Há pouco tempo assisti, outra vez, o documentário Women Art Revolution, sobre o movimento de arte feminista, que ocorreu nos Estados Unidos, na década de 1970.

O filme começa com uma entrevista sendo feita nas ruas de Nova York a partir da seguinte pergunta: “Você pode me dizer o nome de três mulheres artistas?”.

Dois dos entrevistados falam “Frida Kahlo”, mas ninguém traz os três nomes.

Esse é o mote para mostrar a importância do movimento feminista americano na arte nos anos 1970.

O ano de 1967 foi conhecido como “Summer Love”, ou, em português, O Verão do Amor. Em síntese, era o movimento hippie contrariando a ordem vigente com o lema “paz e amor”, mobilizações pacíficas e muitos festivais de arte.

Um anos após o Summer Love, em 1968, os Estados Unidos continuavam no Vietnã, e em terras norte-americanas se intensificavam outros movimentos importantes. Os panteras negras traziam a pauta racial, discutindo a grave invisibilidade dos negros no contexto social, assim como as mulheres, com a mesma discussão, mas focando em outro sujeito.

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As mulheres acentuaram sua luta com protestos explícitos, por exemplo, no Miss Estados Unidos, evento prestigiado e televisionado, no qual uma mulher foi detida por estar portanto algo mal cheiroso, que certamente seria jogado no espaço. Era necessário demonstrar que aquilo era um estereotipo que aprisionava todas as mulheres.

Esse percurso está documentado no filme “She’s beautiful when she’s angry”, que está disponível no NetFlix. Lá, podemos ver o impacto da obra “A mística feminina”, da ativista Betty Friedan, de como as mulheres se organizaram em grupo para compartilhar o conhecimento sobre sexualidade e seus corpos.

Era inevitável que todo esse contexto político fosse apropriado pela arte.

A diretora do documentário “Women Art Revolution”, Lynn Hershman Leeson, conta sua história: era um jovem de Cleveland que foi fazer pós-graduação em Berkeley, e de lá não saiu mais. De forma intuitiva, ela percebeu que algo estava acontecendo por lá e começou a registrar tudo com sua filmadora. Assim, ela pôde compartilhar conosco, por meio do documentário, entrevistas com Judy Chicago e Miriam Shapiro, e com diversas artistas que contribuíram para a arte feminista e que, hoje, não conhecemos.

As mulheres queriam direitos iguais. O índice de estupros era altíssimo. Ser dona de casa e ter o destino pré-determinado não era mais possível naquele contexto. Os estereótipos aprisionavam e torturavam: roupas e sapatos desconfortáveis, medidas corporais que não cabiam em todos os corpos,  sutiãs e outros elásticos que eram obrigadas a usar – e que apertavam, muito. O corpo queria respirar e muitas mulheres encontraram na arte o meio de trazer esse discurso à tona.

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“Alter Ego” Lynn Hershman Leeson

Chegar nos museus foi inevitável, e o que elas viram foi exclusão. Como diz Judy Chicago, “no final dos anos 1960, as mulheres artistas não tinham nenhuma visibilidade”.

Era o momento da arte minimalista, que, por ser uma arte intelectualizada, não encontrava ressonância na efervescência que era a cultura desse período. Era necessário inventar um outro tipo de arte, que desse conta da necessidade de expressão de uma geração. E é aí que o feminismo encontra um espaço para se apropriar da arte, a arte feminista.

Outro fator que fortaleceu o movimento foi o fato de ter mulheres feministas que escreviam sobre arte. O espaço estava propício, e as mulheres o ocuparam.

Arte feminista não é uma arte feita por mulher. Esse conceito jamais abarcaria a complexidade desse movimento. Arte feminista é uma arte política que traz em seu bojo um discurso, uma crítica ou uma denúncia ao que é ser mulher. O corpo aqui é apropriado de uma forma política.

Dessa forma, mesmo que a artista se recuse a ter sua obra denominada como arte feminista, essa leitura pode acontecer.

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Suzanne Lacey – “Learn where the meat comes from” – 1976

Uma das ações relatadas no documentário foi o protesto que as mulheres fizeram em uma bienal, realizada em Nova York, organizada pelo artista minimalista Carl Andre. Ele estava protestando contra a invasão do Camboja, determinada pelo presidente Nixon. Para tanto, retirou suas obras da Bienal de Veneza. Só se esqueceu de um detalhe: sua bienal era formada por homens brancos. Nenhuma diversidade. Ganhou um protesto.

Assim, as mulheres foram se fortalecendo e, cada vez mais, requerendo seu espaço na arte. Foi formada a primeira galeria de mulheres artistas, a A.I.R., que existe até hoje no descolado bairro Dumbo, no Brooklyn, e o primeiro programa de arte feminista dentro de uma Universidade da Califórnia (CarlArts), coordenado por Judy Chicago.

A ação mais emblemática realizada foi a instalação “WomanHouse”, em 1972.

É nesse momento também que mulheres se apropriam da performance, um meio encontrado para comunicar a complexidade da política feminista através do bom humor e da sátira, protegendo-se assim das agressões que começaram a sofrer, de um público machista, mergulhado no contexto patriarcal.

A performance ainda possibilitou a troca de identidade, à artista se representar como homem e a criar uma pessoa virtual, para espelhar a cultura da época. A própria diretora conta algumas de suas ações. Entre 1973-1979, ela viveu como Roberta. Tinha carta de motorista, psiquiatra. Roberta existiu de fato.

Outra ação realizada foram os vídeos – diários. Durante anos, Lynn Hershman Leeson confidenciou em vídeos seus desejos e traumas mais secretos. Como ela afirma, “o privado virou público, e o muito privado virou arte”.

O movimento de arte feminista transformou não só as implicações de gênero em arte, mas também a questão racial.

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Howardena Pindell “Free White and 21” – 1980

Alguns problemas também surgiram. Judy Chicago afirmou que, por mais maravilhoso que fosse ter o apoio de uma instituição educacional, a longo prazo não deu certo. Após deixar a CarlArts, fundou, com outras artistas, a oficina feminista “Woman Building”.

E, já que falamos de Judy Chicago, é necessário citar a obra icônica “The dinner party”, finalizada no final dos anos 1970, e que foi discutida até pelo Congresso americano, uma vez que era considerada pornográfica. Hoje está exposta no Museu do Brooklyn, em Nova York, no espaço Elizabeth A. Sackler for Feminist Art.

"The dinner party" - Foto: Priscillaleal

“The dinner party” – Foto: Priscillaleal

Nos anos 1980, os Estados Unidos sofreram alguns retrocessos, como a política econômica do presidente Regan e o assassinato do músico John Lennon. Nessa década, apesar de ser o momento em que nasceu o importante coletivo Guerrilla Girls, o movimento de arte feminista começou a sofrer algumas rupturas, com críticas internas a algumas posturas de artistas que começaram a se destacar, como Cindy Shermann e Barbara Kruger.

Outro fato que enfraqueceu o movimento foi a morte da artista Ana Mendieta, que caiu do 34º andar do apartamento que dividia com Carl Andre. Os artistas se mobilizaram para contratar um dos melhores advogados para Carl, mas, dentre as artistas do movimento feminista, não houve tal mobilização para defender a memória de Ana Mendieta. Esse apoio viria depois durante uma exposição no Museu Guggenheim, em que havia apenas uma mulher artista e obras de Carl Andre.

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Ana Mendieta

Ser mulher e se comunicar com o mundo por meio da arte não é fácil. Nós sabemos as dificuldades que encontramos. Aqui, estamos falando basicamente da performance e das artes plásticas, mas cineastas, fotógrafas, atrizes, diretoras, escritoras também não possuem um terreno fértil e igual para criar e dividir sua obra com o mundo. É uma batalha constante. Mas felizmente estamos retomando o espaço na arte.

Exposições com mulheres artistas, mesmo que não necessariamente feministas, estão sendo feitas, e com sucesso de público. Aqui no Brasil, tivemos a exposição de “Frida Kahlo” e “Mulheres Artistas — as pioneiras”, na Pinacoteca, entre outras.

Coletivos de teatro feministas estão ganhando força, e a performance está cada vez mais forte. Cito como exemplo as artistas Priscilla Toscano e Panmella Castro, aqui no Brasil.

Com a internet temos mais facilidade para nos comunicar e nos reunir. Temos esse espaço!

Não disponibilizei o filme aqui, por conta dos direitos autorais. Mas, fica a dica, com uma busca no Youtube você o encontra legendado.

Destaco que os fatos aqui trazidos são referentes à história norte-americana. Não podemos nos esquecer de que aqui, no Sul da América, nos anos de 1970, vivíamos uma cruel ditadura militar. Mas, ainda assim, criamos.

Esse tópico eu deixo para um próximo texto.

Priscilla Leal
Priscilla Leal
Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o) produtor(a) cultural, por isso convidei mulheres de diversas áreas para escreverem para nós. Idealizei e executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014.

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