Eu acredito que esse pensamento não enfraquece o movimento feminista, pelo contrário, o fortalece na medida em que as diferenças são destacadas nas respectivas pautas, e assim  podemos falar de igualdades de direitos.

Em um país patriarcal, racista e homofóbico é nítido que uma mulher negra e lésbica, por exemplo, enfrenta mais obstáculos que uma mulher branca e lésbica, ou uma mulher heterossexual. Uma mulher pobre enfrenta uma realidade diferente da mulher rica ou de classe média.

Em comum a desigualdade de gênero. Mas tem as camadas que a nossa sociedade vai colocando e, assim, as pautas vão surgindo.

Esses pensamentos é para justificar este post que está sendo exclusivamente escrito para o dia de hoje. Se com este espaço pudermos contribuir com o dia 29.08, então ele será usado.

Trazendo para o tema do Las Abuelitas, me lembrei da escritora Cassandra Rios.

Cassandra Rios

Cassandra Rios era o pseudônimo de Odete Rios. Nasceu em São Paulo em 1932 e faleceu em 2002, na mesma cidade. Foi uma escritora brasileira de ficção, mistério e, principalmente, homossexualidade feminina, sendo uma das primeiras escritoras do Brasil a tratar do tema.

Cassandra vendeu muito livro. Em 1970, foi a primeira escritora a atingir a marca de 1 milhão de livros vendidos. Por falar abertamente de sexualidade foi duramente censurada no período da ditadura militar.

Seus livros viraram filmes e hoje é raro encontrar alguma obra da autora nas livrarias.

Em 2013 estreiou o documentário Cassandra Rios: a Safo de Perdizes, com direção de Hanna Korich.

Este contexto que foi dado à obra de Cassandra Rios, pelo também escritor Marcelo Rubens Paiva, ilustra bem o poder dessa mulher e dá para entender o motivo pelo qual foi tão censurada: como ter uma mulher que escrevia tão abertamente sobre o prazer feminino em um país tão patriarcal e que ficou 21 anos sob uma ditadura militar?

“Contexto
Como dita os manuais da literatura comparada, para entender Cassandra Rios é preciso entender sua época e ambiente.

Não havia imagens de sexo, a não ser em livros de medicina legal. No Brasil pré-contracultura, taras individuais não eram debatidas. O estranho era considerado desvio a ser combatido pelo Estado, com a censura.

A exibição de seios só era permitida em documentários sobre índios. “Amaral Neto, o Repórter” serviu para muitos adolescentes descobrirem o que havia escondido numa mulher.

Cassandra falava às claras sobre o prazer feminino. Talvez por isso tenha sido uma das personalidades mais censuradas.

Tratava-se de uma mulher escrevendo sobre tesão de mulher, numa sociedade cuja predominância religiosa afirmava que a mulher apenas se deitava com um homem para gerar filhos de Deus.

Seus livros surpreendiam. Cassandra rivalizava com uma outra autora erótica e sua contemporânea, Adelaide Carraro, assim como Hemingway rivalizou com Scott Fitzgerald.

Enquanto Cassandra tinha um estilo mais ousado, extrovertido, Adelaide era linear, contida. Em Cassandra, há empresários corruptos, que fazem despachos em terreiros de umbanda.

Cassandra já no título era direta, como, por exemplo, “A Volúpia do Pecado”, de 1948, seu livro de estréia, que a transformou numa das autoras mais vendidas da história da literatura brasileira.

Ela o escreveu com 16 anos. Fazia uma literatura assumidamente popular. Eram livros baratos. Havia desenhos provocantes nas capas: moças oferecidas em poses sutilmente sensuais.

Nas poucas entrevistas que deu, ela dizia que, no fundo, era uma simples dona-de-casa conservadora, que suas narrativas fluíam sem controle e que ela mesma ficava enrubescida com aquelas cenas mais quentes.

Chegou a escrever um livro “sério”, “MezzAmaro”, uma autobiografia que não fala de sexo, com 400 páginas. Chegou a ter o livro “A Paranóica” adaptado para o cinema, sobre uma filha que descobre que seu pai é falso e quer apenas roubar a grana da família. Na tela, o livro virou “Ariella”, revelando a atriz Nicole Puzzi.

Em muitas faculdades brasileiras, pesquisadores deveriam estar estudando Cassandra Rios. Foi uma precursora. Sua importância não será esquecida. Nem a libido de suas personagens.”.

O teaser do documentário “Cassandra Rios: a Safo de Perdizes” também mostra bem o incômodo que a artista causava:

E viva Cassandra!

E viva o dia 29.08! Mulheres pela visibilidade das mulheres!

 

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Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua  relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o)  produtor(a) cultural, por isso trago no blog informações jurídicas, que estão  envolvidas na atividade artística, além de informações de produção e gestão cultural. Idealizei e  executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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