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Artistas que você TEM que conhecer: Carmen Magalhães

Como já citei o Las Abuelitas está passando por uma repaginada para ficar bem bonitão! Para essa “nova cara” entrei em contato com algumas artistas para entrevista e assim conheci o trabalho da Carmen Magalhães.

Carmen Magalhães

Carmen Magalhães

Eu como atriz, muitas vezes, tenho dificuldade em compartilhar o meu processo criativo. Não pertenço a um grupo de teatro especifico. Então, quando estou com aquela ideia martelando na cabeça e preciso saber como começar a tirá-la do papel, procuro um colega do teatro ou referências na internet e nos livros. Não costuma ser muito fácil encontrar relatos de processo criativo! Por isso quando recebi esse material da Carmen, já pensei logo nesse espaço de domingo.

Além do trabalho ser muito legal, compartilho as palavras da Carmen como referência para nós artistas. Então, agora a palavra é da artista!

Carmen II

“Você Vê” é um trabalho inspirado no teste de Rorschach que foi desenvolvido pelo psiquiatra suíço Hermann Rorschach. O teste consiste de 10 pranchas com borrões de tintas coloridas e preto e branco, simétricas. Essas características contribuem para a rápida associação das imagens mentais que envolvem idéias e afetos, mobilizando a memória .

Me chamou muito a atenção essa coisa da simetria, pq sou muito desorganizada e isso ajuda na minha organização. Esse trabalho fala do feminino, da pra perceber que os desenhos que se formam parecem com a bacia, o ovário, mas isso não foi pensado, percebi isso só depois, primeiro produzi essas imagens intuitivamente e depois refletindo e pensando compreendi que falava do feminino. Foi a partir dai, que surge o trabalho com as facas.

Carmen III

Minha narrativa continua sendo a dor e a expressão. É uma série  mais política que questiona a não existência da mulher, questiona os vários papéis que a mulher vive ainda hoje.

O uso abusivo do poder sobre as mulheres, resultando em sofrimento, ferimento físico ou emocional, opressão…O motivo da minha pesquisa é fazer uma reflexão sobre a não existência da mulher como ser humano, que vive somente os vários papeis instituídos pela sociedade. Entender as questões de gênero, sexualidade e poder para pensar a mulher brasileira numa sociedade mais igualitária trazendo a tona aquilo que esta escondido e todos fingem não ver, pois é na intimidade que as praticas de submissão acontecem e são mantidas. Pesquisar estes mecanismos de controle a que nos submetemos e tentar representar através da minha poética esse problema que nos atravessa. Aqui, procuro analisar os papeis estabelecidos na atualidade do que é ser mulher, como peles que apodrecem e caem, peles marcadas pela indiferença, pele que não serve mais. Nesse sentido, temas contemporâneos como a exclusão, as injustiças, a violência física e simbólica contra o corpo feminino fazem parte dessa pesquisa.

A investigação de diferentes procedimentos artísticos é a base desta pesquisa, onde  pretendo escolher os meios  mais apropriados para comunicar e expressar as intenções, as dúvidas, os sentimentos e as conclusões. Acho que técnica utilizada na construção de uma imagem interfere em como absorvemos o seu significado. Me interessa a diversidade de possibilidades e algo que não possa ser definido em categoria e é isso que estou pesquisando agora.

As artistas Rosana Paulino e Beth Moyses e suas poéticas são fontes desta pesquisa. O objetivo será verificar se as questões que envolvem a mulher mudaram nos últimos 20 anos. Para isto, parto destas artistas e sigo até os artistas atuais.

Esta pesquisa tem importância fundamental ainda hoje no sentido de levar algumas reflexões críticas sobre os papeis impostos a nós mulheres. Este modo de submeter as mulheres que começa dentro da própria casa, por vezes permeada de silêncio e humilhação, desvalorizando-as como ser humano potente e digno, dono da sua própria existência.

Pretendo ir da instalação a fotografia, passando por processos mistos e desenho vou construir a minha poética para me posicionar diante do mundo, pois através da arte e da ressignificação de elementos posso mostrar caminhos de construção de liberdade e não de aceitação e anulação.

Algumas questões sobre meu Processo criativo e a construção da minha narrativa poética, que passo a compartilhar com vocês:

Você tem algum referencial teórico que sustenta seus estudos e abordagens criativas antes de produzir arte?

Sempre li e pesquisei algo sobre o assunto que quero trabalhar, mas de uns anos pra cá e principalmente depois que entrei pro grupo de estudo isso se intensificou e aprofundou. Sinto necessidade disso. Mas muitas vezes vem primeiro a imagem e depois vou procurar entender o que ela significa procurando conhecer mais sobre o assunto.

As questões relativas ao mercado da arte faz com que você explore e amplie idéias de novos modelos de representação na construção da sua narrativa?

O mercado da arte faz com que se pesquise constantemente novos modelos de representação….mas acho que isso tem a ver também com o contexto em que vivemos. A quantidade enorme e a rapidez com que as informações e imagens chegam até nós contribuí pra isso.

As questões técnicas e de linguagem visual tem relevância na escolha dos suportes nos quais você cria e produz?

Acho que dependendo do que quero falar, representar , transmitir, escolho a técnica, os meios e qual a linguagem que quero utilizar pra chegar a um melhor resultado. Mas também tem a  paixão por um suporte.

Acho que técnica utilizada na construção de uma imagem interfere em como absorvemos o seu significado. Me interessa a diversidade de possibilidades e algo que não possa ser definido em categoria e é isso que estou pesquisando agora.

Os processos de criação das suas obras faz com que queria ampliar os suportes de exposição para um livro de imagens?

Acho que o livro pode apresentar

Você acredita que as redes de criação ou grupos de estudos produzem uma interferências na sua narrativa poética?

O grupo de estudo é muito importante para a construção da minha narrativa, o estudo da poética de outros artistas, o fato de termos que falar do nosso trabalho, a troca que acontece entre os participantes,  tudo isso é muito rico e aprendemos uns com os outros o tempo todo.

Os seus estudos teóricos e práticos contribuíram para compreender o seu processo criativo na construção do seu letramento visual?

Os estudos teóricos e o conhecimento sobre o processo de outros artistas ajuda muito na construção do meu repertório.

Qual é seu interesse na construção cenográfica dentro da sua produção artística?

Se a ideia pedir uma construção cenográfica eu faço.

Quando nasceu o interesse em tornar sua produção mais híbrida contendo várias técnicas e ferramentas de produção?

Quando comecei a perceber que existe uma técnica que melhor se adapta a história que quero contar.

É freqüente o uso da decomposição da imagem na composição dos seus trabalhos. Por que você utiliza a força da decomposição na narrativa das suas obras? Pode falar sobre isso?

Desenvolvi um processo hibrido , onde construo camadas, repetições, espessuras, que, intuitivamente, vão se tornando registros e gestos de anseio e liberdade. Memórias, imagens transitórias, passagens e vestígios são metamorfoseados em caminhos para me aquietar e proteger. Buscando ficar mais próxima de mim, me mantenho entre o real e a ficção.

A vida atual é um labirinto de narrativas não-lineares. O tempo fragmentado e as velozes transformações confundem e instauram a insegurança, provocando a sensação de dissolução e vazio, de deslocamento e indecisão.  A perda da noção de centro e de  sentido acarreta um olhar  distorcido, uma identidade instável e contraditória. “Com pedaços de mim eu monto um ser atônito”, sintetiza o poeta Manoel de Barros.

Trabalho o impacto deste caos em mim, enquanto procuro algum tipo de identificação e clareza na intimidade que se estabelece com quem ve, que por alguns instantes se reconhece nessa rede invisível que amarra a vida.

Assim, peço mais tempo e cuidado no olhar.

"Aterrizo" - Carmen Magalhães

“Aterrizo” – Carmen Magalhães

"Quiasma" - Carmen Magalhães

“Quiasma” – Carmen Magalhães

Bem bacana né? Você pode conhecer mais do trabalho da Carmen no site e na fanpage do facebook!

Até mais!!!

_MG_0162Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso trago no blog informações jurídicas, que estão envolvidas na atividade artística, além de informações de produção e gestão cultural. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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