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A quem o mito do amor materno serve?

“Será o amor materno um instinto, uma tendência feminina inata, ou depende, em grande parte de um comportamento social, variável de acordo com a época e os costumes?” É com esses questionamentos que se inicia a sinopse do livro “Um amor conquistado: o mito do amor materno” da filósofa francesa Elisabeth Badinter. É um livro que mergulha na história da sociedade para trazer luz a tantas questões que as mulheres ainda se angustiam em responder e satisfazer.

O amor que sentimos pelo nosso filho é automático? Esse é o tema central do livro, e apesar de estarmos mais de 30 anos após a sua publicação ainda é um assunto com muita relevância e pouco discutido até mesmo entre as mulheres. Quantas mulheres não sofrem por não se ligarem, não se identificarem de imediato com seus bebês? O questionamento hoje não é apenas se uma mulher deve ser mãe, mas também como essa mulher deve praticar sua maternidade, o quanto a mulher precisa abdicar, se restringir para ser então considerada uma boa mãe.

Um tema corrente e que circula bastante pelas propagandas do governo e em textos na internet é a amamentação. Há diversas discussões nas redes sociais dizendo, rotulando e conceituando que amamentar é um indicador do quanto boa  mãe é a mulher. Muitas vezes não se levando em conta se a mulher tem condições físicas e/ou emocionais para essa ação, e julgando quando é por uma simples escolha o fato de não amamentarem.

A mulher não é apenas mãe, ela é parte importante da criação e evolução da sociedade. A culpa gerada pelos assuntos levantados serve para tentar restringir o papel da mulher apenas para a reclusão dos cuidados domésticos e a criação de filhos. Para as mulheres que preferem o caminho de ser mãe em tempo integral, que essa escolha seja sempre feita genuinamente por si própria. Que nenhum conceito nos defina e muito menos nos aprisione.

Elisabeth crê que ao lançar esse livro nos 80, pode de alguma forma contribuir para desculpabilizar muitas mulheres da sua geração que se sentiam angustiadas ao se depararem com a escolha entre cuidar exclusivamente do filho e buscar uma independência financeira e/ou emocional. Não é uma leitura fácil, mas extremamente enriquecedora. E muito mais que respostas, a leitura nos faz pensar e questionar sobre todos os padrões que são estabelecidos e impostos às mulheres.

O questionamento é imprescindível para que a sociedade possa encontrar uma forma mais saudável para tratar os assuntos da maternidade. E principalmente para que as mulheres não se sintam culpadas optando ser mãe ou não. Que sejam livres para decidirem que tipo de mãe elas querem ser, e não precisem seguir conceitos e padrões estabelecidos por terceiros. Que seja uma escolha feita por vontade própria e livre de qualquer tabu imposto por um sistema.

Elisabeth Badinter

Elisabeth Badinter é escritora e filósofa francesa, nascida perto do final da segunda guerra mundial (1944). Casou aos 22 anos com Robert Badinter, e são considerados uma das famílias mais ricas da França. Entrou para o movimento de liberação feminina nos anos 70 e tem diversos livros publicados sobre esse tema. Feminista e questionadora sobre a visão da maternidade na sociedade teve três filhos e se considera uma mãe comum.

Para quem quer aprofundar nesse assunto e nesses questionamentos, é bem interessante fazer também a leitura de “O conflito: a mulher e a mãe” que foi publicado em 2010 e aborda assuntos mais atuais que a mulheres enfrentam acerca da maternidade. Se em “Um amor conquistado” Elisabeth relata a formação do sentimento e dever materno como o conhecemos hoje, no livro mais atual o tema é sobre os conflitos que a aceitação desse conceito de maternidade trouxe para as mulheres.

Juliana Lacerda – É colaboradora do site Las Abuelitas

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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