Alice não mora mais aqui

elizabeth vigee lebrun MET
Artistas que você TEM que conhecer: Elisabeth Vigée-Le Brun
outubro 8, 2016
Maria Alice Vergueiro é tema de documentário e homenageada na Mostra de cinema de São Paulo
outubro 20, 2016
Ver tudo

20144787-jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx
Conforme falei no último texto, nesta segunda parte farei a análise do filme Alice não mora mais aqui, de Martin Scorsese.

Alice não mora mais aqui conta a história de Alice (Ellen Burstyn), que no início do filme é uma dona de casa dedicada, que faz o possível para ter uma família feliz. O marido, Donald (Billy Green Bush), que é motorista de caminhão de entrega da Coca-Cola, morre em um acidente, deixando-a sem nada. Ela vende o que pode e parte com o objetivo de chegar a Monterey, sua cidade natal, com o filho Tommy, mas antes ela para em várias cidades em busca de sobrevivência.

Alice não mora mais aqui é um filme de 1974, produzido, lançado e distribuído pela Warner Bros. Foi o quarto filme de Martin Scorsese, o seu primeiro na grande indústria e o único sobre uma mulher, estrelado por Ellen Burstyn, que ganhou o Oscar de melhor atriz pelo filme.

No Digital Versatile Disc (DVD) lançado em 2004, há uma entrevista da atriz que fala sobre como surgiu o filme. Ellen explica que, tendo estrelado com grande sucesso pela Warner o terror O Exorcista, foi convidada pelo estúdio a fazer outro filme, no entanto, em todo roteiro que chegava às suas mãos, as mulheres eram retratadas como “esposa, mãe ou prostituta” e todos contavam histórias sobre homens; mas ela queria fazer um filme que falasse das mudanças que ocorriam naquela década, e queria que fosse feito pela perspectiva da mulher. Ellen queria se sentir representada.

Quando encontrou e se identificou com roteiro de Robert Getchell, havia o problema de escolher o diretor certo. Ellen queria um diretor jovem, novo, excitante. Aparentemente, em nenhum momento ela pensou em uma diretora, talvez algo inexistente naquele momento, tendo sido, por fim, Scorsese indicado pelo Copolla.

A abertura do filme é similar às da época clássica de Hollywood, com uma música de fundo e um plano que mostra os nomes dos atores e diretor. As primeiras cenas são de cenário e lembram o clássico Mágico de Oz – idílico, bucólico, quase onírico. Ela nos mostra Alice criança, em Monterey, com o sonho de se tornar cantora e ser mais famosa e melhor que Alice Feye . Mas logo o plano se fecha e somos literalmente lançados em Socorro, New México, com Alice 27 anos depois. Essa cena inicial nos mostra que não estamos mais no universo fantasioso de uma antiga Hollywood de sonhos e cenários; agora são locações e realidade, a vida tal como ela se apresenta, uma New Hollywood.

E então nesse filme, em que o charme da Hollywood clássica fora abolido, de que maneira a mulher e o homem são representados?
Laura Mulvey fala da questão do olhar, que no cinema tradicional narrativo de Hollywood foi sempre masculino, com o homem sendo o sujeito, e a mulher, o objeto. A mulher até poderia ser o motivo para ação do homem, mas ele era o dono da cena. Mas em Alice, o olhar é da mulher, e esse olhar está voltado não para o homem, mas para dentro de si mesma.

Alice, nas cenas iniciais, é uma dona de casa, que quer ter uma família unida. Ela teme o marido, mas tenta agradá-lo, pois parece acreditar que a felicidade no lar está na felicidade do marido. Em nenhum momento ela o critica ou reclama do matrimônio. No entanto, após a morte do marido, ela está disposta a ter uma nova vida com o filho, e nela não há menção de um novo casamento.

Em uma conversa que tem com a amiga e vizinha Béa (Lelia Goldoni), esta comenta que não viveria sem um homem, enquanto Alice diz que provavelmente preferiria ficar só. Nesse momento a câmera filma Alice de baixo para cima, em meio corpo, fazendo-a parecer maior do que é, dominando o espaço.

As relações entre as mulheres são trabalhadas em forma de apoio, amizade, troca de experiências, fazendo lembrança ao grupo de consciências , comum nesse período.alice-nao-mora-mais-aqui
Uma das mulheres presentes no filme é a já comentada Béa, com quem Alice troca confidências, conta piadas de cunho sexual, fala de sonhos, costura roupas. Béa aparentemente tem uma relação melhor com o marido, mas isso não a impede de falar, quando Alice está indo embora, que ela poderia ir com ela e abandonar tudo.

O primeiro homem com quem Alice irá se relacionar será Ben (Harvey Keitel); ela descobre que ele é casado quando Rita (Lane Bradbury), a esposa, aparece na porta de sua casa. Ela não está ali para pedir satisfação, ou solicitar que Alice se afaste, ela quer apenas que o marido não falte tanto ao emprego, explicando que ela precisa do dinheiro para cuidar do filho. Há entre as duas uma compreensão de que ambas foram enganadas.

A câmera permanece baixa, parada, enquanto elas se olham em um entendimento mudo.

Flor (Diane Ladd), companheira de trabalho na lanchonete onde Alice vai trabalhar em Tucson, depois de sair de Fénix para fugir de Ben, é uma mulher desbocada, vulgar, que inicialmente choca Alice com seu jeito um pouco grosseiro, mas que, assim como Alice, está sozinha cuidando da filha.

Na cena em que Flor, com sua maneira grosseira, diz que uma outra garçonete, Vera (Valeria Curtin), morreu e foi comida por porcos, Alice vira de costas e parece em choque, mas quando ela se volta está gargalhando por causa do comentário. As três garçonetes se abraçam com carinho e cumplicidade. A câmera as coloca em primeiro plano e ao fundo os homens olham, excluídos e admirados.

As mulheres no filme são sempre retratadas com dignidade, luminosidade, pessoas que apesar das dificuldades estão sempre tentando fazer com que a vida funcione. Se houvesse tal classificação, Alice não mora mais aqui seria um filme de autoajuda para aquele período. Naquele momento, as mulheres já tinham ido às ruas, queimado sutiãs, gritado palavras de ordem, mas ainda sofriam preconceitos, e era como se o filme dissesse “vão lá, vocês podem e merecem”.

Os homens não têm o mesmo tratamento carinhoso. São mostrados irritados, violentos, às vezes quase irracionais. A violência contra a mulher aparece tanto de forma velada, como nas ameaças do marido ou em uma briga que Alice ouve acontecendo no hotel, como de forma explícita, na figura de Ben, que inicialmente é mostrado como uma pessoa divertida, persistente, para depois se transformar em um homem violento, que se acha no direito de bater nas mulheres se essas atrapalharem sua vida. E esses momentos de violência de Ben não aparecem como uma exceção, eram a regra. Alice não denuncia Ben, apenas foge assustada com o filho.

As relações entre os homens e as mulheres são conflituosas. Em um teste para cantora, Alice pergunta se havia uma música especial que o dono do bar gostaria de ouvir, e ele cantarola uma canção intitulada Do que adianta se casar?, que tem o seguinte trecho: “nunca deixe uma garota mandar só por causa de carinho e um beijo”– um conselho para se ter atenção às artimanhas amorosas de uma mulher. No início, em uma briga entre o marido e o filho, Donald acusa Alice de ser a principal responsável pelo desrespeito do filho, pois ela também não tinha respeito por ele e a ameaça. Ela, em vez de se defender, xinga a cidade de Socorro, como se a cidade fosse a causa de sua infelicidade, e não o seu relacionamento.

Em outro momento, Alice, cansada de tanta indiferença do marido, vira para o lado da cama e chora. Nesse momento a câmera dá um close no rosto do marido, que também parece sofrer com aquela situação; talvez ele não saiba agir de outra forma, um homem talvez não possa demonstrar sensibilidade.

Outro ponto a ser destacado, por fazer parte das discussões que ocorriam no período, é o da sexualidade. No filme, ela é discutida sem tabus, fala-se da relação que pode haver entre o número do sapato e o tamanho do pênis, e sobre a possibilidade de se ter vários amantes, e quando Alice e David (Kris Kristofferson), seu namorado na última parte do filme, ficam juntos pela primeira vez, ela é quem toma a iniciativa. Na cena em que eles se beijam, o olhar dela reflete o desejo por ele, assumindo claramente a sua vontade.
20144785-jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx
Alice e David seriam o casal romântico da narrativa tradicional, e que adotam algumas atitudes tradicionais. Na primeira vez na casa dele, enquanto ele e Tommy tocam violão, Alice lava a louça. Depois, na ida para casa, ela acende o cigarro para ele, no entanto eles são mais próximos do que ela era com marido, um ouve o outro, se tratam como iguais, a câmera sempre os mostra no mesmo nível.

Na parte final do filme, há uma briga de David com Tommy, David bate nele e Alice defende Tommy questionando qual o poder que David teria para usar de violência, provocando uma briga entre o casal. No outro dia, Alice, triste por causa da briga, tem uma conversa com Flor sobre o que ela quer. Nessa conversa, Alice admite que, apesar de ter muito medo de Donald, ela sentia que ele cuidava dela só pelo fato de ele estar lá e ser homem, e que talvez ela não saiba viver sem a figura masculina; então Flor diz que ela é bonita, tem uma profissão e um talento que é cantar, que é muito mais que do que ela, Flor, tem, mas que nem por isso ela desiste da luta. Alice toma consciência que é a vida dela, como mulher, que está em jogo, não a de um homem.

Flor pergunta “mas o que você quer?” e ouve a resposta:

“se eu soubesse não estaria chorando no banheiro”

Então Flor comenta sobre um colar que está em seu pescoço e que ela fez com alfinete de fraldas; ele a ajudava a se lembrar de seus objetivos e manter a sanidade. E diz que a primeira coisa que Alice tinha que descobrir era o que ela queria, e que assim que soubesse deveria mergulhar de cabeça e “deixar que o diabo se estrepe”.

Na cena seguinte, David aparece na lanchonete e Alice quer fugir, mas é impedida por Flor, que manda que ela tome uma atitude, que diga que as regras são ditadas por ela, caso eles queiram continuar. Ele fala que quer voltar, que ela e Tommy devem ir morar com ele, que ele sabe que as coisas têm que ser diferentes, mas Alice fica apenas olhando para ele, sem tomar atitude, de maneira submissa e sempre respondendo com voz baixa.

Ele diz a ela “por favor”, ela abaixa a cabeça e volta para o trabalho sem responder. Ele se levanta e vira-se para ir embora, mas retorna e grita “Droga, Alice, eu disse por favor”. Isso acende uma chama no olhar de Alice, o que a faz responder “É, grande coisa”, com deboche. Ele pergunta o que ela quer, e a resposta é: “Eu sou uma cantora, e tudo que eu fizer de agora em diante terá que envolver isso”. Ele pergunta se ela canta bem, e ouve “eu canto tão bem quanto eu canto. É assim que eu canto”. Ele fala que não parece haver segurança financeira no que ela quer, e Alice reafirma que não importa a segurança, mas o que ela quer. Ele pergunta se isso que ela procura só pode ser encontrado em Monterey, ou se poderia ser feliz ali, e ouve que ninguém iria impedi-la de ser feliz dessa vez. Então ele fala que se a felicidade dela está em Monterey, ele iria levá-la, abandonaria tudo por ela; então eles se beijam ao som dos aplausos de todos na lanchonete.

Este quase final, pois o filme ainda não acaba, é um contrassenso, como se o filme desse um retrocesso para os finais tradicionais dos filmes clássicos, e tudo que Alice viveu até ali, a descoberta da sua própria força, a capacidade da vitória sozinha, servissem apenas para ter um final feliz com um homem. Na entrevista dada pela atriz, ela conta que o final planejado para o filme seria Alice e o filho chegando a Monterey sozinhos, mas a Warner Bros. não aceitou; uma mulher ainda não poderia acabar sozinha. Segundo ela, as palmas que se ouve nessa cena são uma forma de protesto, pois tiram a veracidade da cena.

monterey
Devido ao conflito gerado pela exigência do estúdio, o diretor e o roteirista acataram a sugestão do ator Kris Kristofferson de que, em vez de Alice largar tudo para ficar com o homem, seria ele que poderia largar sua fazenda para ir com Alice para onde ela quisesse. E, para subverter o final, antes dos créditos finais não vemos Alice e David juntos como casal feliz, mas Alice e Tommy que, andando em uma estrada, conversam sobre o futuro. Alice fala sobre a possibilidade de não irem para Monterey, momento em que Tommy concorda, pois ele tinha feito amigos e queria ficar, e diz que ela poderia ser uma cantora em qualquer lugar, desde que não desistisse de seus sonhos e do seu recente poder. Então eles caminham em direção a um bar em que está escrito Monterey.

Esse final mostra mais um ponto muito importante do filme, a questão da maternagem. A relação de Alice com o filho é algo singular. Eles, mais que mãe e filho, são portos seguros um do outro, é Tommy quem fornece a Alice o motivo para ela alcançar um sonho. A maternagem é mostrada aqui como algo que torna as mulheres fortes, pois quase todas as mulheres em Alice são mães que lutam para darem a seus filhos uma vida melhor.

A paternagem não é vista de maneira tão natural, Ben e David renegaram seus filhos, e Donald é um pai rígido e sem amor. Alice e Tommy lutam contra a opressão desse pai, que exige um respeito baseado no fato de ele ser o homem da família. A questão do poder patriarcal é sutilmente mostrada em uma cena na hora do jantar em que o cinto do pai fica em cima da mesa, como uma ameaça de violência e poder.luchshie-filmyi-v-retsenziyah-alisa-zdes-bolshe-ne-zhivyot-alice-doesn-t-live-here-anymore-1974-1-600x400
Tommy é um personagem instigante, pré-adolescente, inteligente, agitado, às vezes um pouco irritante, e percebe-se que não há identificação entre ele e o pai. Em um jantar, o pai pede que ele faça a oração da família, que normalmente é feita por ele, mas Tommy se nega, significando a recusa dos valores do pai. Tommy também não parece sentir ciúme da mãe, pois pergunta naturalmente se ele teria que chamar o namorado da mãe de tio, ou sobre a vida sexual dela. O seu único conflito com David é quando este o obriga a tomar uma atitude que ele não concorda, lutando por sua individualidade. Ele tem uma única amiga em Tucson, Andrey (Jodie Foster), que na verdade se chama Dóris, mas ela sente desprezo por esse nome. Uma menina andrógina, atrevida, revoltada e desbocada, que o instiga a ter atitudes não convencionais, como roubar corda para violão e beber vinho. Seriam eles a esperança do futuro? Serão os adultos que renegarão os marcadores de gênero?

Alice não mora mais aqui fala sobre o empoderamento da mulher, pois a Alice que não mora mais aqui é a Alice submissa, com medo, enquanto a Alice que agora habita aquele corpo, pode até não saber o que quer, mas sabe o que não quer, e sabe da força que possui para chegar a qualquer lugar.

Lia Mendes
Lia Mendes
Especialista em História Sociedade e Cultura pela PUC, estuda o feminismo, corpo e sexualidade e suas relações com as mídias audiovisuais. Professora do ensino fundamental e médio da rede particular da cidade de São Paulo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *