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refugiadas-mulheres-e1453982005747A foto acima é do site Pragmatismo Político do dia 20 de janeiro de 2016 mostra uma mãe refugiada com sua filha no colo, ambas com expressão de tristeza e desespero. A reportagem é sobre as denúncias de chantagem sexual sofrida pelas refugiadas nos países europeus para conseguirem o visto para si e suas famílias.1

Na mesma reportagem, há um alerta da Acnur, órgão da ONU para refugiados, destacando os graves riscos que mulheres em deslocamentos têm sofrido. E não apenas as desacompanhadas, as que viajam com a família também sofrem alguma forma de violência, sexual ou de gênero, e não importa a idade, todas correm o risco de serem seviciadas.

Mais notícias relatam as violências ocorridas em locais em guerra civil ou com facções paramilitares ou milícias. Casos emblemáticos foram o sequestro de 200 jovens pela milícia nigeriana Boko Haram e os feminicídios da cidade de Juarez, no México. O estupro ou assassinatos são muitas vezes o motivo de as mulheres fugirem de seus países e buscarem refúgios em outros.

A violência sempre foi usada como forma de controle, o corpo da mulher é território do homem, território que ele pode ocupar e utilizar. Como escreve Tania Navarro Swain2, “o controle do corpo das mulheres e da procriação é um dos mecanismos de sujeição, uma das tecnologias de gênero, que produzem a hierarquia e a assimetria política entre sexos…”. Somos, ainda segundo o mesmo texto de Swain3, “seres humanos convertidos em orifícios, a serem penetrados e usados, essas vidas que não importam”.

Segato4, em seu texto “Las nuevas formas de la guerra y el corpo de las mujeres”, descreve como as várias formas de guerra, convencionais ou não, utilizam o corpo da mulher como espólio de guerra. Como escreve Audoin-Rouzeau5, “tudo acontece como se tomar a força o corpo das mulheres do inimigo significasse apoderar-se do próprio inimigo”.

Nas guerras não convencionais6, que são as que mais ocorrem na nossa atualidade, o corpo da mulher virou palco do poder, pois, como escreve Segato7, no mesmo texto, “la agresión sexual pasa a ocupar una posición central como arma de guerra productora de crueldad y letalidad, dentro de una forma de daño letal que es simultáneamente material y moral”. Ou seja, a mulher é o território ocupado, e sua ocupação é o fim moral do inimigo.

MulheresSiria

imagem retirada do site http://diariodigital.sapo.pt/reportagem sobre violência contra mulher na Síria.

A história do corpo da mulher como uma forma de prêmio pertence à história mundial. Ao invadir Troia, os gregos atiçam a fúria de Atena ao estuprarem Cassandra no templo da Deusa; os romanos tomavam as mulheres dos reis vencidos como escravas e amantes; os vikings eram temidos por suas pilhagens e estupros coletivos. Mas é principalmente no século 20 que a violação de mulheres adquire com mais ênfase uma faceta, a da limpeza étnica, muito usada nas guerras dos Balcãs.

Logo, convém refletirmos na naturalização da violência de gênero e entender que sua persistência é fruto de uma tradição antiga, talvez explicada pelo imaginário que coloca a mulher como símbolo da maldade e da fraqueza que a humanidade carrega. Fonseca8, no livro “Bestiário e discurso de gênero no descobrimento da América e na colonização do Brasil”, vai escrever sobre a analogia entre os animais descritos nos bestiários e suas características consideradas femininas. Essa relação serve para contrapor o lado animal da mulher ao racional do homem.

Para a mitologia judaica, há duas mulheres criadas inicialmente: a primeira, Lilith, criada junto com o homem (Gênesis, 1: 26-27); e Eva, criada a partir do homem (Gênesis, 2: 21-24). Ambas de alguma maneira desobedecem: Lilith, a supremacia masculina, e Eva, a proibição de comer o fruto do saber. Ambas degeneram a espécie e tornam-se a fonte de todo mal, e o temor do mal é, então, combatido com a opressão.

Os pensadores gregos, como grandes criadores da filosofia e interessados na lógica da vida e das relações entres os seres, instituem todos uma verdade científica em que o corpo feminino era posto como inferior ao masculino. A mulher é um ser feito para reprodução, um campo a ser semeado, sendo o homem o semeador; uma mulher sem um homem seria um ser sem função. Aristóteles, o filosofo que mais influenciou a cultura medieval, considerou a mulher um ser débil, fraco, possuindo um cérebro menor, portanto que não teria a mesma capacidade de raciocínio. O homem é o criador da ordem, e a mulher está fora dessa ordem.

Ainda de acordo com Fonseca9, na Idade Média “a história da misoginia e sua correlação femifóbica se apresentavam na mentalidade e na cultura ocidentais, não só como uma construção herdada da antiguidade clássica, mas também e principalmente como uma formação do pensamento judaico-cristão”. George Duby10, em “Eva e os Padres”, descreve todo um discurso da igreja católica para transformar a mulher em um ser cheio de luxúria, egoísmo, o ser que surgiu para tirar o sossego do homem, um ser abjeto, cuja única função digna é procriar.

A mulher, por sua fraqueza, tem que se dispor ao homem, ser cuidada, protegida de si mesma e de sua capacidade de luxúria. Essa proteção inicialmente pertence à família e ao estado, e depois ao marido e ainda ao estado. E sua desgraça é também a desgraça de todos, de todos que não puderam zelar por ela, de todos que não conseguiram vigiar, prender, admoestar. Logo, o corpo da mulher não pertence a ela, mas a quem zela por ela.

Retornando para as refugiadas chantageadas, reflito que muitos devem ter o seguinte pensamento: estas pessoas que chegam buscando abrigo estão invadindo meu país, logo, se não é possível invadir de maneira mais profícua o deles, pois invadidos eles sempre foram, vamos invadir o corpo de suas mulheres, vamos deixar nossas marcas, vamos dizer que elas também são nossas. E assim, além do medo, da fome, haverá uma humilhação a mais, a humilhação de não poderem cuidar de suas mulheres como deveriam.

E, quando a profanação é realizada por seus conterrâneos ou homens em dificuldades similares, assédio que muitas vezes ocorre nos abrigos dos refugiados, a motivação pode estar neste corpo/território sem dono, que necessita ser ocupado.

Termino o texto com uma citação:

Dimensão maior da história das relações entre sexos, a dominação dos homens sobre as mulheres, relações de forças desiguais, expressa-se frequentemente pela violência. O processo de civilização a fez recuar sem aboli-la, tornando-a mais sutil e mais simbólica. Subsistem, entretanto, grandes explosões de uma violência direita e sem dissimulação, sempre pronta a ressurgir com tranquila segurança do direito de poder dispor livremente do corpo do Outro, este corpo que lhe pertence.”11

2 [CITATION Swa15 \p 390 \l 1046]

3 [CITATION Swa15 \p 389 \l 1046]

4 [CITATION Seg14 \l 1046]

5 [CITATION Aud11 \p 402 \l 1046]

6 Guerras não convencionas são as realizadas não entre estados, mas as guerras internas, entre facções do crime organizado, nas repressões policiais, ditaduras.

7 [CITATION Seg14 \p 342 \l 1046]

8 [CITATION Fon11 \l 1046]

9 [CITATION Fon11 \p 79 \l 1046]

10 [CITATION Duy01 \l 1046]

11 [CITATION Per05 \p 454 \l 1046]

Bibliografia

Audoin-Rouzeau. (2011). Massacres o corpo e a guerra. Em A. C.-J. Corbin, História do Corpo AS mutações do olhar. O século XX. Petropólis: Vozes.

Colling, Ana Maria. A invenção do corpo feminino pelos gregos e a violência contra a mulher.

Duby, G. (2001). Eva e os Padres. São Paulo: Companhia das Letras.

Fonseca, P. C. (2011). Bestiário e discurso do gênero no descobrimento da América e na colonização do Brasil. Bauru: Edusc.

Martins, N. S. (s.d.). A maldição das filhas de Eva: uma história da culpa repressão ao feminino na cultura judaico-cristã.

Martins, Nereida, S. A maldição das filhas de Eva: uma história de culpa e repressão ao feminino na cultua judaico-cristã.

Perrot, M. (2005). Corpos Subjugados. Em M. Perrot, As mulheres ou o silêncio da história. Bauru: Edusc.

Segato, R. L. (maio/agosto de 2014). Las nueavas formas de la guerra y el cuerpo da leas mujeres. Sociedade e estado.

Swain, T. N. (2015). Todo homem é mortal. Ora, as mulheresnão são homens, logo, são imortais. Em V.-N. A. Rago.M, Para uma vida não fascista. Belo Horizonte: Autêntica Editora.

Lia Mendes
Lia Mendes
Especialista em História Sociedade e Cultura pela PUC, estuda o feminismo, corpo e sexualidade e suas relações com as mídias audiovisuais. Professora do ensino fundamental e médio da rede particular da cidade de São Paulo.

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