A poesia falada – e ousada – de Denice Frohman

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A poesia falada – e ousada – de Denice Frohman

No meu primeiro texto como colaboradora do Las Abuelitas, expliquei que vou trabalhar o tema da homossexualidade feminina e pedi a vocês, leitoras, que me indicassem artistas lésbicas interessantes para que eu divulgasse aqui. Naquela mesma semana, já iniciei a pesquisa para o segundo texto, e estava com uma opção na manga quando recebi uma indicação, de uma amiga e leitora muito especial, que me encantou tanto, mas TANTO, que tive que torná-la a primeira opção. Denice Frohman é o nome da “fura-fila” – e ao final do texto vocês verão se eu tinha ou não razão em privilegiá-la.

O melhor de Denice começa com seu histórico familiar. Filha de pai judeu e mãe porto-riquenha, nasceu e foi criada em New York City, e desde muito cedo assumiu-se lésbica – o que foi desafiador para ambas as culturas. Cursou Pedagogia na Drexel University da Philadelphia e inicialmente trabalhou como diretora de programa do Philly Youth Poetry Movement, uma entidade criativa sem fins lucrativos. Mas foi além, mergulhou fundo nas letras e nas artes. Hoje, aos 31 anos, além de educadora, é escritora, poetiza, letrista, oradora. E resolveu juntar tudo isso em uma única arte: a spoken poetry – ou poesia falada (mas, convenhamos, fica bem mais bonito com o nome original!).

Em suas apresentações, feitas em centros culturais, bares, teatros e até no meio da rua, Denice mune-se de um microfone e simplesmente fala. Fala lindamente, recita textos tão cheios de emoção que parecem brotar de suas profundezas. E na verdade brotam. Além de mulher, lésbica e multicultural, Denice é ousada, focada em mudanças sociais e quer dar fim às barreiras que nos dividem como humanos. E usa para isso palavras poderosas transformadas em arte. Em suas poesias faladas, questiona o preconceito contra os gays, o desprezo pelo sotaque de sua mãe, a pobreza ignorada nas ruas, a segmentação da mulher, a falta de acolhimento com os imigrantes.

Denice Frohman

Com suas narrativas tão bem narradas (com o perdão do pleonasmo!), encoraja as comunidades a desafiarem as construções sociais dominantes e as narrativas opressivas que atualmente estão trabalhando contra os conceitos de unidade e equidade. Um de seus textos mais famosos é “Dear Straight People”, um poema em que ela se dirige aos heterossexuais preconceituosos que não aceitam o seu relacionamento com a sua namorada. Com ele, Denice ganhou em 2013 o primeiro prêmio no Women of the World Poetry Slam – um campeonato de spoken poetry que acontece anualmente nos EUA desde 2008 e do qual participam mulheres artistas do mundo todo. Aqui, deixo um trecho impactante dessa obra:

“Queridos héteros, quem vocês pensam que são? Vocês precisam deixar tão claro que eu deixo vocês desconfortáveis? Por que eu os deixo desconfortáveis? Sabia que isso me deixa desconfortável? Agora estamos todos desconfortáveis!
Queridos héteros, vocês são a razão pela qual nós ficamos no armário. Vocês são a razão pela qual precisamos ter um armário, em primeiro lugar. E eu não gosto de armários, mas vocês tornaram a sala de estar um espaço não-compartilhado, e agora estou me sentindo como uma convidada em minha própria casa.
(…)
Queridos héteros, por que eu preciso provar que o meu amor é autêntico? Por que vocês precisam ficar me encarando quando estou de mãos dadas com a minha namorada como se eu estivesse prestes a roubá-los?
(…)
Queridos héteros bullies, vocês estão certos: eu e vocês não temos os mesmos valores. Vocês matam tudo o que é diferente, eu preservo.
(…)
Querida jovem lésbica, eu vejo você! Você não quer que ninguém a veja, então você muda os pronomes nos seus poemas de amor para “dele”, em vez de “dela”. Eu costumava fazer isso…
(…)
Queridos héteros, beijar minha namorada em público sem antes ter que olhar e observar quem está por perto é um luxo de que eu ainda não posso desfrutar completamente.”

Se você leu o trecho acima e gostou, vou deixar mais abaixo o link do vídeo para você assistir – porque, afinal, a poesia falada não fica completa se for lida em vez de ouvida 😉 . Se você leu e NÃO gostou, posso te pedir para assistir o vídeo mesmo assim? Porque a interpretação, a forma de falar, a colocação de cada palavra, cada pontuação e pausa e, principalmente, a emoção que transborda de Denice ao recitar seus textos é o que a torna uma artista tão especial. Seu trabalho é sobre identidade, e sua mensagem principal, em qualquer que seja o tema de suas poesias, é uma só: a necessidade de reivindicar o poder de ser quem você é.

Uma verdadeira feminista que se apoderou da arte para fazer o que todas nós, mulheres, mais queremos: tornar o mundo um lugar melhor e igualitário para tod@s!

 Lá no site é possível ver vários outros vídeos impactantes, como “Abuela”, em que ela homenageia sua avó, e “Accents”, outro poema incrível, no qual questiona o preconceito dos norte-americanos com o sotaque latino.

Julie Anne Caldas
Julie Anne Caldas
Jornalista por formação, passei por redações dos mais diversos temas. Escrevi para revistas de gastronomia e política, redigi para publicações de saúde e de economia, trabalhei na TV como repórter de variedade e no rádio como repórter esportiva. Depois, enveredei para o lado das letras, dedicando-me à edição e revisão de textos. Hoje sou proprietária da TopTexto (www.toptexto.com.br), empresa que faz a revisão de todos os textos aqui do Las Abuelitas. Amante das letras, da comunicação e, principalmente de pessoas, adoro escrever sobre quase tudo, especialmente se der para polemizar. E foi o que a Pri me convidou para fazer aqui: todos os meses, trazer o tema da homossexualidade feminina expressa no mundo das artes.

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