A primavera, o verão, o inverno e o outono das mulheres

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O ano de 2015 foi de muita novidade e tumulto, mas o que mais chamou atenção foi o movimento das mulheres.

Elas foram para a rua protestar contra a lei que suprimia ainda mais o direito ao próprio corpo, começaram a aparecer nos veículos de massa: revistas, canais de TV, sites, e dominaram a internet com as hashtags “primeiro assédio” e “meu amigo secreto”.

Imagem do monólogo "The other Mozart" da diretora e atriz Sylvia Milo

Imagem do monólogo “The other Mozart” da diretora e atriz Sylvia Milo

O feminismo começou a ganhar cara, de forma tímida, nos anos 70, em plena ditadura militar, o que fez com que o movimento fosse “tímido”: o país inteiro em censura, como levantar uma bandeira específica para as mulheres? Nos anos 80, o movimento ganhou força e continuou.

As mulheres estão cansadas com tantas restrições. A luta não é para diminuir os homens e tomar os seus lugares. A luta é por igualdade, afinal, não deveria ser normal a mulher não ter a mesma liberdade que o homem de ir e vir, por exemplo.

Felizmente, muitas mulheres estão se destacando na sua militância, e o debate tem sido instaurado.

Este texto traz como questionamento o lugar profissional da mulher no campo das artes. Temos igualdade? Não. Infelizmente o machismo existe e limita a atuação das mulheres nas profissões artísticas.

É só lembrarmos do episódio envolvendo a diretora Anna Muylaert e os diretores Lírio Ferreira e Cláudio de Assis, em Recife. A diretora foi desrespeitada em um debate na Fundação Joaquim Nabuco pelos colegas diretores. Após estragarem o debate proferindo frases machistas contra a diretora, a obra e a atriz protagonista do filme (Regina Casé), os cineastas se desculparam alegando estarem bêbados.

Imagem do filme "Que horas ela Volta?", da Diretora Anna Muylaert

Imagem do filme “Que horas ela Volta?”, da Diretora Anna Muylaert

Embriagados ou não, a atitude desses diretores revela como a posição da mulher artista ainda é bastante complicada. Primeiro, nos faltam referências. Não aprendemos sobre elas nas escolas, não as encontramos com facilidade nas cinematecas, nos livros de história e, até mesmo, em pesquisas na internet. É como se não existissem! Somente quando aprofundamos a pesquisa é que começa a sair da sombra o trabalho brilhante dessas mulheres.

O fato é que nos falta espaço! Como dito pela historiadora Michelle Perrot “a mulher pode representar, não criar”. Ainda sim, atrizes e cantoras têm bastante dificuldade para ingressar no mercado de trabalho, que é exigente com as mulheres. É necessário ter o corpo certo, o cabelo certo, a voz certa.

Uma vez dentro da área, elas também sofrem assédios. A diretora do filme “Elena”, Petra Costa, contou em uma reportagem à Folha de São Paulo, que sua irmã Elena, que foi para Nova York tentar ser atriz, e se suicidou, sofreu assédio de um famoso diretor de teatro, com quem trabalhava, quando tinha 15 anos.

Os salários, não podemos esquecer, são inferiores ao dos homens. Até em Hollywood, cidade do cinema! E o descrédito? As mulheres que se colocam, muitas vezes, são acusadas de histeria ou de estarem na TPM, o que também desqualifica esse período da mulher.

Como a escritora Virginia Woolf levantou lá nos anos 20, a mulher que quer escrever precisa primeiro provar que pode, e ai se contamina com essa raiva. Eu ouso estender essa afirmação para todas as áreas.

Você já se questionou por que, em algumas funções, vemos muitas mulheres e em outras, pouquíssimas? Esse questionamento deve ser feito. Temos que olhar lá para trás e vermos que nossa expressão artística e vontade estão sendo limitadas por sermos mulheres.

O sexo biológico não define a aptidão e o gosto de uma pessoa. O que define é a cultura, o meio em que se vive. Você sabia que o Mozart tinha uma irmã, bastante talentosa e que também compunha? Se sabia, possivelmente foi por conta de uma reportagem do “BrasilPost” que andou correndo pelo facebook.

Essa falta de conhecimento, essa supressão da história, nos limita ainda mais: cadê nossas referências? A menina que sonha em ser maestrina vai se espelhar em quem? E a garota que quer ser diretora? Ou a que quer trabalhar com fotografia para cinema?

Imagem do filme Elena, diretora Petra Costa

Imagem do filme Elena, diretora Petra Costa

Outro fato curioso, e que foi levantando pela Datafolha, em uma pesquisa encomendada pela Consultoria “JLeiva Cultura & Esporte”, é que as mulheres têm mais interesse do que os homens em atividades culturais, mas frequentam menos essas atividades do que eles.

Isso se dá graças à dupla jornada da mulher, que além de trabalhar fora, também fica encarregada de todo o trabalho doméstico. Soma-se a isso a questão da maternidade, cuja demanda recai bem mais sobre as mulheres. A pesquisa apontou que apesar da paternidade interferir no cotidiano dos homens, o nascimento dos filhos acarreta uma diminuição muito maior da frequência feminina aos programas culturais. O espaço público (aqui considerado fora de casa) não está preparado para receber essa mulher que é responsável pelo filho.

Por fim, tem ainda o medo de ir a alguns lugares sozinha (frequência a shows – 50 % entre os homens e 43 % entre as mulheres). Contudo, as atividades culturais em que a frequência feminina é maior que a masculina são as que acontecem em ambiente privado: leitura, assistir filmes na TV e ouvir música. Se para consumir cultura é difícil para mulher, como é para ela criar?

Quando defendemos e destacamos a importância das mulheres artistas, não estamos diminuindo o espaço dos homens artistas. Quando permitimos que as mulheres e outros personagens excluídos possam ter espaço para se expressarem e se destacarem, outras formas de representar e interpretar um determinado momento histórico, uma cultura ou uma situação são compartilhadas. Isso é diversidade cultural e todos temos a ganhar com ela.

Agora, estamos vivendo um ano inteiro de reivindicações femininas. É a primavera, o verão, o inverno e o outono das mulheres!

Texto originalmente publicado na Revista Obvious

 

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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