A objetificação da mulher na arte

Muitas mudanças aconteceram para as mulheres nos séculos XX e XXI, mas, ainda assim, nós estamos nas ruas brigando e exigindo sermos ouvidas.

Por conta disso, nos acusam de “mimimi”, de possuirmos desejos de destruir a família, de politicamente corretas.

De fato, queremos desconstruir a sociedade em que vivemos, que é patriarcal e hostil com as mulheres.

Já está mais do que sabido que ainda temos dupla jornada, que ganhamos menos, que temos mais dificuldades de chegarmos a cargos de chefia e direção, que não temos segurança nos espaços públicos e que ainda não somos representadas na nossa diversidade.

Pelo olhar da mídia, por exemplo, somos todas brancas, de cabelo liso, magras, sem manchas no corpo, sem celulite ou estrias, felizes por servirmos a um homem. Somos representadas assim na mídia e até nas artes.

Parece que a nós, mulheres, cabem dois papéis: o da mãe e o da “puta”. E isso está intimamente ligado à objetificação do nosso corpo.

Mas o que isso significa?

Objetificação é o ato de tratar algo como objeto.

Fazendo um recorte da representação da mulher na arte, isso fica muito claro para nós.

Vou pegar duas expressões artísticas: as artes plásticas e o cinema.

Nos anos 1980, um grupo de artistas americanas se uniram e criaram uma sociedade anônima chamada “Guerrilla Girls“. O anônimo aqui se dá pela ausência de identidade declarada, já que as artistas usam máscaras de gorilas e se denominam com nomes de grandes artistas já falecidas.

O grupo promove performances para denunciar a ausência de mulheres artistas nos museus e a objetificação dos nossos corpos nas artes expostas.

Um pôster do grupo ficou muito famoso. Nele, elas diziam:

“Você sabia que menos de 5% dos artistas expostos na sessão de arte moderna do MET são mulheres, mas que 85% dos nus são femininos?”

Do Women Have To Be Naked To Get Into the Met. Museum? 1989 Guerrilla Girls null Purchased 2003 http://www.tate.org.uk/art/work/P78793

Esse pôster me faz lembrar um caso recente que aconteceu na Inglaterra. A artista inglesa Leena McCall teve uma obra retirada de uma exposição na “Mall Galeries”, pois os frequentadores a consideraram indecente. Tratava-se de uma mulher forte, fumando cachimbo, com a calça aberta, expondo seus pelos pubianos.

Parafraseando a página “Galãs feios”, porque a Leena McCall pode ser considerada pornográfica e o Gustave Courbet não?

Ms Ruby May, standing

Courbet pintou a “Origem do Mundo”, que hoje está exposta no Museu D’Orsay, e possivelmente nunca mandaram tirar a tela por ser considerada indecente. E vejam: trata-se de um close ginecológico.

“A origem do mundo”, Gustave Courbet

Em 2012 eu fiz uma pesquisa em alguns museus de São Paulo para verificar os números de quadros de mulheres artistas expostos. Naquela ocasião, não me preocupei com a questão de curadoria, mas somente a de levantar números e começar a pensar em indicativos, algo que não temos por aqui.

O que encontrei foi: até 2008, o acervo do Masp contava com aproximadamente 380 obras de homens artistas e 28 obras de artistas mulheres. A Fundação Bienal de São Paulo também disponibilizou a lista dos artistas que expuseram nas últimas bienais. Foi constatado que, na Bienal de 2010, de um total de 163 artistas (contando coletivos), 101 eram homens e 47 mulheres (nessa contagem os coletivos não entraram); em 2008, dos 41 artistas, 24 eram homens e 11 eram mulheres; em 2006, dos 109 artistas, 59 eram homens e 37 eram mulheres. No MUBE, de acordo com o site do Museu, que traz todas as exposições realizadas entre 2009 e 2011, contabilizamos 18 exposições solo de homens artistas e seis de mulheres artistas. Por fim, em pesquisa no site do Instituto Tomie Othake, verificamos que, entre 2005 e 2011, foram realizadas 51 exposições solo de artistas homens e 15 de mulheres artistas, sendo seis da própria Tomie Othake.

Esses números podem nos dar a impressão de que as mulheres não criaram ou que possuem uma produção muito aquém dos homens. Mas, como denunciou o Museu Nacional de Mulheres Artistas, em Washington, muitas obras de mulheres estavam trancadas nos porões do museu, na chamada reserva.

E não é diferente em outros lugares do mundo. As estudiosas francesas e brasileiras já levantaram o mesmo problema em seus países.

Com esse breve panorama, podemos verificar que a objetificação da mulher também está dentro dos museus. E qual o problema disso?

O problema é que destacamos, também dentro desses espaços, que a mulher é um ser passivo, que tem seu corpo moldado para agradar o homem. Ela não é destacada como um ser ativo, que cria. A professora francesa Michelle Perrot já disse que o ato de criar é um ato divino, pois dá vida a algo que antes não tinha. Às mulheres não é permitido chegar tão perto de Deus.

Outro ponto que temos que trazer é o fato de não termos representatividade para as mulheres. Se eu, menina, quero me tornar uma pintora, em quem vou me espelhar? Quando eu olhar para a história da arte, verei nomes masculinos, verei que as mulheres não podiam estudar o nu e, por isso, ficavam com a arte dita “menor”, o retrato e a natureza morta. Onde estará meu espelho?

Se eu entro num museu e só vejo mulheres nuas, e que seguem certos critérios estéticos, e pouquíssimas como artistas, estarei reforçando o que a sociedade patriarcal consignou como certo a respeito do meu corpo feminino: que ele é único, não comportando diversidade, e que deve ser um deleite para os olhos masculinos.

Certa vez, fui à exposição do Caravaggio no Masp. Lá vi um quadro da artista italiana Artemisia Gentilleschi. Belíssimo, forte. E na legenda dizia: “Artemisia Gentilleschi, pintora. Foi filha de… e amante de…”. Já as legendas sobre o Caravaggio, claro, não traziam nenhuma referência aos seus casos amorosos.

Auto-retrato como a Alegoria da Pintura, 1630 – Artemisia Gentilleschi

Entendem como a arte e o como ela é exposta reitera o que vivemos no dia a dia?

Falando um pouco do cinema, acho que essa situação fica ainda mais clara, pois temos a festa do Oscar, que é acompanhada pelo mundo todo e na qual as artistas da sétima arte começaram a protestar.

Há alguns anos, muitas denúncias começaram a surgir. Desde pagamentos muito diferentes para atores e atrizes até a discriminação por idade e casos de assédio.

Também começaram a destacar os pôsteres dos filmes, que trazem, quase na totalidade, mulheres nuas ou em situação de submissão à violência. Alguns testes surgiram, como o teste de bechdel, que sugere três itens para verificarmos se o filme não está de acordo com os ditames machistas:

  1. Deve ter pelo menos duas mulheres.
  2. Elas conversam uma com a outra.
  3. Sobre alguma coisa que não seja um homem.

Acho que  você já deve ter imaginado que a maioria dos filmes de Hollywood não têm a resposta “SIM” para estas três perguntas. Pelo contrário, foi verificado que até em filmes com protagonistas femininas, elas falam menos, mas aparecem nuas até 3 vezes mais.

Aliás, a nudez no cinema tem sido muito combatida pelas feministas. Algo muito comum é ver mulheres “enfeites” em cenas de cinema. E o que é isso? É aquela atriz figurante que está ali só para preencher a cena. Ela não tem fala, não tem importância na história, mas está lá e, geralmente, nua. A série Game of Thrones tem recebido muitas críticas por isso, e também por colocar um número excessivo de estupros que sequer constam no livro que deu origem à história.

Além da nudez fácil e desnecessária, os filmes, e aqui também podemos colocar as séries, tratam o relacionamento abusivo como algo natural e, pasmem, relacionado ao amor: “ele bate porque tem dificuldade, mas te ama”, “ele te persegue porque é louco por você”, etc. E assim vamos novamente reiterando um comportamento já existente e consolidado na nossa sociedade patriarcal, a que chamamos de “cultura do estupro”: naturalizar e aceitar a violência contra a mulher.

“Lolita” – 1997, Adrian Lyne

Podíamos ainda destacar muitos outros fatos, mas vou parando por aqui. Neste momento político e social que estamos vivendo, falar de cultura e da importância de olharmos atentamente para essas questões parece perfumaria. Mas não é. Não podemos deixar os direitos das mulheres e os questionamentos das desigualdades e violências que sofremos para depois. Uma sociedade justa é formada por uma base igualitária, e a igualdade de gênero é essencial para alcançarmos esse desejo.

A arte tampouco é perfumaria. Ela está no nosso dia a dia, por mais que não percebamos. E não podemos nos esquecer de que o que eu coloquei aqui se aplica, ainda mais, para ser sincera, à chamada cultura de massa. Nossas novelas, músicas, filmes “blockbuster”, filmes publicitários e séries trazem também essa objetificação, nós os consumimos em nossos momentos de lazer e, muitas vezes, eles viram, inclusive, referência de comportamento.

Eu defendo que temos que levantar essas questões e fomentar o trabalho das mulheres. Sim, porque nós não estamos nos cargos que definem o que será mostrado e produzido. Ainda somos poucas nas produtoras de filmes, nas curadorias de museu. Mas, ainda sim, tem muita mulher talentosa fazendo arte e, para mim, uma forma de começarmos a mudar essa situação que coloquei acima é fomentar esses trabalhos, divulgá-los e discuti-los.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

Comments are closed.