A exaltação do amor materno: Um contexto histórico

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jeandielman-1600x900-c-defaultNo filme Jeanne Dielman, de Chantal Akerman, produzido em 1973, temos a história de uma mãe viúva e de sua rotina em função do filho. Ela acorda antes dele para preparar o café, escova seus sapatos todos os dias, arruma sua roupa. Pede desculpas no dia que deixa um dos pratos do jantar queimar e a melhor porção vai para ele. Em nosso ideário ocidental ela representa aquilo que toda mãe ter que ser, abnegada, focada em dar a melhor vida possível ao filho. Inclusive, no caso dela, para complementar a parca pensão deixada pelo marido, se prostituindo nos horários de aula do filho. Em uma cena do filme, confessa ao filho que nunca amou o pai, e que casar não era seu sonho, o que ela mais queria era ser mãe.

O filme é repleto de plano sequências em que mostra essa mãe em uma rotina completamente entediante, tudo realizado de forma metódica, e pensando no que o filho poderia querer. A prostituição que exerce toda tarde, recebendo um homem por dia em sua casa, é mecânica, sem prazer, e o dinheiro vai para educação do filho, que nada sabe. Percebe-se que todo amor que ela pode ter, pertence ao filho.

No entanto, essa ideia de maternidade, ou melhor, de maternagem é recente em nossa história. Sendo a maternidade capacidade de fazer nascer, ou sendo poética, dar à luz. Maternagem é o cuidado com a cria em si, a capacidade de amar a filha/o e cuidar dele.

A maternagem, tal como a conhecermos agora, surge nos meados do século XVIII e tem como principal defensor e idealizador o filósofo Jean Jacques Rousseau. Ele não será o único, vários escritos serão feitos para criar esta nova subjetividade, tornando a maternagem inerente a mulher.

Nos séculos anteriores a este, a maternidade/maternagem não era tida como uma essência feminina. A mulher era alimentadora, as vezes educadora, e era uma função exercida entre tantas outras, não havia uma exigência em ser mãe, inclusive, outras pessoas ou entidades poderiam exercer a função e não haveria nenhuma crítica a mulher que assim optasse. Por isso era muito comum as amas de leite, e os filhos eram entregues a elas assim que nasciam. E não era apanágio apenas das classes abastadas, as classes mais pobres também faziam uso da ama de leite, pois muitas vezes as mulheres camponesas ou operárias tinham que retornar rapidamente a sua labuta diária e não teriam tempo de amamentar.

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Quando sobreviviam, e a mortalidade infantil era extremante alta, as filhas/os eram mantidas alguns anos nas casas dos pais, tendo contato com eles durante apenas algumas horas. Sendo de boa família, os meninos eram entregues aos internatos, algumas meninas ao convento ou ambos seriam entregues a preceptores e teriam assim a sua educação. Se fossem de classe mais baixa, os meninos iam para incorporações de ofícios e se ficassem em casa, ajudariam os pais na lavoura e as meninas ajudariam as mães, a educação confundia-se com a ideia de tarefas domésticas, não havia uma ideia de infância, sendo todos mini adultos.

Mas no século XVIII esses conceitos iram mudar aos poucos, e teriam seu ápice no século XIX, quando a noção de infância e maternagem estariam internalizadas na sociedade. Os historiadores consideram como principal motivo para explicar a mudança de paradigma a preocupação do estado com as altíssimas taxas de mortalidade infantil, pois o mundo ocidental vivia o apogeu da primeira fase do capitalismo e a burguesia necessitava de indivíduos fortes e saudáveis. A criança começou a ser vista como força do capitalismo e a mulher burguesa foi promovida a principal força motriz deste novo empreendimento.

Outro motivo para a exaltação da maternagem se deve ao iluminismo. Durante os séculos da razão, várias vozes se levantaram para exigir a igualdade entre homens e mulheres, principalmente nos direitos políticos e no acesso à educação. E durante boa parte do século XVII e XVIII, as mulheres intelectuais da nobreza, fizeram seus salões, onde homens e mulheres discutiram em pé de igualdade sobre ciências e filosofia.

Esta igualdade incomoda, é necessário devolver a mulher a um lugar, que não é igual ao homem. Mas se estava vivendo a pós revolução, a idade da razão e a mulher não aceitaria a mesma forma de submissão que havia antes, logo é criado um novo espaço, a mulher será a rainha do lar. Dentro deste bojo de mudança, outra alteração será o da imagem feminina. Até esse período ainda se vinculava a mulher ao imaginário da feiticeira, a que seduz e leva o homem a perdição, mas a guardiã da infância não poderia ser este ser malévolo, logo sai a Eva pagã e entra a Maria Imaculada.

A partir deste ponto e disseminada a ideia de mãe abnegada, que se sacrifica a prol da família, torna-se a mártir da modernidade, sendo que seus sacrifícios a redime dos pecados de Eva. Mulheres que não aderiam a este discurso eram consideradas patológicas, e é criado todo um rosário de culpas por não atender seus instintos ditos naturais.

Outro campo que ganhou novos contornos foi o da medicina. Durante toda idade média e boa parte da idade moderna, os médicos mantinham ideias que vinham desde os gregos, que o corpo masculino e feminino e seus órgãos reprodutores seriam iguais e que a diferença estava nos humores. Sendo o homem quente e seco, seu órgão seria exposto, e sendo a mulher fria e úmida, seu órgão ficaria dentro, a vagina era chamada de pênis invertido e os ovários sendo similares aos testículos. Achavam também que a mulher não tinha nenhuma participação na gravidez, sendo considerada um mero receptáculo do gérmen do homem, pois o esperma já estaria pronto para formar um novo ser. Havia uma diferença de gênero, mas não de sexo.

A mudança da forma de ver o corpo da mulher na medicina foi mais uma peça no jogo da modificação de ideia de maternidade/maternagem. Quando os médicos começaram a tomar os lugares das parteiras, perceberam que o corpo da mulher não era um corpo de homem imperfeito, mas sim que havia uma natureza feita para a maternidade, surgindo assim as áreas médicas da obstétrica e ginecologias, criadas para submeter o corpo da mulher ao olhar clínico, o médico veio salvar a mulher de si mesma, domando um órgão que é fonte de mãe e também da louca, o útero, esse errante.

As diferenças sexuais entram no jogo e o corpo da mulher é definido como feito para maternidade, para vida doméstica e para trabalhos que exigissem delicadeza e cuidado. A gravidez torna-se um tabu, e para preservar a ideia de mãe imaculada a sexualidade feminina é cerceada. Durante todo século XIX a mulher será educada para ser mãe, desde da tenra infância, recebendo bonecas ou na adolescência, ganhando animaizinhos, que serão cuidados como filhos, demonstrado que o instinto materno é inato.

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Essas ideias permanecem até os dias atuais, sendo sempre ressignificada, e na nossa modernidade, tendo apoio das mídias, e na capacidade de criar e recriar estereótipos e culpas.

Akerman, sendo feminista, não exalta a maternidade, em seu filme vemos no tédio e na lentidão esses séculos de controles, submissão, esse eterno discurso que molda nossa conduta, sentimentos, corpos, até que tudo exploda em assassinato, seja o nosso, do outro, ou de uma realidade moldada e infligida.

Bibliografia

Badinter, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Martins, Ana Paulo V. A ciência do feminino: a constituição da obstetrícia e da ginecologia. In: orgs. Adelman, M. Silvestrin C.B. Gênero e plural. Curitiba: Ed. UFPR, 2002. pp 101-116.

Nunes, Silvai A. O corpo do diabo entre a cruz e a caldeirinha: um estudo sobre a mulher, o masoquismo e a feminilidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

Moura, S. M. S. Araújo, M. de Fátima. A maternidade e a história dos cuidados maternos. In Psicologia, ciência e profissão. Vol 24, 2004. pp 44-55.

Perrot, M. Duby. G. História das mulheres: do renascimento à idade moderna. Porto: Afrontamento, 1991.

 

Lia Mendes – Especialista em História Sociedade e Cultura pela PUC

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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