Artistas que você TEM que conhecer: Camille Claudel

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Camille Claudel foi uma escultora francesa, filha de Louis Prosper, um hipotecário, e Louise Athanaïse Cécile Cerveaux. Camille passou toda sua infância em Villeneuve-sur-Fère, morando em um presbitério que seu avô materno, o doutor Athanaïse Cerveaux, havia adquirido. Foi a primeira filha do casal, sendo quatro anos mais velha que Paul Claudel. Ela impõe a seu irmão, assim como a sua irmã caçula, Louise, sua forte personalidade. Ela comandava os dois desde pequena. Segundo Paul, seu irmão, ela declarou desde cedo seu desejo de ser escultora. Camille também tinha certas premonições e previu que seu irmão se tornaria escritor e sua irmã, Louise, seria musicista.

Se você “der um Google” com o nome de Camille Claudel, vai achar muita coisa. Quando me interessei pela vida dessa artista e comecei a pesquisar, me deparei com um farto material sobre Camille.

Mas algo me incomodava. Tudo o que eu encontrei se referia a Camille como a artista, amante do mestre Auguste Rodin, que enlouqueceu de amor.

Não era possível que a mulher que fez obras belíssimas, num período em que a mulher não podia sequer estudar na Academia de Belas Artes, tenha sido somente amante do Rodin.

Clotho

“Clotho” – Camille Claudel

Por conta da Camille, comecei toda a minha pesquisa sobre mulheres artistas e os meus projetos. Tanto este espaço quanto o projeto Mulheres Artistas na Ditadura nasceram das perguntas que ela me fez fazer: temos espaço na arte?

E o que eu descobri sobre a Camille?

Lendo as cartas da artista, que estão no livro Correspondance, é possível ver o amor que ela tinha pela sua profissão. Todas as cartas foram escritas por Camille, em momentos variados de sua vida; e em todos esses pequenos depoimentos, o que se vê é um forte amor à sua profissão. Cartas para Rodin ou sobre Rodin são pouquíssimas!

Era uma mulher apaixonada pela arte de criar, impetuosa, teimosa e bem-humorada. Em diversas cartas, Camille termina com alguma piadinha, mas ao mesmo tempo não tinha papas na língua e se recusava a participar do mainstream.

camille_claudel

Jantares, reuniões, encontros eram negados por ela. E, talvez, esse tenha sido o grande problema de Camille. Ela se recusou a jogar o jogo do sistema da época, a fazer algumas concessões nesse sentido.

Mesmo depois de a doença mental ter se instalado nela, as cartas de Camille, que começam a ficar raras, questionam o trabalho e demonstram um grande medo de tê-lo roubado:

“Senhor Doutor,

Eu lhe peço que conserve esta carta, pois estou escrevendo unicamente para o senhor. O senhor não sabe o quanto me custou essa internação , assim para o senhor  ter uma ideia do motivo do meu desespero e da minha raiva, vou lhe contar o que tinha no meu ateliê, o que agora R. e seus amigos têm em suas mãos:

500 modelos em gessou ou argila que eu não teria vendido por menos de 3000 francos = 500 x 3000 = 15000 francos;

uma dúzia de álbuns contendo 500 desenhos. Cada álbum = 3000 francos. 12 x 3000 = 36 000 francos;

álbuns antigos = 10000 francos;

(…)

Esse é o trabalho de toda uma vida…dos 14 anos até agora.”

"A onda" - Camille Claudel

“A onda” – Camille Claudel

Em 2014, entrei em contato com a sobrinha-neta de Camille e, dentre outros apontamentos, ela destacou o quanto o trabalho de Camille possibilita uma leitura da desigualdade de gênero na arte e das suas consequências. Disse ainda que a artista foi reconhecida em sua época, mas perdeu-se na história para ser resgatada nos anos 1980, com uma biografia chamada “Une femme”. Destacou ainda que a família se incomoda com a representação constante de Camille como uma mulher louca ou desesperada pelo amor de Rodin.

Camille foi uma artista genial. E ouso dizer que seu enlouquecimento não se deve à rejeição de Auguste Rodin, mas a toda a rejeição que ela sofreu por ser uma mulher transgressora num período em que a única ambição da mulher deveria ser se casar e ter filhos.

Para uma artista da classe média francesa, quebrar essa regra só era possível pagando um preço alto. Camille pagou. Ficou enclausurada por 30 anos em um hospício. Nunca mais esculpiu. Em uma de suas cartas, diz:

“Estou na posição de uma couve que é comida pelas lagartas, à medida que brota uma folha, eles a comem.”

20131206camille-claudel-idade-madura

“A idade madura” – Camille Claudel

Um filme que gostei muito foi o Camille Claudel, 1915, com a atriz Juliette Binoche. O roteiro foi baseado em uma carta de Camille para o irmão Paul Claudel. E tem o classicão Camille com a Isabelle Adjani e o Gérard Depardieu, de 1988.

Já o livro eu indico o Camille Claudel – Criação e Loucura, da Liliana Liviano Wahba e o Camille Claudel, uma mulher, da Anne Delbée. Esse último, apesar de fantasiar um pouco a relação da artista com o Rodin, é um bom lugar para começar a entender quem foi Camille Claudel. Eu encontrei os dois no sebo.

Cabe a nós trazermos uma releitura de toda essa história. Quando vir que uma artista foi “amante, filha, esposa” de um outro artista, procure pela história dela. E, se você for escrever sobre, pense se essa informação é necessária; e, se for, pense onde vai colocá-la.

Só assim será possível termos várias histórias.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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