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Um das minhas paradas Santuário do Caraça. Foto: Priscilla Leal

Quando queremos atingir um objetivo, a primeira ideia que temos é: não posso parar até conseguir. E, assim, geralmente, não tiramos  férias e não nos permitimos parar enquanto não atingimos o que queremos.

Claro, outras questões acabam interferindo e dinheiro acaba sendo a principal delas, especialmente para os autônomos. Afinal, como parar com a grana curta?

O problema dessa crença é que corremos um sério risco de nos esgotarmos. E, esgotadas, a criatividade estanca. É como um rio: ele fica poluído, sujo e a água passa com dificuldade.

Como cita Clarissa Pinkola Estés no seu clássico livro “Mulheres que correm com lobos”, às vezes precisamos deixar a coisa cozinhar para chegarmos a uma resposta/resultado. Deixar cozinhar é saber esperar.

De acordo com o dicionário, ansiedade é:

grande mal-estar físico e psíquico; aflição, agonia.

fig. desejo veemente e impaciente.

Esse mal já está sendo considerado o mal do século XXI.

E de onde vem tanta aflição? É só olharmos em volta.

Estamos a todo momento recebendo notícias, informações, estímulos.

Lembro-me de que antes só acessava o mundo virtual quando ia a uma lanhouse. Hoje, acordo e já tenho tudo no meu celular. E o que aconselho aqui não se trata de amaldiçoar a tecnologia, mas de ter consciência de que ela pode nos deixar mais aceleradas, ansiosas e poluir nosso rio criativo.

Outra parada Carrancas e as águas que limpam tudo. Foto: Priscilla Leal

No texto “Clarissa Pinkola Estés e Virgina Woolf: a criatividade da mulher”, cito que as frases que nos desqualificam e não reconhecem nossos talentos são grandes poluentes da nossa criatividade. Por não termos espaço para nos expressarmos artisticamente, muitas vezes “a arte acaba sendo deixada para momentos roubados, curtos e que sobram”.

Com este texto, venho chamar a atenção para o outro lado da moeda: mulheres que vivem da sua arte ou possuem total possibilidade de realizá-la como segunda profissão, mas que não param, não dão pausa na sua produção.

Os motivos são variados: você está colocando todas as suas fichas lá e tem que dar certo, a grana está acabando e tem que dar certo, você quer muito que dê certo, e alguns outros que você pode acrescentar.

O problema é que essa ansiedade que surge do “tem que virar” polui sua mente criativa, e você acaba não vendo saídas óbvias.

Decidimos que tem que ser “assim”, nos damos prazos, exigimos da gente uma genialidade que aprisiona. Afinal, o relógio está andando, no Facebook todo mundo já está com projeto novo e só o seu que não sai, você está com uma idade que exige que tenha resoluções…

Sempre haverá motivos para a pressa, mas a criatividade não combina com ela. Pelo contrário. Com certeza já aconteceu com você o seguinte: você está pensando em um projeto e a ideia não vem. Só sabe que quer se expressar, mas não sabe o que, nem como. Você faz o projeto, mas sente que ainda não chegou. De repente, num outro momento, você está fazendo algo que não tem nada a ver com o seu projeto e… BAM! Tudo fica claro!

Os cientistas explicam esse fenômeno. Nosso cérebro é como uma máquina de apostas. O tempo todo ele tá apostando em pequenas coisas. E, claro, uma hora ele acerta. Agora, experimente deixar um computador ligado o tempo todo. Com certeza ele vai pifar ou dar algum problema. Imagina então a nossa cuca!

No livro “Roube como um artista – 10 dicas sobre criatividade”, do Austin Kleon, ele diz :

“Reserve tempo para ficar entediado. Uma vez escutei um colega de trabalho dizer ‘Quando fico muito ocupado, fico idiota’. Totalmente de acordo. Pessoas criativas precisam de tempo para sentar e não fazer nada. Tenho algumas das minhas melhores ideias quando estou entediado, e é por isso que nunca levo minhas camisas para a lavanderia. Eu adoro passar minhas camisas ­– é tão entediante que quase sempre gera em mim boas ideias. Se está sem ideias, lave a louça. Faça uma longa caminhada. Fique olhando para um ponto na parede o máximo de tempo que puder. Como a artista Maira Kalman diz: ‘Evitar trabalho é a maneira de focar minha mente’. Reserve tempo para se distrair. Perca-se. Sonhe. Nunca se sabe aonde isso vai levar”.

O que impede muitas vezes uma artista de ficar entediada é o dinheiro. Precisamos ganhá-lo, até mesmo para continuar a nossa arte. O que alguns artistas fazem e o próprio Austin Kleon defende é: tenha alguns projetos em paralelo. Assim, você pode andar por eles. Ter um mais “comercial” e o outro mais autoral, por exemplo. Ou, como muitas artistas também fazem: ter o trabalho “careta” no escritório/empresa e em paralelo seguir sua arte.

Sei que você deve estar pensando: fácil falar, difícil fazer. De fato! A cabeça da gente e a tal ansiedade nos pegam pelo pé. Elas cobram rapidez, nos dão medo, nos prensam na parede.

Contemplar o aqui e agora. Consegui isso em Ouro Preto. Foto: Priscilla Leal

Mas se você chegar a um ponto de esgotamento, como vai criar? Como seguirá com sua arte?

É necessário criar algumas rotas de fuga, e isso é bem particular. Tem gente que gosta de viajar, tem gente que gosta de correr, de ler algo que foge totalmente do seu universo, de passear com o pet ou plantar. Não importa o meio, o que interessa é: tenha um momento de pausa e tédio.

E não sou eu que falo. No capítulo “As águas claras: o sustento da vida criativa”, Clarissa Pinkola Estés diz:

“Perder o rumo significa perder a energia. A tentativa absolutamente equivocada quando perdemos o rumo é a de correr para arrumar tudo de novo. Correr não é o que devemos fazer. Como vemos na História, sentar e balançar é o que devemos fazer. A paciência, a paz e o balanço renovam as ideias. Só o ato de entreter uma ideia e a paciência para embalá-la são o que algumas mulheres poderiam chamar de grande prazer. A mulher selvagem o considera uma necessidade”.

E continua:

“Qualquer que seja a sua ideia de uma trégua, muito embora elas [mulheres] estejam falando com um cansaço e uma frustração humilhantes, eu sempre digo que é uma boa ideia, que chegou a hora de descansar. Ao ouvir isso elas geralmente berram, ‘Descansar? Como posso descansar quando o mundo inteiro está se destruindo diante dos meus olhos?’. No final, porém, a mulher precisa descansar agora, ser embalada, recuperar seu rumo. Ela precisa rejuvenescer, recuperar sua energia. Ela acha que não pode fazer isso, mas pode sim, pois o círculo de mulheres, sejam elas mães, alunas, artistas ou ativistas, sempre se dispõe a suprir a falta das que saem de licença. A mulher criativa precisa de descanso agora para voltar ao seu trabalho intenso mais tarde”.

Proponho que descansemos nossas ideias! Jamais abandoná-las. Vamos balançá-las.

E você? Tem parado? Conte para a gente como você faz isso. E, se não faz e se sente cansada… não seria a hora de dar uma volta?

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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