A fotografia social de Catherine Opie

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Opie self portrait

Que há mulheres artistas talentosíssimas quando o assunto é fotografia, sabemos. Mas algumas delas, mais que vocação para clicar, têm prazer em fazer de suas câmeras uma arma de luta pela responsabilidade social. Pois é o caso de Catherine Opie, fotógrafa nascida no estado americano de Ohio e que se estabeleceu em West Adams, Los Angeles. Casada com uma outra artista, a pintora Julie Burleigh, Opie se descobriu amante da fotografia muito cedo, aos 9 anos. Depois de estudar o trabalho do famoso fotógrafo social Lewis Hine na escola, pediu aos pais uma câmera de presente de aniversário. Ganhou e saiu clicando tudo o que encontrava ao redor: os amigos, a cidade, a natureza. Como resultado formou-se como fotógrafa “pelas ruas”, e retratos, construções e paisagens tornaram-se sua especialidade. Mas ela vai além: registra atitudes e relacionamentos, intra e interpessoais, e as maneiras como as pessoas ocupam a paisagem e como a cidade se comporta no meio disso tudo.

Como exemplos, os surfistas que clica não estão surfando, mas cansados após pegarem ondas; os jogadores de futebol americano aparecem nas imagens de forma mais fragilizada, sem a brutalidade que demonstram em campo; casais de lésbicas são registrados em cenas românticas. Sim, como mulher homossexual, Opie dá grande ênfase na identidade sexual de seus retratados, e não tem medo de ousar – como no autorretrato em que amamenta seu filho bebê. Mas também não faz disso uma necessidade, já que fotos belas de paisagem ou mesmo os pequenos malls – shoppings a céu aberto – de Los Angeles ganham igualmente espaço em seu trabalho. Enfim, através de suas lentes, Opie documenta as conexões entre o(s) indivíduo(s) e o espaço habitado por eles.

Aos 55 anos, ela já recebeu diversos prêmios de fotografia, e expôs em galerias do mundo todo. Inclusive, no ano passado, uma “feliz coincidência”, em suas próprias palavras, fez com que fotos suas estivessem expostas ao mesmo tempo nos três museus contemporâneos mais importantes de Los Angeles. Nas palavras de Connie Butler, renomado curador que foi responsável por expor o trabalho de Opie no Hammer Museum, ela é admirada “por uma exploração generosa e tecnicamente brilhante de comunidades americanas e cidadania, incluindo comícios, posse do presidente Barack Obama, surfistas, jogadores de futebol das escolas e as famílias lésbicas em todo o país”. Por sempre ter evitado trabalhos comerciais, não alcançou a fama de outros fotógrafos famosos dos EUA, como Richard Avedon ou Annie Leibovitz, mas o curador Connie Butler chegou a afirmar estar convencido de que suas fotos “vão se tornar definidoras de uma era, marcar o tempo com reflexões clássicas da identidade americana”.

Além disso, Opie é uma feminista. Uma das provas disso é o famoso autorretrato em que amamenta seu filho, seminua, aos 40 anos de idade, e que foi aclamado como uma resposta formal às santificadas imagens de Madonna-and-child da história da arte ocidental. É uma imagem incrivelmente poderosa do que a maternidade é e do que agora sabemos sobre ela no mundo contemporâneo. Retrata uma mulher totalmente “fora dos padrões femininos”, mas que é igualmente mãe. “Imagens como essa vão permanecer com o tempo”, afirmou o curador Butler em uma entrevista. Mais tarde, em 2012, a fotógrafa recriou a cena de forma ainda mais ousada, com o namorado de sua filha segurando o neto de Opie. Era um homem másculo ocupando o lugar sagrado de Madonna, um homem sendo igualado à mais feminina ação de uma mulher. Uau!!

Outro tema do universo feminino, a menopausa, foi retratada por ela de forma artística. Numa imagem gótica, ela apresenta o par de irmãs Kate e Laura Mulleavy, conhecidas estilistas de moda de vanguarda, que foram responsáveis pelos figurinos para o filme Cisne Negro. O retrato, que mostra as irmãs em vestidos longos, bordando uma grande gota de sangue, foi chamado pela própria fotógrafa de “uma alegoria para algo quase tão assustador culturalmente quanto o sadomasoquismo: mulheres e envelhecimento”. “Elas estão costurando o gotejamento de sangue que eu já não tenho, por isso é um retrato do mundo pós-menopausa para mim”, Opie contou, na ocasião da exposição da imagem em um museu em LA. “O sangue sempre foi algo que eu, pessoalmente, valorizei muito, e é realmente interessante quando o sangue deixa sua vida pra valer, até mesmo de maneira que mensalmente não diremos mais ‘Oh, aquela substância se foi’.”

Opie vive com sua esposa Julie – em uma casa onde, aliás, foi construído um estúdio de trabalho nos fundos, para que ambas as artistas pudessem criar – e seu filho Oliver. A família é composta ainda por uma filha de sua esposa de outro casamento, já adulta. Ela é também uma das mais importantes professoras de fotografia atualmente na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Autointitulada uma fotógrafa da contemporaneidade, Opie lamenta que esse tipo de fotografia não seja muito popular agora. “Hoje não há mais do que umas poucas pessoas que de fato olhem para o mundo. Quero dizer, elas olham para o mundo do que elas estão comendo, para publicá-lo no Facebook”, disse em entrevista para um portal americano. Opie de fato destoa: é mais interessada no modo como as pessoas existem neste mundo do que em como as pessoa se enxergam nele. Suas fotos são como mapas encontrando pontos de empatia. E, como mulheres, não há como não nos simpatizarmos com as fotos que resultam do seu sensível olhar.

Opie Kate Laura Mulleavy

Opie e a Esposa

Catharine Opie

Opie surfer

 

Opie football player

Julie Anne Caldas
Julie Anne Caldas
Jornalista por formação, passei por redações dos mais diversos temas. Escrevi para revistas de gastronomia e política, redigi para publicações de saúde e de economia, trabalhei na TV como repórter de variedade e no rádio como repórter esportiva. Depois, enveredei para o lado das letras, dedicando-me à edição e revisão de textos. Hoje sou proprietária da TopTexto (www.toptexto.com.br), empresa que faz a revisão de todos os textos aqui do Las Abuelitas. Amante das letras, da comunicação e, principalmente de pessoas, adoro escrever sobre quase tudo, especialmente se der para polemizar. E foi o que a Pri me convidou para fazer aqui: todos os meses, trazer o tema da homossexualidade feminina expressa no mundo das artes.

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