Aonde estão as mulheres na história da arte?

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Quando nos referimos ao fazer artístico histórico ocidental, à “Arte” com “A” maiúsculo, estamos muitas vezes nos referindo somente aos artistas acadêmicos masculinos. A produção criativa realizada por mulheres é sistematicamente classificada como uma arte “menor”, pertencente ao âmbito das artes ditas “decorativas”, ou “artesanato”. Mas por que as mulheres “não conseguem” produzir arte como os homens? Para entender essa dita “inferioridade” intelectual e artística das mulheres artistas, é necessário levar em conta todos os entraves que estas encontravam (e ainda encontram) em sua formação artística.

Por muito tempo foi negado o ingresso das mulheres nas academias de arte, e quando foram finalmente aceitas sua inclusão se deu lentamente e com muitas dificuldades. A Academia Brasileira, por exemplo, só deu a possibilidade de mulheres se matricularem – e, consequentemente, se profissionalizarem – a partir de 1882. A participação em matérias como o desenho de observação de modelo vivo, contudo, ainda era vetada por questões morais – mas a habilidade de desenhar a partir de um modelo vivo era considerada indispensável na formação de um artista acadêmico. Assim, a proibição do acesso aos meios formativos do fazer artístico deixava às mulheres somente a possibilidade de dedicar-se a gêneros de produção vistos como menores, que exigiam menos preparo artístico e intelectual. Até a modernidade, as temáticas de interiores domésticos e objetos inanimados eram o único estilo de pintura considerado “apropriado” para as mulheres. Contudo, a crítica de arte europeia desde o Renascentismo considerava as naturezas mortas inferiores às obras que representavam temáticas mitológicas, bíblicas ou históricas –  “apropriadas” somente para pintores homens.

Os professores também demonstravam, mais ou menos veladamente, sua aversão à “novidade” feminina entre o seu grupo de alunos. Um quadro pintado por Johann Zoffany em 1772, por exemplo, retrata os artistas-fundadores da Royal Academy reunidos ao redor de modelos nus masculinos. Apesar de Mary Moser e Angélica Kauffmann serem membros da academia, estas não estão presentes entre os artistas reunidos casualmente. As encontramos somente como retratos pendurados na parede direita, em um enfático exemplo da exclusão das mulheres do âmbito produtor da arte. O pintor tira as duas mulheres da posição de produtoras de arte e as coloca em seu lugar de direito: junto com os outros objetos de contemplação e inspiração para os artistas homens, legitimando mais uma vez a escola de arte como um espaço masculino no qual não há espaço de fala para as duas mulheres acadêmicas. Inclusive, após a morte das duas artistas-fundadoras, a Royal Academy desestimulou o ingresso de novas mulheres e não convidou outra artista a se filiar até 1922, quando Annie Louisa Swynnerton (1844-1933) se tornou membro.

 

Johann Zoffany. Academicians of the Royal Academy, 1771-1772

Se uma mulher conseguisse superar todos esses desafios e se consolidar como artista, ela ainda tinha que enfrentar outra barreira: garantir o reconhecimento de suas obras como fruto de seu trabalho. Ana Paula Cavalcanti Simioni, autora do livro “Profissão Artista: pintoras e escultoras acadêmicas brasileiras”, afirma que, ao contrário de seus colegas homens, identificados sempre por seus nomes completos, as primeiras alunas do ensino superior de artes não podiam ser nomeadas individualmente, mas somente mencionadas como “grupos de senhoras e moças”. Assim, era muito fácil que ocorresse um processo de apagamento da identidade da artista. Apesar de terem o direito de assistir às aulas, as mulheres ainda não tinham conquistado o direito à autoria.

Com a eclosão do movimento modernista, as mulheres começaram a ganhar espaço como produtoras de conteúdo artístico e cultural. Em seguida, o século XX trouxe mudanças sociais que aumentaram a participação feminina na sociedade como um todo, abrindo lentamente as portas do mercado de trabalho e da política e possibilitando a artistas mulheres ingressarem na vida intelectual e artística. No entanto, estas ainda hoje enfrentam dificuldades para serem reconhecidas nos meios acadêmico e cultural. Como já apontado por Simone de Beauvoir nos longínquos anos 1949, ”a mulher continua a ser ‘o outro’ do sujeito homem”.

 

Para saber mais sobre o assunto:

CHADWICK, Whitney. Women, Art, and Society (World of Art). 4a edição. Editora Thames & Hudson, 1990.

SIMIONI, Ana Paula Cavalcanti. Profissão Artista: pintoras e escultoras acadêmicas brasileiras. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: FAPESP, 2008.

Lidia Ganhito
Lidia Ganhito
Gosta&pesquisa&faz: artes visuais, cinema, ilustração, design, mobilidade, corpo, sexualidade, feminismos, do-it-yourself! Vai escrever aqui sobre artistas mulheres e mulheres artistas.

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